Casos de repercussão nacional reforçam importância de denunciar violência contra mulheres

Indiciamento do cantor Victor e denúncia de agressão de advogado à ex-namorada evidenciam a persistência dos abusos contra a mulher. Minas registrou 126.710 casos em 2016

Valquiria Lopes
Sen­ta­das nos ban­cos das de­le­ga­cias de mu­lhe­res, ví­ti­mas de vio­lên­cia do­més­ti­ca e fa­mi­liar ten­tam pôr fim a um mal que in­sis­te em não ces­sar.
Com mar­cas ro­xas es­pa­lha­das pe­lo cor­po e ou­tras que vão além da dor fí­si­ca, elas se ves­tem de co­ra­gem pa­ra es­tar ali. São, atual­men­te, uma par­ce­la maior do que em anos an­te­rio­res, quan­do a le­gis­la­ção ain­da não era tão cla­ra em re­la­ção à vio­lên­cia de gê­ne­ro. Mas ca­sos de re­per­cus­são, co­mo os ocor­ri­dos nos úl­ti­mos dias, ain­da re­ve­lam a fra­gi­li­da­de a que a mu­lher es­tá ex­pos­ta quan­do o as­sun­to é o re­sul­ta­do vio­len­to do ma­chis­mo. On­tem, o can­tor Vic­tor, da du­pla Vic­tor & Leo, foi in­di­cia­do pe­la Po­lí­cia Ci­vil pe­la con­tra­ven­ção pe­nal “vias de fa­to”, de­pois de ter si­do de­nun­cia­do por agres­são, em 24 de fe­ve­rei­ro, à mu­lher Po­lia­na Cha­ves, de 29 anos. Ela es­tá grá­vi­da do se­gun­do fi­lho do ca­sal. A Po­lí­cia Ci­vil tam­bém tra­ba­lha pa­ra apu­rar ou­tro ca­so que cha­mou a aten­ção pe­lo ca­rá­ter de vio­lên­cia. Uma mu­lher, iden­ti­fi­ca­da co­mo K.L.P, de 41, foi agre­di­da pe­lo ex-na­mo­ra­do, no sá­ba­do, no Bair­ro Bu­ri­tis, na Re­gião Oes­te de Be­lo Ho­ri­zon­te.
A as­sis­ten­te de es­cri­tó­rio le­vou di­ver­sos so­cos e chu­tes no ros­to e fi­cou dois dias hos­pi­ta­li­za­da após ter­mi­nar o re­la­cio­na­men­to com o ad­vo­ga­do e lu­ta­dor de muay thai D.A.V.M.


Ca­sos de agres­são são os mais co­muns en­tre to­dos os ti­pos de vio­lên­cia pra­ti­ca­dos con­tra mu­lhe­res. Dados do Diag­nós­ti­co da Vio­lên­cia Do­més­ti­ca e Fa­mi­liar em Mi­nas Ge­rais, ta­bu­la­do pe­la Se­cre­ta­ria de Es­ta­do de Se­gu­ran­ça Pú­bli­ca, di­vul­ga­do em mar­ço des­te ano, mos­tram que es­sa mo­da­li­da­de de cri­me cor­res­pon­deu por 46,71% do to­tal de 126.710 ocor­rên­cias re­gis­tra­das no ano pas­sa­do. A lis­ta in­clui vio­lên­cia fí­si­ca (59.188); psi­co­ló­gi­ca (53.696); pa­tri­mo­nial (6.433); mo­ral (3.129); se­xual (1.788); além de ou­tras (2.486). Os nú­me­ros mos­tram uma rea­li­da­de mui­to cruel: por dia, 162 mu­lhe­res são ví­ti­mas da mão vio­len­ta de seus ma­ri­dos, com­pa­nhei­ros ou fa­mi­lia­res. E o pe­ri­go é maior jus­ta­men­te na com­pa­nhia de quem elas de­ve­riam se sen­tir se­gu­ras, já que 43% dos agres­so­res são os pró­prios com­pa­nhei­ros ou na­mo­ra­dos das ví­ti­mas.

No ca­so do Vic­tor, o ar­tis­ta foi in­di­cia­do com ba­se no lau­do pe­ri­cial das ima­gens das câ­me­ras de se­gu­ran­ça do pré­dio on­de ele mo­ra com Po­lia­na, no Bair­ro Lu­xem­bur­go, na Re­gião Cen­tro-Sul, e tam­bém pe­lo de­poi­men­to da ví­ti­ma. A con­tra­ven­ção pe­nal “vias de fa­to” es­tá pre­vis­ta no ar­ti­go 21 do De­cre­to- Lei 3.688/41, con­for­me in­for­mou a Po­lí­cia Ci­vil.

DE­FE­SA
Por meio de uma re­de so­cial, o ser­ta­ne­jo se de­fen­deu na tar­de de on­tem: "Pes­soal, eu ve­nho a pú­bli­co pa­ra es­cla­re­cer uma coi­sa dian­te da qual sur­gi­ram e sur­gem in­con­tá­veis boa­tos. Eu fui in­di­cia­do le­gal­men­te por vias de fa­to, con­tra­ven­ção. Ou se­ja, eu não ma­chu­quei nin­guém. O que eu pra­ti­quei foi um ato de de­ses­pe­ro, pa­ra con­ter uma pes­soa que es­ta­va com­ple­ta­men­te fo­ra de si, de pe­gar em uma crian­ça de 1 ano. E pe­la mi­nha fi­lha, o que eu fiz, eu fa­ria de no­vo. En­tão, tu­do es­tá sen­do apu­ra­do de­vi­da­men­te", dis­se Vic­tor, em ví­deo. Pro­cu­ra­do pe­lo si­te EGO, Fe­li­pe Mar­tins Pin­to, ad­vo­ga­do de Vic­tor, ga­ran­tiu que seu clien­te re­ce­beu a no­tí­cia com tran­qui­li­da­de. "Ele con­fia na Jus­ti­ça, e na apu­ra­ção do ca­so", afir­mou o ad­vo­ga­do.

Já a vio­lên­cia pra­ti­ca­da con­tra a as­sis­ten­te de es­cri­tó­rio K.L.P., de 41, po­de ser clas­si­fi­ca­da co­mo ten­ta­ti­va de fe­mi­ni­cí­dio, de acor­do com a Po­lí­cia Ci­vil, que ins­tau­rou on­tem o in­qué­ri­to pa­ra in­ves­ti­gar o ca­so e de­ve ou­vir o sus­pei­to e tes­te­mu­nhas nos pró­xi­mos dias.

No dia da agres­são, ela foi le­va­da in­cons­cien­te pa­ra o Hos­pi­tal de Pron­to-So­cor­ro João XXIII, on­de fi­cou in­ter­na­da du­ran­te dois dias.

A ad­vo­ga­da da ví­ti­ma, Isa­bel Araú­jo Ro­dri­gues, con­tou que no sá­ba­do a mu­lher de­ci­diu rom­per o na­mo­ro de cer­ca de um ano por­que já vi­nha per­ce­ben­do o com­por­ta­men­to agres­si­vo e ciu­men­to. A agres­são, se­gun­do a ad­vo­ga­da, ocor­reu quan­do ele foi ao apar­ta­men­to de­la bus­car per­ten­ces pes­soais. “Ele a sur­preen­deu na por­ta­ria do pré­dio com uma ras­tei­ra. Ela caiu na cal­ça­da e ele co­me­çou a agre­di-la com vá­rios so­cos e chu­tes no ros­to. Os mo­ra­do­res con­ta­ram à PM que pre­sen­cia­ram o mo­men­to da agres­são e que o ho­mem “pi­sa­va na ca­be­ça da ví­ti­ma e a ba­tia so­bre o meio-fio do passeio”.

- Foto: Arte EM

MA­CHIS­MO
De acor­do com a de­sem­bar­ga­do­ra da 1ª Câ­ma­ra Cri­mi­nal e su­pe­rin­ten­den­te da Coor­de­na­do­ria da Mu­lher em Si­tua­ção de Vio­lên­cia Do­més­ti­ca e Fa­mi­liar do Tri­bu­nal de Jus­ti­ça de Mi­nas Ge­rais (TJMG), Ká­rin Em­me­ri­ch, ca­sos co­mo es­ses são re­sul­ta­do da cul­tu­ra ma­chis­ta e pa­triar­cal que ain­da não se rom­peu. “O ho­mem vê a mu­lher co­mo um ob­je­to do qual ele tem pos­se e que po­der fa­zer o que quer. Que po­de ba­ter, po­de ma­tar, por qual­quer mo­ti­vo. Já hou­ve mui­tos avan­ços, cla­ro, mas ain­da es­ta­mos em fa­se de tran­si­ção e te­mos mui­to o que avan­çar em re­la­ção ao res­pei­to pe­las mu­lhe­res, por­que com­por­ta­men­tos vio­len­tos de qual­quer na­tu­re­za não po­dem ser con­si­de­ra­dos nor­mais”, diz. A psi­có­lo­ga e coor­de­na­do­ra da Ca­sa Sem­pre Vi­va, Ca­ro­li­na Mes­qui­ta, ex­pli­ca que os ca­sos de vio­lên­cia fí­si­ca são os mais co­muns en­tre as de­nún­cias por­que são o ex­tre­mo que a mu­lher po­de su­por­tar. “Mui­tas ve­zes, a mu­lher só con­se­gue de­tec­tar que es­tá em um re­la­cio­na­men­to abu­si­vo quan­do a vio­lên­cia se tor­na mais ex­plí­ci­ta.
Mas, de fa­to, hou­ve ações an­te­rio­res que es­ta­vam sen­do na­tu­ra­li­za­das pe­lo ca­sal”, afir­ma a psi­có­lo­ga.

SI­NAIS Ela aler­ta que pe­que­nos atos co­ti­dia­nos in­di­cam o pro­ble­ma.“Es­sa vio­lên­cia é tra­ves­ti­da de di­ver­sas for­mas, co­mo cui­da­do, con­fian­ça e ciú­mes. Quan­do, por exem­plo, o ho­mem diz que 'não é que eu não con­fie em vo­cê, eu não con­fio no ou­tro', ou 'eu que­ro fi­car com vo­cê o tem­po to­do' já in­di­ca um sen­ti­men­to de pos­se. Ain­da há quem ache nor­mal o ho­mem proi­bir a mu­lher de sair de rou­pa cur­ta ou so­zi­nha”, afir­ma. Ela pon­de­ra que o ciú­me é mui­to ro­man­ti­za­do pe­los ca­sais, já que ten­de a ser vis­to co­mo ações “bo­ni­ti­nhas”. Mas, são nos mo­men­tos em que a mu­lher diz “não” que o abu­so se tor­na mais ex­plí­ci­to. A psi­có­lo­ga ex­pli­ca que é o que acre­di­ta ter acon­te­ci­do quan­do K.L.P de­ci­diu rom­per a re­la­ção e D.A.V.M a es­pan­cou. “Pa­ra o ho­mem agre­dir uma mu­lher des­sa for­ma é por­que ele tem cer­te­za de que tem ra­zão. Ele acre­di­ta que não se­rá pu­ni­do”, afir­ma a psi­có­lo­ga.

O que diz a lei



Conhecida como Lei Maria da Penha, a Lei 11.340/2006 cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Em seu artigo 129, parágrafo 9º, estabelece que se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou se tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, fica determinada pena de detenção de 3 (três) meses a 3 (três) anos. A pena será aumentada de um terço se o crime for cometido contra pessoa portadora de deficiência. Nos casos de violência doméstica contra a mulher, o juiz poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação.

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