Dia Internacional da Mulher tem protesto marcado em Belo Horizonte

Na data internacionalmente dedicada à reflexão sobre os direitos femininos, movimento M8 convoca milhares de ativistas para ir às ruas e debater desafios e ameaças que elas enfrentam

Mobilização para atos do Dia Internacional da Mulher começou ontem. Entre as questões levantadas pelas participantes está a reforma da Previdência e o risco de perda de direitos - Foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press
“Não queremos presentes, queremos os nossos direitos.” É com esse espírito que a militante Deonara de Almeida Silveira, de 51 anos, sairá às ruas hoje, ao lado de milhares de mulheres que se reunirão em ato marcado para as 15h30, na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Se hoje elas vivem em uma sociedade na qual têm direitos ao voto, à participação política e acesso a métodos contraceptivos é devido à contínua luta pela igualdade entre gêneros. Para manter viva essa batalha, está mercada para hoje a Greve Internacional de Mulheres, movimento também conhecido pela sigla M8, com adesões em quase 50 países. No Brasil, mais de 60 cidades participam da mobilização, que lembra o dia internacional dedicado a elas.

O protesto M8 foi concretizado após as greves realizadas por ativistas na Polônia e na Argentina, como resposta à violência social, legal, política, moral e verbal enfrentada pelas mulheres. A proposta é que elas suspendam por um dia as tarefas domésticas e as atividades remuneradas, se reúnam e debatam a desigualdade de gênero. “A indústria tentou comercializar essa data, mas o 8 de março sempre foi um dia de luta feminina. A violência contra as mulheres, principalmente as negras, cresce a cada dia. Não sabemos se porque elas estão mais fortes e denunciando mais, ou se, de fato, o número aumentou.
Mas a consequência dessa situação é o medo de caminhar pelas ruas, de sermos estupradas, agredidas, inclusive por nossos parceiros”, afirma Deonara.

Reportagem divulgada ontem pelo Estado de Minas mostra números que comprovam esse cenário de apreensão: a cada hora, 15 mulheres são vítimas de estupros, torturas, espancamentos, humilhações, homicídios, roubos e outras formas de agressão em Minas, no ambiente doméstico e familiar. Entre os agressores, 43% são os próprios companheiros ou namorados das vítimas. Os dados fazem parte do Diagnóstico da Violência Doméstica e Familiar, divulgado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública. Nos últimos três anos, foram quase 388 mil ocorrências registradas por violência ligada ao gênero em território mineiro, seja ela sexual, física, moral, psicológica ou patrimonial.

A jornalista e educadora Fernanda Castro, de 44 anos, tem presença marcada hoje no movimento M8. “Vivemos em um país muito machista, e ainda ocupamos poucos lugares estratégicos na política, no Judiciário e no Legislativo. E eu falo como mulher branca, de classe média, reconheço meus privilégios. As pobres e negras vivem em uma realidade ainda mais complicada”, afirma. A professora inclusive se uniu a um grupo de 15 ativistas para conseguir recursos para fabricar adesivos sobre o movimento, que serão distribuídos hoje. Para Fernanda, a mudança começa no dia a dia, em pequenas ações. Tanto que ela decidiu explicar a importância da data para a funcionária que a ajuda em casa, e a liberou do expediente hoje, para que possa se conscientizar sobre o tema.

Questão previdenciária


Outro ponto cujo debate é considerado essencial pelo movimento são as reformas previdenciária e trabalhista em debate no país. Com a proposta do governo Michel Temer, elas temem ter seus direitos prejudicados. “Um dos pontos preocupantes é a perda da diferenciação, com adoção do mesmo tempo de aposentadoria para homens e mulheres”, afirma a também ativista Amélia Gomes, de 26.
Para ela, pelas regras propostas as trabalhadoras rurais podem ser as mais prejudicadas. Na tarde de ontem, cerca de 500 mulheres se reuniram em rodas de debate para discutir como a mudança de regras da Previdência interfere na vida de cada trabalhadora. Também vão se reunir amanhã e marchar pelas ruas da cidade como ato de repúdio à proposta e à gestão Temer.

Infraestrutura ainda é tímida


Apenas nos dois primeiros meses deste ano, a Delegacia de Mulheres de Belo Horizonte registrou mais de 1.500 atendimentos, 1.064 medidas protetivas, 935 inquéritos instaurados e 1.074 concluídos. Porém, ativistas ligadas à defesa dos direitos das mulheres consideram que não há delegacias especializadas suficientes e com atendimento apropriado para as vítimas de violência. “É muito difícil fazer denúncia, é um processo burocrático e muitas vezes inócuo. Às vezes, a mulher tem vergonha e ainda tem a questão da responsabilização da vítima, por causa da cultura em que fomos criados, que leva pessoas a acreditar que o comportamento da mulher gera ou justifica o abuso”, afirma Renata Chamilet, uma das organizadoras da campanha “Tira a mão: é hora de dar um basta” e administradora da página “As Minas do Carnaval de Belô”, que recebe denúncias de assédio.

L., agredida no carnaval de BH depois de rejeitar assédio: 'A polícia não está preparada' - Foto: Arquivo pessoal/DivulgaçãoL. O., de 35 anos, foi uma das vítimas que decidiram procurar Renata para relatar o assédio e agressão que sofreu durante o carnaval. Desmotivada por não ser bem acolhida pela PM, buscou as redes sociais para denunciar. “Eles não estão preparados para fazer esse tipo de atendimento. Generalizam, acham que só porque estou no carnaval, estou sujeita a esse tipo de coisa.
É o machismo, no geral. E isso não exclui a própria polícia”, avaliou.

L. conta que estava nas proximidades de um bloco no Bairro Floresta, Região Leste de BH, com o namorado, o filho, e alguns amigos, quando um homem se aproximou e a agarrou. “Ele não chegou conversando, chegou me pegando pela cintura. Eu disse que estava acompanhada e meu filho também se dirigiu a ele. Foi quando o homem me deu um soco no olho”, relata. “Subimos a rua e paramos uma viatura da Polícia Militar. Eu estava com o olho sangrando e não fui acolhida. Pediram para esperar, que outros policiais nos atenderiam. Até lá, o agressor já tinha fugido”, pontuou L.

De acordo com Renata, é natural que muitas mulheres não procurem o caminho da denúncia, por sentimento de vergonha ou por medo de que a providência seja inútil. “Desistir é fácil, por causa dos obstáculos. Há muitas barreiras para transpor até chegar ao momento da denúncia. Mas é muito preocupante que tenhamos um número tão baixo de registros oficiais de ocorrência, porque, para quem está de fora, pode parecer que o problema não existe. O assédio não pode ser naturalizado, é preciso denunciar”, convoca Renata..