Passagem de blocos de carnaval em BH exige paciência dos motoristas, diz BHTrans

Transtornos no primeiro grande desfile de BH, em dia útil e na Avenida Afonso Pena, reabrem a discussão sobre prejuízos da festa para o trânsito

Cristiane Silva Junia Oliveira
Bloco Chama o Síndico reuniu milhares de pessoas em área de grande movimentação da cidade a partir das 19h - Foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESS
Em cidade onde existe carnaval, tráfego e folia não combinam, mas precisam conviver. Problemas no trânsito de Belo Horizonte neste período festivo já vêm de outros anos, mas ficou evidente que uma solução de consenso está longe já no desfile do primeiro grande bloco deste ano – que saiu em plena quarta-feira, no Centro, em horário de pico. A festa, combinada com transtornos causados por um acidente que fechou o Anel Rodoviário, travou diversas vias da capital. O problema reacendeu a discussão entre foliões e motoristas sobre a possibilidade de conciliar a folia com o fluxo de veículos. Para a BHTrans, não tem jeito: os condutores terão mesmo de conviver com interdições e desvios nesses dias de festa.


Na quarta-feira, enquanto mais de 50 mil pessoas curtiam a passagem do Bloco Chama o Síndico, motoristas, pedestres e passageiros do transporte público faziam um exercício de paciência para aguentar o trânsito parado no entorno da Avenida Afonso Pena. A concentração do bloco começou às 18h30, na Praça Tiradentes, na esquina com a Avenida Brasil, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A BHTrans atribui a maior parte do caos registrado ao acidente com uma carreta de querosene, que tombou no Anel Rodoviário e causou impacto no trânsito em uma grande área da capital. Mas alerta que a população terá de se acostumar com o compartilhamento das vias durante o carnaval.

“Belo Horizonte vai ter um grande carnaval, com diversos blocos desfilando em vias públicas.

Entendemos que esse espaço vai ser compartilhado entre os veículos, pedestres e foliões”, afirma a diretora de Ação Regional e Operação da BHTrans, Deusuíte de Matos. “As pessoas têm que estar com esse espírito ao passar pelos locais dos blocos. Em algum momento não vão ter a prioridade no trânsito que têm normalmente”, acrescenta.

Resultado da aglomeração de pessoas em horário de pico foi o trânsito travado na região da Avenida Afonso Pena - Foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESSA diretora explica que os blocos desfilam conforme horários e itinerários de seus produtores, e que a Belotur tem se reunido com representantes de agremiações para minimizar os impactos na cidade como um todo, inclusive negociando horários de desfiles. Polícia Militar, Guarda Municipal, a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) e a BHTrans acompanham a movimentação nas ruas.

“Esse é um bloco de grande repercussão na cidade, que atrai muita gente, e tem a característica de desfilar na Afonso Pena. Não tem como falar para ir para outro lugar. O foco deles é ali. Era esperado que a gente fosse ter um trânsito mais lento. É óbvio que se você fecha uma das principais artérias da cidade às 18h30, não tem como falar que vai funcionar normalmente”, argumenta Deusuíte Matos. Um dos idealizadores do Chama o Síndico, Matheus Rocha, afirma que toda a construção do desfile do bloco ocorreu em reuniões conjuntas com a BHTrans, Bombeiros e Belotur.

A orientação da diretora é que os motoristas e a população em geral acessem as informações disponíveis nos sites da prefeitura e no aplicativo da Belotur, com horários e trajetos dos blocos de carnaval de Belo Horizonte, tanto para participar da festa quanto para evitar as rotas dos foliões. “Quem não tem opção e tem de passar, terá de compartilhar a via. O que posso assegurar é que a prefeitura pôs todos os recursos que tinha para causar o menor impacto possível”, diz.

Para Deusuíte, é importante que os moradores da capital entendam que houve uma mudança no perfil da folia nos últimos anos. “É preciso esse diálogo com a população, pois BH saiu do cenário anterior, quando não havia nada, para ter grandes atrativos no carnaval”, comenta.
“O momento correto é de compartilhamento. As vias são usadas pelos veículos sim, e pelos foliões. A cidade está se apropriando dos espaços públicos.”

Segundo a BHTrans, além da estrutura do Centro de Operações da Prefeitura (COP/BH), com uma sala voltada para os desfiles dos blocos e representantes de diversos órgãos, 500 funcionários da empresa trabalham nas ruas para minimizar os impactos no trânsito. Haverá reforço no transporte público a partir de sábado, inclusive com desvios fixos para os coletivos. Uma região da área central, que está sendo chamada de mancha, terá um desvio fixo. A Avenida Afonso Pena será interditada das 2h de domingo até as 12h de quarta-feira, entre as ruas da Bahia e dos Guajajaras, em ambos os sentidos, no Centro. Na prática, a interdição normal dos domingos continuará após o término da Feira de Artes e Artesanato.

Em Santa Tereza, na Região Leste, haverá intervenções na região da Praça Duque de Caxias a partir das 2h de amanhã até as 20h de terça. A empresa de gerenciamento do trânsito na capital informa ainda que haverá aumento das viagens de ônibus nos horários de início e fim de desfiles de blocos e também durante a madrugada. A empresa promete divulgar hoje em seu site os quadros de horário.

ORGANIZAÇÃO
Para o professor de engenharia de transporte e trânsito Márcio Aguiar, da Universidade Fumec, a ocupação das ruas durante o carnaval em BH é irreversível, mas é preciso mais organização. “Sinto falta de orientação, com agentes de trânsito ajudando.
Belo Horizonte é uma cidade que não está preparada para esse tipo de evento e, por isso, tem que improvisar. No Rio de Janeiro, por exemplo, eventos ocorrem na praia e nas grandes avenidas à beira-mar. É preciso avisar com antecedência e sinalizar com faixas e fazer divulgação”, afirma. Para o especialista, a BHTrans tem dificuldade em fazer isso.

A cantora Aline Calixto, que se apresenta no carnaval da capital, entende que o crescimento da festa representa benefícios para vários setores, e que com diálogo é possível equacionar os interesses. “As pessoas não buscam mais outros destinos neste periodo e até percebemos um aumento na chegada de turistas. Hotéis praticamente lotados, comércio fervendo, geração de emprego, há um verdadeiro aquecimento da economia. Por outro lado, é importante pensar na infraestrutura para receber esse contingente de pessoas”, afirma. Ela concorda que é preciso desenvolver estratégias para mininizar os problemas de trânsito, segurança e limpeza. “Com planejamento adequado, as coisas tendem a funcionar melhor.”

Ponto crítico

É viável promover um desfile no início da noite, em dia útil, em uma das avenidas mais movimentadas de BH?

Matheus Rocha
Integrante da organização do Bloco Chama o Síndico
SIM

“A cidade tem que assumir que este é um período de carnaval, oficialmente, de 11 de fevereiro a 1º de março. Em todas as cidades que têm uma cultura do carnaval mais forte, as pessoas já sabem que haverá desvio no trânsito. Há poucas avenidas largas que possibilitem a passagem do bloco. A Avenida Afonso Pena será muito usada, e cada vez mais, por mais blocos. Sabemos que sair numa quarta-feira exige uma logística mais complicada, mas a gente entende que essa é uma característica muito própria, pois fazemos isso há cinco anos. Sair numa quarta-feira é possível, sim, quando se tem uma logística bem pensada e comunicação bem feita.”

José Aparecido Ribeiro
Consultor em assuntos urbanos e autor do Blog SOS mobilidade Urbana, hospedado no uai.com.br
NÃO

“A interrupção de tráfego na Avenida Afonso Pena em uma quarta e uma quinta-feira que antecedem o carnaval não é razoável para uma cidade de 2,5 milhões de pessoas. Inacreditável que um prefeito em sã consciência autorize o fechamento da principal avenida da cidade para uma festa. A conclusão que se tira é que não existem leis, regras, bom senso ou respeito pela população que trabalha e tem compromissos. Os prejuízos são incalculáveis.Toneladas de CO2 foram despejadas na atmosfera em virtude dos engarrafamentos gigantes. São dias marcados por estresse e prejuízos incalculáveis para a maioria, em detrimento de uma minoria. Há relatos de ambulâncias que foram impedidas de chegar ao Pronto-Socorro João XXIII, que fica nas imediações. A cidade tem locais mais adequados para festas e eventos culturais.”

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