Apesar de o ministério e a Secretaria de Estado de Saúde (SES) informarem que providências foram tomadas diante do alerta, especialistas acreditam que elas não foram suficientes. Prova disso são os números relativos à enfermidade. No balanço diário divulgado ontem pela secretaria, mais quatro mortes foram confirmadas e outras 11, notificadas. Com isso, já chega a 127 o total de óbitos suspeitos, dos quais 48 comprovadamente causados por febre amarela somente em janeiro de 2017.
Ainda segundo o levantamento, são 774 casos notificados, dos quais 29 foram descartados e 132 confirmados. Na última sexta-feira, eram 486, mas, de acordo com a SES, o aumento significativo nas notificações deve-se à atualização de dados, que incluem casos com início dos sintomas durante todo o período de investigação, a maioria entre 8 e 14 de janeiro. Em relação ao boletim de quarta-feira, o balanço de ontem elevou em 35 o número de casos suspeitos e em seis os confirmados.
Quanto à área afetada pelo surto, já chega a 60 o total de municípios mineiros com notificações da febre amarela – seis a mais que no último levantamento. E em 31 deles já há casos confirmados. No dia do anúncio do surto, em 9 de janeiro, 15 cidades registravam notificações, ainda sem confirmação.
No Brasil, a forma urbana da febre amarela foi eliminada em 1942 e, desde então, só há ocorrência de casos silvestres com focos endêmicos. De acordo com o ministério, a maior parte dos recentes eventos de morte de macacos, em junho de 2014, ocorreu inicialmente na região Centro-Oeste do Brasil. “Posteriormente, foi observada a dispersão da transmissão nos sentidos Sul e Sudeste do país, quando afetou o estado de Minas Gerais, com registro de cinco mortes de primatas não humanos confirmadas até o momento”, informa o documento no site da Saúde.
O RASTRO DO SURTO Em março de 2016, uma pessoa morreu com a doença no município paulista de Bady Bassitt. Desde então, o número de mortes de macacos notificadas no estado vizinho aumentou e, no fim de 2016, já eram 16 confirmadas para febre amarela. Em dezembro, uma pessoa morreu pela doença em Ribeirão Preto (SP). No mesmo mês, pacientes começaram a adoecer em Minas e em 9 de janeiro o surto foi anunciado pelo governo mineiro.
Presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano é enfático ao dizer que o documento do próprio ministério confirma que a intensa circulação viral detectada na região indica a dispersão do vírus, a manutenção da transmissão ativa e a necessidade de providências. “A questão é saber quais intervenções foram feitas e se elas foram adequadas. O monitoramento de mortes de macacos é feito justamente para perceber se há um problema que exija, por exemplo, reforço vacinal.
As mortes de macacos fora da época considerada normal também são avaliadas pelo infectologista Unaí Tupinambás, professor da Faculdade de Medicina da UFMG, como sinal de alerta que poderia ter sido observado. “Uma cadeia de eventos poderia ter sido evitada, como a baixa cobertura vacinal da população ”, diz. Dados da SES mostram que na última década (2006/2016), o percentual de imunização dos mineiros era de 49% para a febre amarela.
De acordo com SES, a vigilância de mortes de primatas é desenvolvida de modo permanente no estado, já que é um eixo importante do programa de controle da febre amarela. A secretaria informou que, diante da notificação de qualquer evento dessa natureza, medidas específicas são adotadas de imediato. Em relação à morte dos primatas, é feita a verificação da denúncia pelo setor de saúde do município e, em caso de confirmação – segundo a saúde estadual –, ocorre a abordagem da população sobre medidas preventivas, protetivas e de educação para o controle de possível circulação do vírus. Os profissionais de saúde também são mobilizados, de acordo com a secretaria, que anuncia já ter aplicado neste ano 1,9 milhão do total de 3,4 milhões de vacinas já distribuídas.
O Ministério da Saúde, por sua vez, informou que a maior parte dos municípios afetados até o momento está em área de recomendação de vacina e que, independentemente da ocorrência de eventos de febre amarela, a pasta já orienta a manutenção de elevadas coberturas vacinais, para evitar casos e surtos nas áreas onde se reconhece o risco de transmissão. “Anualmente, o Ministério da Saúde emite alerta às vigilâncias epidemiológicas para intensificação das ações de vigilância oportuna, antes do início do período sazonal (dezembro/maio), a fim de aumentar a sensibilidade dos serviços de saúde para a detecção de eventos suspeitos”, informou a pasta, em nota. O documento ressalta ainda que a vigilância de mortes de primatas tem como objetivo detectar precocemente a circulação viral, possibilitando ações de prevenção e controle em humanos.
Ainda de acordo com a nota, não houve demora para início das ações de controle do surto. “A vacinação começou a ser reforçada quando ainda foram notificados os primeiros casos suspeitos.” A pasta frisa que, além de a vacina estar disponível no calendário nacional, todo o estado de Minas já estava dentro da área com recomendação de imunização. Em 2016, o ministério sustenta ter enviado mais de 3,1 milhões de doses para Minas.