A Lei Maria da Penha, que completou 10 anos ontem, encorajou as mulheres a fazer denúncias de maus-tratos e de violência doméstica. No entanto, ainda faltam políticas públicas para dar suporte às vítimas e encorajá-las a levar até o fim os processos, impedindo a impunidade dos agressores. “Faltam ações como cursos profissionalizantes, casas de acolhimento e apoio psicológico, para que elas saiam da dependência dos companheiros agressores”, afirma a delegada Karine Maia Costa de Faria, chefe da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher de Montes Claros, no Norte de Minas.
Leia Mais
Em 10 anos de vigência, Lei Maria da Penha reduziu em 10% assassinatos de mulheresLei Maria da Penha completa nove anos e fiscalização precária compromete proteção“As pessoas, às vezes, acham que a violência aumentou. Na verdade, a situação não se alterou muito, mas as mulheres estão formulando mais denúncias depois da promulgação da Lei Maria da Penha”, afirma a delegada Karine Maia. Por outro lado, ela salienta que a maioria das mulheres agredidas – em torno de 70% – denunciam as agressões dos companheiros, mas desistem de levar o processo até o final.
A delegada ressalta que, muitos casos, depois de serem denunciados, os homens reaproximam das vítimas com o argumento de que estão arrependidos e, junto com a reconciliação, também conseguem interromper os processos. Com isso ficam impunes.
Karine Maia ressalta que, além da falta de suporte para que tenham independência financeira, há vítimas que se submetem à situação de violência devido à própria cultura machista da sociedade. “Muitas mulheres toleram os companheiros violentos porque não têm condições financeiras de criar os filhos sozinhas. Mas, existem muitas outras que se submetem porque sentem vergonha de viver separadas”, relata a delegada.
Margarida (nome fictício), moradora de Buenópolis, na Região Central do estado, revela que viveu 18 anos com o ex-marido (pai dos seus três filhos). Nesse período, conta que era agredida, mas nunca teve coragem de ligar para a polícia e denunciar. “Sofri o tempo todo calada”, diz a mulher, destacando que somente se sentiu aliviada quando se separou.