Nas valetas por onde escoa a água da chuva, pedaços de para-lamas, para-choques, pneus cortados, para-brisas e outras peças de plástico, borracha e metal retorcido são vestígios de acidentes que deixaram muita gente no meio da MG-280. Uma das pontes da rodovia, sobre o Ribeirão Santo Antônio, não resistiu às chuvas de 2006.
Da parte de baixo do córrego, a visão da ponte tombada e da terra jogada sobre a estrutura de concreto ainda dependurada passa a impressão de que os caminhões pesados que passam por lá vão cair. Enquanto a equipe de reportagem esteve no local, passaram veículos com brita, cargas de madeira e ironicamente até asfalto, que seria usado na pavimentação de ruas na cidade de Alto Rio Doce, todos eles excedendo o limite de peso. Alguns caminhoneiros passam devagar, olhando das janelas dos veículos se a ponte não vai apresentar abalo ou sinal de que vá ruir.
PRODUÇÃO Os caminhões de leite e de transporte de mercadorias produzidas na região, como cachaça e carvão, precisam da estrada esburacada para chegar às fazendas e aos laticínios. Na rodovia, andar em linha reta é quase impossível, o que dá lugar a um lento zigue-zague para desviar de valas e depressões. “Em janeiro, por exemplo, tivemos de jogar fora nossa produção leiteira de 2 mil litros, porque os caminhões atolavam na estrada. Para não ficar no prejuízo, pegava o trator e levava o leite até a cidade, para fazer o transbordo. Começamos a usar o trator como único meio de chegar lá, mas estamos em um ponto em que até os tratores atolam”, afirma o produtor Alan Iatarola, de 28 anos.
A região de Dores do Turvo e Alto Rio Doce dá origem a cachaças muito apreciadas, mas a produção é prejudicada pela estrada. É comum ver pelas fazendas os tratores que puxam carretas de cana para as moendas e engenhos enfrentando dificuldade de tráfego. Os grandes desníveis e buracos constantes fazem esses veículos pularem o tempo todo, espalhando varas de cana pelo trajeto. Sem ter como recolher o material, o prejuízo vai ficando aos poucos pelo caminho. “A estrada é de suma importância para nós, produtores, mas os caminhões não conseguem passar pelos atoleiros. A estrada não tem tido qualquer apoio.
Na chuva ou na estiagem, o tráfego pela MG-280 é tão ruim que a única empresa de transporte que a percorria, a Unida, parou de circular em janeiro. “Não estávamos dando conta de cumprir o quadro de horários. A linha de Viçosa a Paula Cândido nos fazia gastar o dobro do tempo de viagem com desvios, transportando um terço dos passageiros”, justifica o representante da empresa, José Alfredo da Costa. Sem os ônibus, restou à população recorrer aos táxis, que também começaram a recusar viagens. “Estou até com meu para-choque quebrado, porque caí num buraco. Os ônibus deixaram os passageiros na mão, e por isso as pessoas estão procurando os taxistas. Mas temos muitos gastos com manutenção, e assim não compensa buscar gente na rodovia por preços acessíveis”, disse o taxista Helder Paulo de Campos, de 36.
Para não perder as aulas na faculdade de direito da UFV, que fica a apenas 64 quilômetros, o universitário Alexandre Rodrigues Lajes, de 20, teve de se mudar de Dores do Turvo para Viçosa. “Mesmo assim, ainda passo de quatro a cinco vezes por mês pela estrada. Se a gente tivesse uma rodovia boa, não precisaria morar em outra cidade, poderia ir e voltar todos os dias, porque é bem perto”, disse.
‘Se chove, não sai nada daqui’
Depois da região da Serra do Cipó e da Área de Proteção Ambiental do Morro da Pedreira, em Morro do Pilar, na Região Central de Minas, começa outra das piores rodovias do estado, a MG-232. Uma estrada com aparência de abandono, que não tem acostamentos e praticamente nenhuma sinalização. Partindo da cidade de Morro do Pilar, se envereda por curvas fechadas em torno de precipícios, passando por chapadas e vales. Corta, em sua maioria, fazendas e pequenas propriedades rurais de onde se escutam galos cantando e se avistam bois e cavalos nos pastos. A sensação de abandono da via não se resume aos buracos e atoleiros, mas também a estruturas sem manutenção, como pontos de ônibus de concreto que desabaram e não servem mais de abrigo. Crateras em aterros vão aumentando e ameaçam engolir a pista.
O discurso oficial, contudo, tem afastado as esperanças de que municípios ligados pelas mais precárias rodovias regionais de Minas Gerais tenham essas estradas pavimentadas e ampliadas. De acordo com o DER-MG, “todo município mineiro atendido por rodovias estaduais conta com pelo menos um acesso pavimentado”. Contudo, nem sempre a via asfaltada corresponde ao que essas cidades necessitam. “Ter pelo menos uma ligação é ter uma opção, mas não significa ser a melhor ou a mais viável. De qualquer forma, a rede de rodovias mineiras pavimentadas ainda é muito pequena”, afirma o especialista em transporte e trânsito Silvestre de Andrade Puty Filho. Atualmente, são 18 mil quilômetros de vias pavimentadas e 6.327 em leito natural.
De acordo com o DER-MG, são realizados rotineiramente “serviços de manutenção, que incluem cascalhamento dos pontos críticos, roçada e nivelamento da pista de rolamento” das estradas citadas. “Dos trechos não pavimentados citados, informamos que a MG-217 – trecho Água-Boa Malacacheta – com 48,8 quilômetros, está com obras de pavimentação em andamento, com previsão de conclusão neste ano. Nela serão investidos R$ 69,9 milhões”, informou.
MG-280 e MG-232 são uma das piores rodovias de Minas Gerais; veja
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