De 52 capivaras capturadas, apenas 14 voltam à orla da Lagoa da Pampulha

Animais foram soltos após ficar em cativeiro desde 2014, para evitar a proliferação de carrapatos que transmitem a febre maculosa. Outros 38 bichos capturados morreram

Valquiria Lopes Daniel Camargos

Capivaras são vistas na orla da Lagoa da Pampulha: decisão judicial considerou a manutenção em cativeiro 'uma ofensa a um bem protegido por lei' - Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press


A retirada das capivaras da orla da Lagoa da Pampulha teve resultado trágico para os animais. Das 52 capturadas em setembro de 2014, 38 morreram no cativeiro, o que representa 73% do total. A retirada dos bichos de seu habitat foi feita pela empresa Equalis Ambiental Ltda, contratada pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), para diminuir as chances de transmissão de febre maculosa, já que parte das capivaras que ficavam na orla da lagoa estava infectada com o carrapato-estrela, contaminado pela bactéria Rickettsia rickettsii, causadora da doença. Na sexta-feira, 14 capivaras sobreviventes foram soltas e, de acordo com a Fundação Zoo-Botânica de BH, nenhuma apresentava o carrapato portador da bactéria.

Na sexta-feira, o Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais conseguiu a revogação da liminar que impedia que as capivaras mantidas em cativeiro fossem soltas na orla da lagoa. A liminar havia sido concedida em uma ação ordinária da PBH contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Segundo o MPF, na sentença, a Justiça Federal destacou que “a captura e a manutenção desses animais em cativeiro, sem um plano de manejo adequado, representa ofensa a um bem protegido por lei.(...) Antes de representar uma solução para um problema ambiental antigo, revela-se desencadeador de outro mais grave e imediato”.

Ainda de acordo com o órgão, um laudo técnico veterinário da Fundação Zoo-Botânica de BH comprovou que os animais viviam em péssimas condições ambientais. Informou ainda que elas atravessavam a terceira e última fase da chamada Síndrome Geral de Adaptação, causada por estresse crônico do cativeiro e que leva a esgotamento físico e psicológico. Segundo com a Fundação, as 52 capivaras foram levadas para duas áreas protegidas no Parque Ecológico da Pampulha, onde recebiam alimentação e tratamento veterinário, de acordo com suas necessidades.

Ao explicar as razões das mortes dos animais, a Fundação informou que as capivaras capturadas eram animais de vida livre, que deveriam ficar presas por um período curto de tempo.
“No entanto, devido à questão da possibilidade de contaminação pela bactéria da febre maculosa, elas tiveram que ficar presas um tempo maior e não se adaptaram, ficando estressadas, o que culminou no óbito”, informou o órgão por meio de nota.

“(A captura) Foi uma decisão política e cruel que levou à morte lenta e dolorosa das capivaras”, lamenta o veterinário Leonardo Maciel, especialista em animais silvestres e presidente da Associação Bichos Gerais. Maciel considera que a morte das capivaras pode ser considerada um crime ecológico, mas acredita que dificilmente os responsáveis serão punidos. O veterinário pondera que a PBH foi alertada por especialistas de que a operação não teria benefício para a saúde pública.

CONSELHOS

Em janeiro do ano passado, a PBH chegou a recomendar aos frequentadores da lagoa que não ficassem longos períodos em áreas da orla por onde passam capivaras e que evitassem se sentar ou deitar na grama nesses locais. Com a libertação das capivaras na semana passada, os bichinhos voltaram a ser atração. Um grupo de 43 pastoras da Igreja Quadrangular de cidades do Vale do Aço vistava a Igrejinha de São Francismo, na tarde de ontem, e ficou encantado com um casal de capivaras, com um filhotinho.

“São fofos”, disse a pastora Franciele Cristina da Silva. Assim que viu a cena, aproveitou e fez uma selfie com a família de bichinhos. A dona de casa Maria Aparecida da Silva, moradora do Bairro Alípio de Melo, não vê tanta fofura. Parou de frequentar o Parque Ecológico por causa das capivaras. “Antes de soltá-las de novo a prefeitura deveria resolver os problemas e tratá-las. Também dá dó delas nadando nessa água suja”, afirma.

FEBRE MACULOSA
» O que é?
uma doença grave, transmitida ao homem pela picada do carrapato-estrela, infectado pela bactéria Rickettsia rickettsii. O carrapato se alimenta do sangue de animais, como cavalos, bois, cães e capivaras.

» Sintomas
Febre alta
Dor de cabeça
Dores no corpo
(principalmente na perna)
Mal-estar
Náuseas e vômitos
Em alguns casos, podem surgir manchas avermelhadas na pele, principalmente na palma das mãos e planta dos pés.

» Fique atento

Os sintomas iniciais da febre maculosa ocorrem entre o 2º e o 14º dia após contato com o carrapato e são semelhantes aos de outras doenças, como a dengue ou uma gripe forte.

» Diagnóstico e tratamento
A febre maculosa tem cura, mas é fundamental que o tratamento seja iniciado logo após o surgimento dos primeiros sintomas. Se não for tratada a tempo, pode matar.

» Onde ocorre
Os casos da doença são mais comuns nas áreas rurais, mas recentemente os casos da doença têm sido registrados nas áreas urbanas de várias cidades do Brasil, relacionados às atividades de lazer e trabalho.

» Como se prevenir

Ambientes com vegetação e presença de animais, como cavalos, capivaras e cães, tais como beira ou orla de lagoas, parques ou reservas ecológicas e áreas de gramados, são favoráveis à infestação de carrapatos. Portanto, nestes locais, previna-se:

Use roupas de cor clara e calçados fechados, preferencialmente com meias brancas e de cano longo, para facilitar a visualização do carrapato

Evite sentar-se e deitar-se em gramados nas atividades de lazer, como caminhadas, piqueniques, pescarias e prática de slackline

Use equipamentos de proteção individual nas atividades ocupacionais (capina e limpeza)

Mantenha os terrenos e gramados capinados rente ao solo, facilitando a penetração dos raios solares

Aplique carrapaticidas em cães e cavalos, segundo recomendação do médico veterinário

 

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