Policial militar que matou caminhoneiro a tiros em Governador Valadares é preso

Sargento Júlio César da Silva, de 44 anos, se apresentou à Polícia Civil na tarde desta segunda-feira e está detido em batalhão da Polícia Militar

João Henrique do Vale Landercy Hemerson
Policial atirou pelo menos cinco vezes contra a vítima - Foto: Reprodução
O sargento Júlio César da Silva, de 44 anos, que atirou contra o motorista Fábio Aguiar de Morais, de 36, morto em Governador Valadares, na Região do Rio Doce, se apresentou na delegacia da cidade na tarde desta segunda-feira. De acordo com a Polícia Civil, o militar foi ouvido e depois levado para um batalhão da Polícia Militar (PM) na cidade. O atirador entregou a arma usada no crime, mas não prestou depoimento.

Na manhã desta segunda-feira, um inquérito foi aberto para investigar o caso e foi decretada a prisão preventiva do policial. Ele chegou à delegacia em um carro particular e entrou pela porta da frente, por volta das 16h. Em nota, a Polícia Civil informou que o delegado não colheu o depoimento do sargento, “uma vez que o policial aparentava estar psicologicamente abalado e versa sobre ele a prerrogativa de prestar declarações em outras fases do inquérito”. O militar foi levado para a sede do 16º Batalhão da Polícia Militar onde ficará preso às disposição da Justiça.

O velório do motorista está marcado para começar às 20h desta segunda-feira, no Cemitério Jardim da Serra, em Mariporã, no interior de São Paulo. Segundo funcionários do local, o sepultamento será na terça-feira às 9h.




O sargento e o motorista, que eram vizinhos no Bairro Santa Rita, em Governador Valadares, tinham histórico de desavenças há cerca de um ano. A esposa de Fábio já havia se queixado do PM à Corregedoria da corporação. Viviane Silva de Aguiar contou que procurou o órgão e registrou três boletins de ocorrência e cinco reclamações de ameaças do policial contra a vítima e contra um filho do casal. "Eu espero uma providência que já deveria ter sido tomada há muito tempo. A vida do meu marido não vai voltar. Eu fiquei viúva e com três filhos. Isso (o crime) poderia ter sido evitado", desabafou em entrevista à TV Alterosa.

O assassinato

O crime foi todo gravado pela mulher da vítima, com um celular. As imagens mostram o bate-boca já em andamento. O policial militar, à paisana, segura um revólver na porta de um bar. No meio da rua, o caminhoneiro, sem camisa, com as mãos para trás, esconde um facão. Os dois trocam ofensas e ameaças: "Dá mais um passo pra você ver", diz o policial. "Você não é homem, você é homem com o revólver na mão", responde o caminhoneiro.
"Você é homem pra sua família", retruca o policial.

A mulher do caminhoneiro, postada atrás do marido, é quem grava as imagens. Um filho do casal, ao lado da mulher, tenta contato telefônico com a polícia e, a certa altura, diz: "Não tá atendendo, não." O policial à paisana também tenta acionar a PM com um celular, enquanto ele e o caminhoneiro seguem se ameaçando: "Você não vai me dar tiro, não, que eu vou rasgar você todo", anuncia o caminhoneiro. "Entra, então, que eu vou passar você no tiro", retruca o policial.

Finalmente, o filho do casal consegue contato telefônico com o 190: "Tem um policial aqui armado ameaçando", diz a voz. Pesssoas próximas reforçam, "Tá ameaçando, tá ameaçando!" Mas já era tarde para evitar o crime. O caminhoneiro reaparece na imagem, já sem o facão. O policial desdenha: "Você correu com a faca? Corre com a faca que eu te corto no tiro". "Que vai cortar o car...," desafia o caminhoneiro. O policial então larga o celular no asfalto e dispara a arma pelo menos cinco vezes.
A mulher grita desesperada e as imagens balançam, não sendo mais possível ver a vítima. O policial permanece na porta do bar, ainda com a arma do crime na mão. "Eu não acredito!", grita a mulher. "Chama a polícia depressa! Seu desgraçado!"

Segundo o boletim de ocorrência, os dois eram vizinhos e já tinham desentendimentos anteriores. O corpo foi encaminhado para o IML de Governador Valadares.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que o sargento Júlio César da Silva estava de folga no momento do crime. Ainda conforme a PM, há registros de boletins de ocorrência de briga de vizinhos que envolveram o atirador e os filhos da vítima. Devido aos desentendimentos, que foram relatados também à Corregedoria da Polícia Militar, eles foram levados para a delegacia. O texto destaca ainda que o "sargento Júlio é profissional exemplar, conforme sua ficha pessoal, possuindo em toda sua carreira conduta ilibada". (Com informações de Benny Cohen e Rafael Passos).