Repórteres do EM relatam experiências com carnaval de BH

Graziela Reis
Multidão de dar orgulho: o Baianas Ozadas, que percorreu o Centro de BH, mais uma vez, impressionou e foi o campeão de público - Foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press
O carnaval de Belo Horizonte, que há muito pouco tempo praticamente não existia, se consagrou como uma folia verdadeira, neste ano. Foram milhares e milhares atrás dos blocos. Calcularam 1,5 milhão de pessoas nas ruas da capital. Os foliões se entregaram à maratona e curtiram a festa de Momo com alegria e muita disposição. Saíam de casa pela manhã e só retornavam quando a noite firmava. A maioria – mineiro ou turista – só registrou diversão. Como houve aglomeração, também estiveram presentes problemas, como a sujeira, a desorganização do trânsito, brigas e assaltos, que podem ser contornados na temporada de 2017. Repórteres do Estado de Minas que acompanharam a festa, trabalhando ou não, registraram a emoção do carnaval de BH.
Que existe sim, senhor, e tende a se consolidar um pouquinho mais a cada ano.

Que seja sempre assim - Carolina Braga

“Você pode até ter experiências de outros carnavais, em outras cidades. Mas, dificilmente, terá uma noção completa do que se passa aqui, se pelo menos um dia não experimentar a diversidade que ocupa as ruas de Belo Horizonte nesta época do ano. Não é simples descrever. Nossa cidade reaprendeu a brincar. Descobriu um jeito muito próprio de se carnavalizar. Temos marchinhas, jazz, afoxé, axé, rock, funk, pop internacional, brega, sertanejo. Cada bloco tem sua cara. O movimento popular que ganha corpo aqui não tem paralelos. É original. É democrático. É alegre. É amor. É amizade.
Será sempre diferente porque as pessoas querem fazer assim. Não adianta colocar grade, delimitar trajetos, inventar camarotes, estabelecer normas. O povo é que escolhe. Novos blocos surgem renovando votos com irreverência. Quem foi ao Garotas Solteiras, Beiço do Wando, Angola Janga sabe muito bem o que isso significa. Os veteranos – nem tão experientes assim – triplicaram de tamanho sem perder a essência que os fizeram ser quem são. O carnaval cresceu. A estrutura oferecida pela cidade não acompanhou.

Faltou banheiro, faltou comida, faltou transporte público, faltou organização do trânsito. São nossos paradoxos. Apesar de todas as lacunas formais, sobrou leveza.
Apesar de tanta gente, o clima foi de harmonia. Andamos a pé pelas ruas da cidade como nunca. Visitamos lugares fora de nossas rotas tradicionais. Ouvimos ritmos que não frequentam nossos fones. Transgredimos regras, sem perder o respeito. Nos permitimos ser quem não imaginamos. Nosso carnaval é assim e que assim para sempre seja.”

Para entrar para a história - Guilherme Paranaiba

“Percorrer os blocos campeões de público do carnaval de Belo Horizonte em 2016 me fez ter uma certeza: se em 2015 a folia surpreendeu pelo tamanho e caiu nas graças do belo-horizontino, este ano o folião mostrou que se acostumou com a farra e não vai mais abrir mão da festa nos próximos anos. É emocionante ver ruas e avenidas do Jaraguá, Taquaril, Floresta, Centro e vários outros pontos da cidade repletas de gente, cantando, dançando e batucando ao som de marchinhas, axé, afoxé, rock, jazz, e qualquer outro tipo de som.

Mas esse mesmo folião que vem consolidando o carnaval de BH quer usufruir de uma estrutura compatível com o tamanho da empolgação e da animação dos moradores da cidade e de gente que vem de fora, inclusive, das maiores cidades do Brasil, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Para isso, precisamos aumentar o diálogo entre blocos e poder público e tomar decisões que sejam uma escolha certa para consolidar ainda mais essa festa, em assuntos como trânsito, percursos de blocos, som, vendedores ambulantes e outros. Em 2016, vi o maior carnaval da história de Belo Horizonte. Espero poder repetir a avaliação daqui para frente, mudando apenas a data.”

O melhor aproveitamento - Renan Damasceno

“Se o carnaval’2016 nos deixou algum ensinamento – além de ressaca, dor de cabeça e azia –, foi saber aproveitar melhor os espaços comuns. Ao chegar à Quarta-feira de Cinzas, a sensação de quem participou da festa é de que conseguiu recuperar algum pedacinho daquela cidade que ama, mas que esqueceu de admirar nos outros 360 dias do ano. Afinal, em qual outra data sambamos pela manhã na Rua Guaicurus ou descemos a pé da Praça da Liberdade à Praça da Estação?
Nos últimos quatro dias, não foi raro ver casais de foliões descansando o bumbo e o pandeiro no gramado de praças, crianças dançando despreocupadas nos blocos matutinos, grupos de amigos sentados em círculos na calçada ou famílias inteiras reunidas em bares ou carnavais de bairro. Lugares que até pouco tempo muitos desviavam da rota – como a parte de baixo do viaduto de Santa Tereza ou Rua Guaicurus –, receberam foliões de toda parte da cidade, sem incidentes.
Mais do que um ressurgimento da folia, o morador de Belo Horizonte tem vivido nesses últimos anos um redescobrimento da própria cidade. Agora, o desafio é continuar fazendo deste espaço um lugar melhor para viver. Que o respeito pela diversidade e pelos espaços públicos não seja restrito ao carnaval.”

Fantasia para o ano todo - Márcia Maria Cruz

“Terça-feira de Carnaval, depois de ao menos cinco horas embalada pelos ritmos nordestinos puxados pelo bloco Coco da Gente, ainda tenho força para a ciranda no entorno da Praça do Cardoso, no Bairro Santa Tereza. Todos ali agradeciam a seu modo: as meninas girando as saias de chita, os músicos nas batidas ritmadas do triângulo, na caixa, os foliões nas palmas e na marcação da dança. A cada carnaval, Belo Horizonte é reinventada. Sim, hoje nossa cidade é outra. Sempre penso em BH no feminino. Uma mulher como muitas de nós que, aos poucos passa a se conhecer, percebe-se linda e baila. Dança tanto, que os pés dão calo, doem. As pernas ficam bambas, mas não para. O carnaval de Belo Horizonte é resultado do sonho de que todos possam ocupar com criatividade praças e ruas. Neste ano, apostei nos blocos estreantes, embora não tenha abandonado os tradicionais.

Na segunda-feira, escolhi a dedo o figurino para a Corte Devassa, que mostra que a nobreza de sobra ao som dos batuques. Como, às vezes, a fome aperta, desvie do cortejo em busca de algo. No meio do caminho, a princesa Léia, Darth Vader, Luke Skywalker e Chewbacca. Estaria eu na Guerra das Estrelas? A julgar pelos sabres de luz e a Marcha Imperial, estava sim. O amigo francês que, há dois anos, elegeu o carnaval de Belo Horizonte o melhor do Brasil não para de agradecer ao destino. Fomos atrás do Unidos da Estrela da Morte.

No domingo, o plano era acompanhar o Alcova Libertina, o que fiz em parte. Em meio ao show, vi as fotos da concentração do Angola Janga e parti para a rua Guajajaras com Rua da Bahia. Ao chegar, pinturas tribais, black powers e muitos turbantes, que na cultura negra, são coroas. Cristal Lopez abriu ala e botou o bloco na rua. E fez tudo isso com a força e a beleza de mulher negra e trans. A evolução de nossa Beyoncé, nossa diva e rainha, foi tão linda que fez dos meus olhos uma cachoeira. O Angola Janga trouxe a corporalidade negra para o Centro. BH era o Curuzu por onde nosso Ilê Aiye desfilou.

Antes, pela manhã, um dos momentos mais lindos com o Pena de Pavão de Krishna. A onda azul em referência à divindade indiana teve um pequeno contratempo. Foi lindo seguir o bloco pelas ruas do Bairro Jardim Pirineus. O bloco, como tantos outros, segue fiel em propor olhares para regiões e bairros da cidade, pouco vistos.

Vou aos blocos pré-carnavalescos, que são um esquenta para a festa, mas o meu carnaval só começa depois de ouvir a bateria do Então, Brilha.! Atravessar a Guiacurus é como passar por um portal, onde me permito ser tudo Dominatrix, bailarina, indiana. O pirlimpimpim é a purpurina. Não tem como não brilhar. Na sexta-feira, atendi ao chamado do Tchanzinho Zona Norte para desfrutar a cidade.

Mesmo com o carnaval de rua de Belo Horizonte tendo começado a renascer em 2009, e estarmos cada vez mais à vontade para ocupar, dançar sem preocupação ou receio, vai num crescendo de forma que é difícil entender que hoje, Quarta-feira de Cinzas, temos que nos recolher. Não! A fantasia fica em nós o ano inteiro.” .