Jornal Estado de Minas

Moradores exigem respostas para a enchente na Vilarinho

Não foi a primeira vez e ainda não há certeza se será a última. No primeiro grande temporal da atual estação chuvosa, na noite de anteontem, uma combinação de fatores fez lembrar os tempos em que a água tomava o asfalto da Avenida Vilarinho, formando um rio de lama e sujeira e deixando um rastro de prejuízo e mortes. Por uma combinação de falta de obras, excesso de chuva, deposição de lixo em vias públicas, as cenas de horror voltaram a ocorrer, desta vez com uma dimensão inédita, embora felizmente sem mortes. Além desses fatores, moradores e comerciantes denunciam mudanças na rede de drenagem para construção da Estação Vilarinho, do Move. Quem mora, trabalha ou passa pela avenida ainda se questionava na manhã de quarta-feira sobre a recorrência das enchentes, e cobrava saída definitiva. Especialista da UFMG diz que solução técnica existe, mas depende de investimento. Enquanto isso, três obras que somam R$ 217,6 milhões e poderiam minimizar as inundações estão atrasadas.

A lista desses projetos de drenagem inclui a terceira etapa das bacias de detenção do Complexo da Avenida Várzea da Palma e Vila do Índio (R$ 163 milhões); a implantação de nova bacia nos córregos Lareira e Marimbondo (R$ 52,8 milhões); e intervenções nos córregos Brejo Quaresma e Joaquim Pereira (R$ 1,7 milhão). Nos dois primeiros  casos, os projetos estão em licitação.
As obras deveriam ser concluídas no primeiro semestre de 2016, mas ainda nem começaram.

Na avaliação do professor Márcio Baptista, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a rede de drenagem no entorno da Avenida Vilarinho é antiga e já não suporta o volume de água da chuva. “A galeria de drenagem é grande, mas foi dimensionada para uma situação que não existe mais. Venda Nova sofreu processo de urbanização crescente, o que tornou a região cada vez mais impermeável. É preciso ação da prefeitura para resolver o problema”, afirmou o especialista, lembrando que a equipe da PBH tem conhecimento da necessidade de obras. “Mas são caras e faltam investimentos”, disse.

O próprio secretário da Administração Regional Venda Nova, Cláudio Sampaio, reconheceu a necessidade de ampliação do sistema de drenagem. Segundo ele, apesar das intervenções para evitar inundações, a chuva de ontem mostrou que “a prefeitura precisa ampliar a capacidade de bacias (de detenção) na região”, pois a rede de drenagem “não deu vazão para toda a água da chuva”.
Ele afirma, no entanto, que já há intervenções previstas e em fase de licitação. “Elas vão ajudar a diminuir a velocidade da água que desce pela avenida”, afirmou, sustentando que a construção das duas bacias na Avenida Várzea da Palma e Vila do Índio já contribuiu para redução de danos. “As obras estão saindo do papel. Mas estas são intervenções que não são construídas da noite para o dia”, disse.

Ele frisou ainda que o volume de 57 milímetros – 46% do total previsto para todo o mês de outubro na cidade – é altíssimo para o intervalo e que causaria problemas em qualquer cidade. “É um volume que ninguém espera. Não acontece sempre e pega todo mundo de surpresa”, afirmou Cláudio Sampaio.

O problema de inundações na Avenida Vilarinho é histórico. Em 1997, uma grande enchente deixou a via interditada e três mortos por afogamento.
Segundo o secretário, funcionários da Sudecap vão vistoriar e fazer manutenção nos canais da rede de drenagem da via, com o objetivo de checar se há alguma obstrução da galeria.

Ontem a equipe do Estado de Minas percorreu os cerca de seis quilômetros da Avenida Vilarinho e encontrou indícios de que o córrego encheu em toda a extensão da via . O resultado foram 60 carros arrastados e empilhados. Ontem foram feitas vistorias em seis dezenas de imóveis, dos quais 38 atingidos pela água e 24 com danos.

Mesmo em trechos bem distantes de onde veículos ficaram empilhados, bueiros estavam cheios de lama, galhos, folhas, plástico, papéis, garrafas e outros tipos de lixo. No canteiro central da avenida também estavam espalhados pneus e garrafas plásticas. Em um dos bueiros localizado bem perto da pilha de carros formada pela enchente, praticamente não havia espaço para a passagem da água. Sacos, pratos descartáveis, pedaços de isopor, garrafas e galhos bloqueavam o fluxo da água. Já em duas das três aberturas do canal do córrego, muita sujeira ficou presa nas barreiras de concreto.

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