Jornal Estado de Minas

Lobos-guarás têm que dividir espaço de refeição com novos companheiros no Caraça

Anta (Tapirus terrestris) - Este ano, um macho apareceu com frequência de janeiro a março; agora, já apareceu o casal. Animal herbívoro, o que significa não se alimentar de carne, a anta chega, segundo técnicos, em busca de cálcio, que está nos ossos do frango, e de sal - Foto: Lauro Palú/Santuário do Caraça/Divulgação
No início, era apenas o lobo-guará, com sua elegância, que surgia no meio da noite para subir a escadaria e comer a carne de frango oferecida pelos padres do Santuário do Caraça, localizado entre Catas Altas e Santa Bárbara, na Região Central. Hoje, o adro da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens se tornou o “bandejão” mais concorrido do pedaço, atraindo outros animais silvestres, entre eles um casal de antas, bando de cachorros-do-mato, a jaratataca e até um gato-mourisco. Os turistas agradecem e a comunidade religiosa dá as boas-vindas. “De manhã cedo, ainda aparecem as aves, sobretudo os jacus, para comer os restos da festa”, diz o diretor do santuário, padre Lauro Palú.

Com sorte e disposição, é bem possível que os turistas vejam os novos visitantes da noite. Padre Lauro conta que as antas – inicialmente um macho adulto, depois o casal – começaram a aparecer com frequência de janeiro a março, sempre de madrugada. “Agora, já apareceram até as 19h10. São animais herbívoros, mas um técnico me explicou que estão suprindo a carência de cálcio, o qual encontram nos ossos de frango, e de sal. Com seu faro apurado, cheiram longe os alimentos salgados”, diz o diretor do santuário fundado em 1774 e pertencente à Província Brasileira da Congregação da Missão.

Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) - Já foram vistos em bandos de até 10 animais, incluindo pais e filhotes. Convive no território com o lobo-guará, e, mesmo mais baixos do que ele, estão disputando o ponto de comida - Foto: Lauro Palú/Santuário do Caraça/DivulgaçãoJá a família dos cachorros-do-mato aparece em grande número, e hóspedes e funcionários da instituição, que desde 1972 se transformou em hospedaria, sem perder o caráter religioso, já viram 10, entre pais e filhotes.

“Chegam um pouco mais tarde, a partir das 19h, e, embora sejam duas vezes mais baixos do que os guarás, já atacaram sobretudo a loba. Curiosamente, uma noite, três cachorros-do-mato comeram junto com o lobo na mesma bandeja. Nossa esperança é de que um dia se entendam. Na natureza, vivem juntos no mesmo território, mas, aqui, estão disputando o ponto da comida”, afirma padre Lauro, sempre atento com sua câmera a flagrar os bichos.

Na avaliação do diretor, o aparecimento dos bichos se deve, principalmente, à atividade minerária na região, que perfura o solo e explora minas. “Certamente, encontram refúgio no Caraça”, diz padre Lauro. Uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vem fazendo um levantamento na área para identificar os mamíferos, com foco especial na anta.

VAI E VOLTA Com a pelagem preta e listra branca no dorso, a jaratataca também posou para as lentes do diretor do Caraça. Durante sete anos, o animal apareceu, depois deu uma sumida e agora surge de vez em quando no jardim e arredores.
O gato-mourisco, por sua vez, foi visto na estrada que conduz ao santuário, rondando a área, e uma vez esteve comendo da bandeja do lobo. “A fauna está em paz por aqui e, graças a Deus, nenhum turista foi atacado. Na verdade, alguns animais vêm comer quando os visitantes estão dormindo”, conta padre Lauro.

As aves são um capítulo à parte e, em 2014, figuraram numa exposição fotográfica para celebrar os 240 anos do Caraça. “Conseguimos registrar 17 espécies, incluindo jacu, carcará, gavião-carrapateiro, tico-tico, canários e sabiás”, diz o diretor. Além da exuberância da Reserva Natural do Patrimônio Natural (RPPN), diversidade do patrimônio histórico e beleza da paisagem, o lugar garante descanso, lazer e cultura para os 70 mil turistas que o procuram anualmente. “Este ano, já recebemos estrangeiros de 48 nacionalidades”, orgulha-se padre Lauro.

PIONEIRO

A tradição no Santuário do Caraça, que fica a 120 quilômetros de Belo Horizonte, começou em maio de 1982, quando algumas lixeiras externas apareceram reviradas e derrubadas. O irmão Thomaz alertou o então diretor da instituição, padre Tobias Zico, de que poderia ser obra de algum cachorro. Tobias achou muito difícil, porque cachorro não subiria a serra com tanta frequência.
Começaram, então, a observar e descobriram que o responsável era o lobo-guará.
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