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Estado de Minas

Comunidade de nove habitantes é invadida por artistas do Brasil e do mundo

A pequena Cemitério do Peixe, no município de Conceição do Mato Dentro, vai receber evento que vai discutir a relação da magia e morte nas artes


postado em 04/06/2015 06:00 / atualizado em 04/06/2015 07:35

Duzentas casinhas de adobe ou pau a pique, além do cemitério, compõem o bucólico cenário do lugarejo que encanta visitantes(foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )
Duzentas casinhas de adobe ou pau a pique, além do cemitério, compõem o bucólico cenário do lugarejo que encanta visitantes (foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )

Dona Lotinha, que só prendia suas galinhas e seus oito cães duas vezes por ano, em setembro, para a festa de São Miguel Arcanjo, e em novembro, para o Jubileu de São Miguel Arcanjo e Almas, precisou colocar toda a bicharada na tranca. É que o lugarejo onde ela mora, Cemitério do Peixe, no município de Conceição do Mato Dentro, no Alto Jequitinhonha, de um dia para outro aumentou sua população de nove habitantes para mais de 30. E sabe lá quantas dezenas mais de visitantes deverão aparecer a partir de hoje.

É que o lugarejo, que parecia deserto, vai abrigar a Ocupação Cemitério do Peixe: Morte e magia nas artes visuais, evento que, de hoje a domingo, reúne vários artistas do Brasil e do mundo. Além da exposição de obras de arte, o grupo vai investigar e estimular reflexões sobre a relação da magia e morte nas artes.

São cerca de 200 casinhas de adobe e pau a pique em Cemitério do Peixe, distante 60 quilômetros de Diamantina, mas apenas três delas são ocupadas por moradores durante todo o ano. Na casa de Carlota de Oliveira Brandão, a Dona Lotinha, de 63 anos, moram ela e dois filhos. Mais adiante, outra família com cinco pessoas. Perto do cemitério, que deu nome ao lugarejo, no século 19, mora um primo da dona de casa.

Dona Lotinha é uma espécie de “prefeita” do lugar, a sentinela da tradição, e não gosta nem um pouco de quando chamam o lugar de arraial fantasma. “Não estou morta. Eu e meus filhos estamos muito vivos”, responde. São tantas histórias para explicar o surgimento de Cemitério do Peixe que Dona Lotinha prefere não bancar nenhuma delas. Mas que tudo começou com os seus antepassados, isso ela diz ter certeza.

Lendas Entre as lendas para explicar o nome do lugar, consta que há cerca de dois séculos um destacamento da polícia foi montado às margens do Rio Paraúna para impedir o contrabando de pedras preciosas em Diamantina. Os soldados teriam comido peixe estragado, morreram e foram sepultados no cemitério local, contam os mais antigos. Há também a versão de que o bisavô de Lotinha enterrou um escravo chamado Peixe onde hoje é o cemitério.

Além disso, outros falam que um padre apelidado de Peixe viajava a cavalo com o seu secretário, a caminho do jubileu de Conceição do Mato Dentro, e morreu ao passar pela região, onde foi sepultado. “Só sei que meu bisavô construiu o cemitério de pedras. Não sei quando foi isso, mas antes tinha uma capelinha dentro do cemitério”, conta a dona de casa.

A atual Capela de São Miguel Arcanjo foi construídas ao lado do cemitério,  em 1915, pelo dono das terras na época, Antônio Francisco Pinto, o Caniquinho. No entanto, há relatos de que as missas para as almas do cemitério já vinham sendo celebradas desde 1887, sempre em 15 de agosto, tradição mantida até hoje com o jubileu em homenagem às almas do lugar e ao padroeiro, São Miguel Arcanjo. Este ano, a festa terá outra homenagem: o centenário da doação das terras.
Em novembro de 2010, o Estado de Minas esteve em Cemitério do Peixe e, de lá para cá, muita coisa mudou, a começar pelo número de moradores que triplicou: de três para nove. A entrada do arraial foi calçada com bloquetes de cimento e as casas construídas recentemente são em estilos modernos e destoam da paisagem bucólica de antes.

Agito Na entrada do lugarejo existe uma pequena placa com a inscrição: “Cemitério do Peixe. Lugar de Oração, Respeito e Paz”, dá uma pista do que se pode encontrar. Agora, ao contrário de 2010, quando reinava o silêncio no lugar, quebrado apenas pela cantoria dos pássaros, Cemitério do Peixe vive em clima de agito. E olha que a ocupação cultural nem tinha começado ainda. Caminhões e funcionários da prefeitura de Conceição do Mato Dentro transitavam pelas ruelas fazendo capina e recolhendo lixo.

Dona Lotinha, que funciona como uma administradora do local, reclama do agito, mas já se entrosou com os artistas(foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )
Dona Lotinha, que funciona como uma administradora do local, reclama do agito, mas já se entrosou com os artistas (foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )
Dona Lotinha, entretanto, não está nada satisfeita com a descaracterização do lugar. “A Prefeitura de Conceição do Mato Dentro não está gostando nem um pouco das casas que o povo está construindo. São casas muito grandes. A prefeitura quer, inclusive, que todos voltem com as telhas cumbucas”, contou. Há três meses, Dona Lotinha ficou sabendo da ocupação cultural. “Começaram a chegar aquele monte de artistas, cada um vai apresentar o seu trabalho. Eles não deixam a gente olhar o trabalho deles. É tudo debaixo dos panos. Eu estou apenas cozinhando para eles”,relatou.

Com tanta gente para alimentar, Dona Lotinha buscou ajuda de uma moradora da região e vão contratar mais uma auxiliar para o feriado. “Falei com eles (os artistas). Aqui é Minas. Vamos comer comida mineira. Eu faço o cardápio. Quem não quiser comer, que vá comer lá em Congonhas do Norte, 35 quilômetros daqui”, brinca a dona de casa.

Artista visual Francilins Castilho leal, idealizador do projeto, prepara sua intervenção enquanto filosofa sobre morte e almas(foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )
Artista visual Francilins Castilho leal, idealizador do projeto, prepara sua intervenção enquanto filosofa sobre morte e almas (foto: Leandro Curi/EM/D.A Press )


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