Jornal Estado de Minas

Desastre na BR-381 concretiza medo de professor que tinha rotina de viagens pela estrada

Tragédia mata professores e motorista de cursinho na rodovia famosa por suas armadilhas, eternamente à espera de duplicação.

Valquiria Lopes João Henrique do Vale



Foram várias as vezes em que a BR-381 interrompeu viagens dos professores André Marconi Ribeiro Leite, de 42 anos, e Paulo Sérgio Oliveira, de 52, que trabalhavam em unidades do pré-vestibular Genoma de cidades dos vales do Aço e do Rio Doce, cortadas pela rodovia.

Entre um dia e outro a caminho das aulas, muitos congestionamentos provocados por acidentes na estrada, que carrega o trágico apelido de Rodovia da Morte, os fizeram esperar ou chegar atrasados para encontros com seus alunos. Mas, na noite de anteontem, a estrada interrompeu de vez a vida dos dois profissionais. André, que morava em Belo Horizonte e lecionava também em cursinhos da capital, e Paulo Sérgio, que há um ano e meio se mudou para Governador Valadares – assim como o motorista do carro em que viajavam, Nilson Teodoro, de 39 –, foram vítimas do descaso com uma rodovia que coleciona vítimas e da imprudência cotidianamente registrada na estrada.

Os professores haviam saído de Ipatinga, após dar aulas, quando sofreram um acidente no km 183, depois de viajar por 54 quilômetros, em um trecho de longa reta, no município de Periquito. O carro em que seguiam, um Siena preto, capotou depois de ser atingido na lateral por um caminhão-baú carregado, que invadiu a contramão. O condutor do veículo de carga saiu ileso da batida. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), há suspeita de que o caminhoneiro tenha dormido ao volante. O acidente, além de comover a comunidade estudantil e colegas de trabalho dos profissionais, volta a expor o perigo da 381 e o drama de pessoas que precisam cruzar a estrada para trabalhar ou cumprir outros compromissos, de saúde, por exemplo.
Depois de longas promessas de duplicação e melhorias, a estrada continua com armadilhas representadas principalmente por trechos sinuosos ou sem acostamento e por pontes precárias.

Abalada com a tragédia, a mulher de André Marconi, a dona de casa Fernanda Duarte da Veiga, de 35, relatou o medo que o professor tinha de viajar pela 381. “Todos os domingos, quando ia para Ipatinga, ele pedia a Deus para conseguir uma boa oportunidade de voltar a trabalhar somente em BH. Nos primeiros seis meses, ele não se importava muito, mas os perigos ficaram cada vez mais evidentes e o André passou a ter muito medo. Além do mais, a rotina das viagens era extremamente desgastante, porque ele dava aulas em seis cidades”, disse, lembrando que o marido quase sempre falava dos acidentes que havia visto na estrada. “Por diversas vezes ele chegou atrasado a Belo Horizonte, devido a batidas, e ficava tenso – por causa dos horários e compromissos que tinha, e também por causa dos desastres”, contou a mulher.

Segundo Fernanda, André viajava todos os domingos à noite, de Belo Horizonte para Ipatinga, eventualmente de avião, mas na maioria das vezes de ônibus. Na segunda, dava aulas na cidade do Vale do Aço e também na vizinha Timóteo. Por volta das 22h30, viajava para Governador Valadares, no carro do Genoma, conduzido por um motorista do grupo educacional. Às 5h30 da manhã de terça-feira, seguia para Caratinga, dava aula e voltava para Valadares, onde lecionava o restante do dia. Na quarta-feira, o professor era levado, também de carro, para Teófilo Otoni, onde ensinava o dia inteiro e voltava à noite, de ônibus, para BH. De quinta a sábado, o professor trabalhava nos pré-vestibulares Soma e Bernoulli.

À exceção das aulas na capital, Paulo Sérgio tinha rotina semelhante, segundo a direção do Grupo Genoma. Mas, por causa dos frequentes deslocamentos, preferiu se mudar, há um ano e meio, para Governador Valadares, com a mulher, Maria Goreti, e o filho, hoje com 20 anos. Ontem, familiares tentavam entender a tragédia. “Ele viveu muitos anos com as tias, que o consideravam um filho.
Todos estão estarrecidos, como se fosse um filme trágico passando pela cabeça. Na medida do possível, estamos tentando acalmá-las. O filho dele também está consternado”, conta o cunhado de Paulo Sérgio, o bancário Ailton Ailponscaeradelli.

A notícia da morte chegou por telefone para a mulher de Paulo Sérgio. Depois de insistentes ligações para o celular do marido, que por volta de 1h da madrugada ainda não tinha chegado em casa, Maria Goreti ouviu de um policial que atendeu ao telefone que o professor havia se envolvido em um acidente. Momentos antes, ela já havia ligado para a diretora pedagógica do Grupo Genoma, Janaine Cunha, mulher do sócio-diretor da escola, Nilson Cunha. “Olhamos a escala daquela rota e vimos que tinha outro professor no carro, o André. O celular do motorista também não atendia. Procuramos a polícia e fomos informados sobre o acidente na estrada. Meu marido foi imediatamente para o local e constatou que eram eles. Estamos em estado de choque com essa tragédia”, contou Janaine.

Ela afirmou que foi o primeiro caso de morte envolvendo profissionais que viajam de uma unidade a outra e comentou o risco da estrada.
“Não adianta dizer que não é perigoso. Escolhemos oferecer aos alunos das cidades onde estão nossas unidades um ensino de alta qualidade. Por isso, temos professores de Belo Horizonte, que precisam viajar para dar aulas aqui”, contou. Para minimizar o risco, a diretora afirma que todos os motoristas do grupo são profissionais e passam constantemente por cursos de direção defensiva e treinamento.

- Foto: Reprodução Facebook

OS MORTOS

Paulo Sérgio Oliveira, 52 anos
Era considerado um homem estudioso e que gostava de passar seus conhecimentos aos alunos. Em Belo Horizonte, viveu muitos anos com as tias, que o consideravam como um filho. Casado, deixa mulher e um filho, de 20 anos. Atualmente vivia em Governador Valadares, mas dava aulas em unidades do Grupo Genoma em diferentes cidades dos vales do Aço e do Rio Doce.

 

André Marconi Leite, 42 anos
Natural de Curvelo, morava havia muitos anos em BH, onde dava aulas nos pré-vestibulares Soma e Bernoulli. Formou-se em química e passou a dar aulas da disciplina. Há três anos lecionava no Grupo Genoma, em cidades dos Vales do Aço e do Rio Doce. Professor querido pela comunidade estudantil, deixa mulher e quatro filhos, dois do último casamento.

 

Nilson Teodoro, 39 anos 
Motorista profissional, com experiência na carteira de trabalho, trabalhava havia um mês e meio no Grupo Genoma. Fazia a rota Ipatinga, Timóteo e Governador Valadares, transportando professores do grupo durante a semana. Casado, morava em Governador Valadares e deixa mulher, um filho e um enteado.

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