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Estado de Minas

Conheça história de quatro fundadores de santuários em Minas Gerais

Trajetória de três portugueses e um alagoano é marcada por visões místicas e cura


postado em 20/12/2014 06:00 / atualizado em 20/12/2014 08:05

Mosteiro de Macaúbas fundador por Félix da Costa, em Santa Luzia(foto: Beto Novaes/EM/D.A. Press)
Mosteiro de Macaúbas fundador por Félix da Costa, em Santa Luzia (foto: Beto Novaes/EM/D.A. Press)
Há mais mistérios no alto, ao pé e entre as montanhas de Minas do que supõe nossa vã filosofia. E essa história vem de longe, lá do século XVIII, quando quatro homens, três deles ermitões, em décadas distintas, construíram capelas e igrejas que deram origem a santuários, hoje conhecidos internacionalmente. No alto da Serra da Piedade, em Caeté, na Grande BH, está a recém-restaurada ermida dedicada à padroeira de Minas – Nossa Senhora da Piedade –, obra do português Antônio da Silva Bracarena. Centro de peregrinação, o maciço será palco em 2017 das comemorações de 250 anos de romarias que começaram, segundo a tradição oral, com a aparição da Virgem Maria.

Com 240 anos, o Caraça, em Catas Altas, na Região Central, foi erguido por Irmão Lourenço de Nossa Senhora, português de passado nebuloso. Natural de Penedo, Félix da Costa veio de Alagoas, há três séculos, para erguer em Santa Luzia, na Grande BH, um recolhimento feminino. No encontro dos rios São Francisco e da Velhas, teve uma visão mística e ganhou força para concretizar seu sonho. Já em Congonhas, que guarda obras-primas de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814), cujo bicentenário de morte é lembrado este ano, o português Feliciano Mendes fundou o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, depois de conseguir cura milagrosa. Assim, a construção do templo, hoje reconhecido como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), é um grande ex-voto ou pagamento de promessa.

Nas comemorações do tricentenário de sua história, há duas semanas, o Mosteiro de Macaúbas exibiu um estandarte com a figura de Félix da Costa, cópia do quadro existente na porta da clausura e pintado no século passado por uma religiosa da Ordem da Imaculada Conceição. Segundo pesquisas, o eremita saiu de Alagoas em 1708 e subiu o Rio São Francisco na companhia de irmãos e sobrinhos. Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto.

Mas antes disso, no encontro das águas do Velho Chico com o Rio das Velhas, em Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, no Norte do estado, Félix da Costa teve a visão de um monge com hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. “Ele se viu ali. Foi o ponto de partida para a fundação do Recolhimento de Macaúbas”, conta a freira Maria Imaculada de Jesus Hóstia.

Igreja do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté: obra do português Antônio da Silva Bracarena virou centro de peregrinação e atrai fiéis de todo país(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Igreja do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté: obra do português Antônio da Silva Bracarena virou centro de peregrinação e atrai fiéis de todo país (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
“Eram homens movidos pela fé e muitos deles procuram o alto das serras para erguer seus monumentos. Naqueles tempos, havia uma presença obsessiva da religião na vida das pessoas e a sociedade mineira, em especial, agradecia a Deus pela opulência do ouro e rezava para conseguir um lugar no paraíso”, explica o presidente do Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), Angelo Oswaldo. Citando um sermão do padre Antônio Vieira (1608-1697), o dirigente lembra que “nascer português é morrer peregrino”.

MILAGRE A paisagem vista do alto da Serra da Piedade arrebata de imediato, mas é na ermida dedicada à Nossa Senhora da Piedade que os olhos do visitante se arregalam para apreciar a bela imagem da padroeira de Minas e muitas histórias chegam aos ouvidos. A fama do lugar teria começado entre 1765 e 1767, conforme a tradição oral, com a aparição de Nossa Senhora, com o Menino Jesus nos braços, a uma menina, muda de nascimento, cuja família vivia na comunidade de Penha, a seis quilômetros da serra. Nesse momento, a menina teria recuperado a fala. Em 1773, o templo seria construído pelo ermitão português Antônio da Silva Bracarena, com autorização do bispado de Mariana. Antes de subir a Serra da Piedade, Bracarena, que era mestre de obras, trabalhou na construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Caeté, antiga Vila Nova da Rainha, diz a professora de história da arte da PUC Minas, Mônica Eustáquio Fonseca.

Na viagem de Portugal ao Brasil, o ermitão Bracarena conheceu o Irmão Lourenço de Nossa Senhora, que tomou o rumo do Arraial do Tijuco, hoje Diamantina, e depois fundou o Caraça, hoje centro de peregrinação, cultura e turismo. Esse, certamente, é um dos homens mais enigmáticos daqueles tempos e ainda desafia os pesquisadores. O irmão, segundo a lenda, seria o nobre português D. Carlos Mendonça Távora. Envolvido com seus familiares numa tentativa de assassinato do rei de Portugal dom José I, ele teria conseguido escapar e vir para a colônia, enquanto os demais caíam em desgraça.

ORATÓRIO A história de Congonhas também trilha os caminhos de fé e arte . Em 1757, o minerador português Feliciano Mendes, que chegara à região em busca de riquezas após cura de grave enermidade, finca uma cruz no alto do Morro Maranhão. Com oratório pendurado no pescoço, ele passa a esmolar para construir o templo em homenagem ao Bom Jesus. Nessa empreitada que dura alguns anos, os sucessores de Feliciano, que morreu em 1765, convocam Aleijadinho, responsável por obras-primas na cidade: os 12 profetas em pedra-sabão, no adro da basílica, e as 64 esculturas em tamanho natural representando os Passos da Paixão de Cristo. O local se torna alvo de peregrinação social, econômica e cultural.

Depois de tantas histórias, só mesmo recorrendo ao bardo inglês William Shakespeare e à sua frase emblemática, em Hamlet, para jogar mais luz: “Há no céu e na terra, Horácio, bem mais coisas do que sonhou jamais vossa vã filosofia”.


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