Jornal Estado de Minas

Grande BH precisa tirar do papel obras para escoamento de enxurradas

Em Belo Horizonte, apesar de a prefeitura garantir estar investindo R$ 500 milhões em obras em andamento, só foram efetivamente concluídas, desde a temporada chuvosa do ano passado, intervenções para evitar cheias no entorno dos córregos Jatobá e Olaria, no Barreiro

Valquiria Lopes Márcia Maria Cruz Rafael Passos
No encontro do Córrego Ferrugem com o Ribeirão Arrudas, força da correnteza foi tanta que arrancou placas inteiras de asfalto, próximo ao limite entre Belo Horizonte e Contagem - Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS

Mal chegou o alívio, veio junto a preocupação. Bastaram as primeiras chuvas para provocar estragos em ruas e avenidas e medo entre moradores e comerciantes de áreas historicamente marcadas por alagamentos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Com acúmulo de 55 milímetros registrado em estação na Pampulha, o equivalente a 45% da média de outubro para a capital, a pancada de ontem acendeu o alerta sobre como será o período chuvoso na Grande BH e a preocupação com o que já foi feito para evitar prejuízos e mortes. O temporal de terça-feira foi suficiente para provocar alagamentos e estragos no asfalto, principalmente em locais como o limite entre a capital e Contagem, na Avenida Tereza Cristina, além de carregar lixo para bueiros e outras estruturas de drenagem.

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Em Belo Horizonte, apesar de a prefeitura garantir estar investindo R$ 500 milhões em obras em andamento, só foram efetivamente concluídas, desde a temporada chuvosa do ano passado, intervenções para evitar cheias no entorno dos córregos Jatobá e Olaria, no Barreiro. No Córrego da Serra (Centro-Sul), a ampliação do canal tem previsão de ficar pronta neste semestre. Ainda estão no papel intervenções importantes para a cidade, como a implantação de um canal de drenagem paralelo à Avenida Francisco Sá, no Prado (Região Oeste) e intervenções no Córrego Cachoeirinha e nos ribeirões Pampulha e Onça – estas últimas com impactos diretos nas avenidas Cristiano Machado e Bernardo Vasconcelos, onde alagamentos são frequentes. Apesar de destacar os investimentos, a administração municipal afirma que inundações são eventos naturais e admite que não é possível realizar obras que eliminem por completo os riscos.

Enquanto BH espera por obras, sinais que antecedem alagamentos mais sérios já estão espalhados pelas ruas, como pontos de drenagem cobertos de folhas e lixo. Na Avenida Francisco Sá, no Prado, – um dos 80 pontos de alagamentos da capital – comerciantes cansados de perder mercadorias com as enchentes tentam se prevenir como podem.
“Vou providenciar uma porta de aço para diminuir o volume de água que entra na loja, já que nenhuma obra foi feita para evitar enchentes aqui”, afirma Mary Ângela Alves Garcia, de 43 anos, dona de uma loja de acessórios para carro na via. Bem perto do estabelecimento, vários bueiros deixavam evidente o sinal de perigo. A comerciante lembra que a população também precisa colaborar, evitando jogar lixo na rua.

Como medida preventiva, a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) informa ter intensificado o trabalho de limpeza das bocas de lobo em toda a cidade. Somente neste ano, cerca de 5,1 toneladas de lixo devem ser recolhidas dos bueiros, quantidade 91% maior do que as 2,6 toneladas retiradas há cinco anos. Segundo a SLU, foram mapeados 5.675 pontos de atenção, que recebem cuidados especiais por causa do histórico de alagamento. Nos córregos, ações de limpeza retiraram 1,8 metro cúbico de resíduos e 6,2 metros cúbicos de mato.

ALERTA
Chuvas rápidas e intensas, como a que provocou danos na Grande BH anteontem, podem se repetir nos próximos dias, de forma isolada. Isso porque, segundo o meteorologista Ruibran dos Reis, do Insituto Climatempo, a temporada de precipitação duradoura só deve ocorrer em dezembro. Mas a sensação de alerta trazida pelas primeiras pancadas é positiva, de acordo com o coordenador municipal de Defesa Civil, coronel Alexandre Lucas, que ressalta o papel de cada belo-horizontino para evitar tragédias. “Trabalhamos com alerta máximo de outubro a março e temos medidas públicas de prevenção e contenção de desastres, mas as pessoas podem contribuir, evitando locais de risco, se informando sobre alertas e convocando pessoas no entorno para não transitar em áreas de risco”, disse. Outra medida fundamental, disse, é a consciência sobre o descarte correto do lixo.

Com a chuva de ontem, bombeiros receberam chamado para socorrer moradores ilhados em residências em bairros como o Tirol, na Região do Barreiro. Na Avenida Vilarinho, em Venda Nova, sinais de trânsito pararam de funcionar depois do temporal.

De acordo com a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, a situação de Belo Horizonte em relação a alagamentos é comum a todas as cidades brasileiras que experimentam os efeitos negativos da expansão acelerada. Diante disso, a prefeitura afirma trabalhar por meio da Política de Redução do Risco de Inundações. “Cada obra terá sempre seu limite de capacidade de resposta, que deverá ser aquele que venha a mitigar adequadamente os efeitos das inundações, tornando-as menos freqüentes e garantindo maior segurança às áreas de risco”, informou a pasta.

Água tomou quase toda a pista e levou à interdição parcial da Avenida Tereza Cristina - Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A PressAlagamento e prejuízos

Contagem, na Grande BH, foi uma das cidades mais afetadas pela chuva que encerrou um longo período de estiagem.
Na Avenida Tereza Cristina, no sentido Belo Horizonte, próximo à Avenida Tito Fulgêncio, três faixas ficaram alagadas desde a madrugada até por volta das 12h de ontem, obrigando a Transcon a fechar parcialmente a via. Um caminhão hidrojato foi usado para sugar a água e liberar a pista.

Ainda na Tereza Cristina, também próximo à divisa com BH, no encontro do Córrego Ferrugem com o Ribeirão Arrudas, o asfalto foi todo removido pela enchente. Na madrugada de ontem, o ribeirão transbordou e a água subiu 80 centímetros.

Na avaliação do gerente de Drenagem da Secretaria de Obras da Prefeitura de Contagem, Wilson Santos, o transbordamento ocorreu principalmente devido ao lixo acumulado e ao excesso de chuva. “A vazão do Arrudas é mais forte que a do Ferrugem, por isso a água não conseguia entrar no ribeirão.”

Ainda em Contagem, um barranco cedeu e rompeu canos da Copasa, inundando um barracão na Rua das Acácias, no Bairro Eldorado. Militares resgataram também pessoas que ficaram presas em carros no Bairro Água Branca.

De acordo com a assessoria da prefeitura, obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2 foram feitas na região para melhorar o problema dos alagamentos e há previsão de novos projetos. Ainda segundo a administração, ações de prevenção, como limpeza de bueiros e córregos, são feitas durante todo o ano e intensificadas no período chuvoso..