Enviado Especial
Salto da Divisa – A imagem do ônibus antigo, de pintura encardida de poeira, bancos desbotados, com pedaços do acabamento se desprendendo do piso e dos encostos das janelas, invoca a sensação de que o desconforto das 14 horas de viagem entre Belo Horizonte e Almenara era só o começo.
Logo na saída, o calor intenso, de cerca de 36 graus, obriga os passageiros a abrir todas as janelas do ônibus e até os dois alçapões do teto. Com isso, a ventania da viagem faz as cortinas tremularem bruscamente, num ruído forte e contínuo, acompanhada pelo bater de peças e das janelas causado pela trepidação. Ao sair da cidade e entrar novamente na BR-367, a paisagem começa a mudar para cenas típicas do interior pobre do Vale do Jequitinhonha. Do lado esquerdo, a estrada esburacada acompanha o rio que dá nome à região e suas águas barrentas, muito rasas por causa da seca. Do lado direito aparecem pastos secos salpicados pelo gado branco que se alimenta. Manchas negras de queimadas intercalam a vegetação e os casebres feitos de pau a pique e de telhas rústicas de barro de coxa – assim chamadas por serem confeccionadas usando as pernas como forma.
Um dos motoristas que faz o trajeto, Anagildo de Oliveira, de 52 anos, conta que os buracos no asfalto e as outras irregularidades do pavimento não são o maior perigo que os passageiros correm nesse trajeto. “Às vezes, quem está nas poltronas não vê, mas a gente passa por muitas situações que poderiam acabar num acidente”, afirma. Em oito anos fazendo o trecho, ele conta que é comum encontrar animais soltos na pista, pastando o mato dos acostamentos e atravessando de um lado para o outro da pista. “A gente precisa reduzir e sinaliza para os outros motoristas. Já aconteceu de um dos bichos desembestar e eu ter de desviar. Mas, com tanto solavanco, o passageiro mal percebe a manobra mais brusca”, conta.
Acidentes também são frequentes, principalmente devido à estrada ser estreita e ainda cruzar córregos e rios secos nesse período, por três pontes de madeira que permitem a passagem de um veículo por vez. “Já ajudei muita gente que se acidentou. Não me sai da cabeça um casal que bateu num caminhão. A passageira morreu e nós ajudamos o motorista, sinalizamos a estrada, mas foi só o que pudemos fazer”, lamenta.
Cada caminhão que passa pela parte de terra da estrada lança nuvens de poeira para dentro do ônibus. Os olhos dos passageiros ardem. Muita gente tosse sem parar. Mas ninguém se arrisca a fechar as janelas, já que mesmo com a ventania o calor ainda é muito forte. Ao final da jornada, ao descer na rodoviária de Salto da Divisa, o suor e a poeira vermelha se transformam em manchas de barro nas roupas das pessoas.
LIGAÇÃO COM A BAHIA A rodoviária antiga recebe poucas pessoas, muitas delas indo a Eunápolis, na Bahia, onde se compram os carros que circulam na cidade e se resolve a maioria dos negócios.
A empresa São Geraldo/Gontijo, proprietária da linha, afirma que atualiza em 20% sua frota a cada ano, permitindo uma renovação total dos veículos a cada cinco anos. A prioridade na substituição seria dos veículos mais antigos. Quanto às condições da estrada, a empresa aponta ser um dos principais problemas enfrentados, obrigando a mais manutenções nos veículos, além das duas revisões regulares pelas quais cada ônibus passa. Quanto ao custo da passagem ser maior que a aérea, a assessoria de imprensa informa que isso ocorre por conta de uma política de subsídios ao combustível de aviões, em detrimento do usado no transporte rodoviário.
Outros tempos
Dois ônibus e um queixo-duro
Arnaldo Viana
Há 25, 30 anos, essa viagem era mais longa, não na quilometragem, mas no tempo. Gastavam-se 26 horas de Belo Horizonte a Salto da Divisa ou a Santa Maria do Salto, em três ônibus. A jornada começava em um coletivo mais ou menos confortável, que saía da capital às 7h. Pegava a BR-381 e depois a 116 (Rio Bahia). Uma parada aqui, outra acolá, a primeira baldeação, em Teófilo Otoni, às 16h.