Jornal Estado de Minas

Após fim de semana com balada violenta, associação cobra educação de clientes de boates

Um dia depois de jovem ser espancado na saída de boate na Zona Sul, sócio de casa noturna é baleado na Pampulha

Junia Oliveira Celina Aquino
Junia Oliveira e Celina Aquino

Na boate Zeus, na Pampulha, sócio foi atingido por disparos ontem após confusão envolvendo cliente - Foto: Paulo Filgueiras/EM DA Press

Dois casos de violência na balada no fim de semana em Belo Horizonte assustaram e deixaram em alerta frequentadores, familiares de vítimas e empresários da noite. Na madrugada seguinte ao espancamento de um jovem por um grupo de sete rapazes na saída de uma boate na Avenida Raja Gabaglia, na Região Centro-Sul, o sócio de uma casa noturna no Bairro Santa Terezinha, na Região da Pampulha, foi baleado depois de uma confusão envolvendo uma cliente. No caso da agressão na Raja Gabaglia, a família do jovem atacado, que vive em Congonhas (Região Central de Minas), ainda não tinha conseguido registrar ocorrência até o fechamento desta edição, o que dificulta uma ação por parte da Polícia Militar.

Ontem, familiares de Wendel Lopes de Azevedo, de 22 anos, ainda tentavam entender por que o rapaz tinha sido agredido. Na madrugada de sábado, ele e dois amigos, todos moradores de Congonhas, saíam da Swingers em busca de um carrinho de cachorro-quente para lanchar, quando passaram por sete jovens, que estavam perto de um carro, sem camisa, aparentemente alterados e escutando música em alto volume. Segundo relato feito por Wendel aos pais, ao perceber que os três garotos se assustaram e começaram a andar mais rápido, os homens passaram a ofendê-los e a segui-los.

No sábado, Wendel Azevedo foi levado para o HPS depois de, segundo ele, ter sido agredido por sete rapazes na saída de casa noturna na Raja Gabaglia - Foto: Reprodução/TV AlterosaWendel e os amigos correram pela Raja Gabaglia e ele, que sofre de bronquite, precisou da ajuda dos colegas. Em determinado ponto, o estudante tropeçou e, então, os sete rapazes “partiram para cima” dele, segundo a mãe. Os amigos também foram agredidos, ele afirma, e um deles quebrou o nariz. O estudante teve ainda o celular roubado.

“Ele passou o domingo em casa, de repouso e à base de remédios. Teve calafrios à noite, não sei se por causa do medicamento ou do trauma, e se assusta com os barulhos”, contou a mãe do rapaz, que preferiu não se identificar por temer represálias. Segundo ela, o filho relatou que os agressores pareciam ter treinamento em alguma arte marcial e que ele chegou a se jogar no meio dos carros pedindo ajuda. “Ninguém parou”, lamentou a mãe.

O pai de Wendel tentou registrar ocorrência, mas não conseguiu. Eles esperam fazer o boletim hoje em Congonhas. Orientado na porta do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, para onde os três foram levados, ligou para o 190 e, segundo a família, encontrou dificuldades. “A atendente perguntou como tinha sido a agressão, disse que precisava dos dados de quem tinha socorrido, onde foi exatamente e meu marido não sabia nada, pois havíamos saído de Congonhas e ido direto ao hospital”, contou a mãe do jovem. "Apareceu uma viatura, que meu marido pensou ser para a ocorrência, mas o policial informou que estava ali por outro motivo.”

A Polícia Militar localizou ontem a gravação do telefonema do pai de Wendel para o 190 e informou que ele desligou, e não retornou mais, assim que a atendente pediu tempo para verificar no sistema se havia algum registro de agressão da Polícia Civil. Ainda de acordo com a assessoria de comunicação da PM, o homem pediu uma viatura para registrar boletim de ocorrência de extravio de documento, e em um primeiro momento não teria mencionado o fato de o filho ter sido agredido. A PM garantiu que a vítima pode procurar qualquer delegacia e fazer o exame de corpo de delito, além de relatar o ocorrido, para que as investigações possam ser iniciadas.

Tiros Na madrugada de ontem, por volta das 3h, tiros assustaram frequentadores de outra boate, a Zeus 360º, que fica na Avenida Heráclito Mourão de Miranda, no Bairro Santa Terezinha. Segundo a Polícia Militar, uma discussão começou depois que uma mulher foi expulsa por um segurança da casa noturna. Cynthia Mara Rodrigues Garcia, de 23, saiu do estabelecimento dizendo ter sido agredida pelo funcionário e chamou a PM.
Os militares foram ao local, mas ninguém foi detido. Segundo a PM, pouco depois que as viaturas partiram, o irmão da jovem, Fabrício Gonçalves Garcia, de 32, voltou à boate com uma arma e disparou três vezes contra Elivan Ferreira de Souza, de 30, sócio da Zeus.

Elivan foi atingido no tórax, braço e perna e levado para o Hospital Odilon Behrens, na Região Noroeste, onde continuava internado, estável, até o fechamento da edição. Fabrício conseguiu fugir e até ontem à noite não tinha sido encontrado pela polícia. A reportagem do EM esteve na Boate Zeus e tentou contato telefônico, mas ninguém foi localizado.

Os dois episódios no fim de semana preocuparam empresários do setor. O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) em Minas Gerais, Fernando Júnior, se disse “triste” pelos casos, argumentou que a maioria das boates investe alto em segurança, e cobrou mais “educação” por parte de alguns frequentadores. “A maior parte das casas noturnas tenta garantir a segurança de quem frequenta, mesmo que não tenha poder de polícia. Podemos proibir a presença de pessoas que estão causando constrangimento, mas a partir do momento em que elas estão na rua, não podemos mais fazer muita coisa”, disse. Para ele, muitas vezes o dono do estabelecimento acaba “vendido” porque “está sujeito a ser hostilizado quando quer garantir a segurança e ainda corre o risco de manchar sua imagem quando ocorre algo do lado de fora”, afirmou.
O presidente da Abrasel considera que só uma maior “consciência” por parte dos frequentadores pode reduzir casos de violência na balada.

Entrevista

Mãe de Wendel Azevedo,
Jovem agredido na saída de boate

“Ninguém ajudou”

Assustada, a mãe do jovem de 22 anos, que diz ter sido agredido por sete rapazes, aceitou conversar com a reportagem do EM sob a condição de não revelar o nome. De Congonhas, ela contou que o filho passou o dia em repouso, à base de remédios, e se revoltou ao saber que ele chegou a pedir ajuda para motoristas que passavam de carro pela Raja Gabaglia, mas não foi socorrido.

Como está o Wendel?
Ele passou o domingo em casa, de repouso e à base de remédios. Teve calafrios à noite, não sei se por causa do medicamento ou do trauma, e se assusta com barulhos.

Como eram os agressores?
Ele contou que não parecia gente humilde. Pelo contrário, eram rapazes de classe média ou alta, barba feita, novos, da idade do meu filho. E pelas agressões, provavelmente pessoas com treinamento em alguma luta.

Eles procuraram ajuda em algum momento?
Meu filho disse que tentaram pegar táxi, chegaram a se jogar no meio dos carros, e ninguém parou. Os meninos pediam socorro, mas ninguém ajudou.

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