Jornal Estado de Minas

Problemas no Centro de BH só mudam de endereço com revitalização de avenidas

Obras nas avenidas Santos Dumont e Paraná para implantação do Move, muitos usuários de drogas, ambulantes e moradores de rua migraram para ruas vizinhas

Valquiria Lopes

Estação do Move na Paraná: mais conforto para quem usa transporte público - Foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press


A revitalização das avenidas Santos Dumont e Paraná, no Centro de Belo Horizonte, para implantação do sistema de corredores exclusivos do Move, não só mudou a cara dessas vias, hoje modernas e com boa infraestrutura viária. A inauguração da nova modalidade de transporte da capital provocou também uma mudança de ares nas avenidas, que antes conviviam com ambulantes, moradores de rua, usuários de droga, sexo em via pública, lixo e pontos de ônibus precários. Agora, as calçadas estão livres para circulação de pessoas, há ciclovias e o leiaute das estações do BRT chama atenção. Mas basta andar um ou dois quarteirões para ver que os desafios apenas mudaram de endereço. Ruas vizinhas, como Guaicurus, Guaranis, Tupinambás e Curitiba, e áreas do entorno da rodoviária têm população de rua maior e presença de mais vendedores, além de sofrer com a degradação do espaço público.

Quem trabalha no Centro ou circula pela região com frequência chega a dizer que as avenidas passaram a destoar muito de outras vias da Região Central. “A Paraná e a Santos Dumont estão mais bonitas e nem de longe lembram a situação de antes, muito menos a de ruas do entorno. Também ganharam mais presença policial e dos fiscais da prefeitura, que ficam por aqui quase o dia inteiro”, afirma o gerente de uma loja na Avenida Paraná, Luis Teixeira, de 46 anos.
Segundo ele, apesar dos transtornos durante o extenso período de obras, a mudança que veio junto com o BRT foi positiva. “O fluxo de pessoas está maior na avenida por causa das estações do Move e o comércio está sendo retomado. Entendo que a situação dos moradores de rua é uma questão social e eles precisam de acolhimento, mas não tê-los na porta da loja significa menos transtornos”, afirma.

Na Rua do Acre, já eram comuns usuários de drogas, mas o número aumentou - Foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil.
Funcionária de uma loja de fotografia na Avenida Santos Dumont, a auxiliar administrativo Flávia Cristina Pereira, de 31, também percebeu a diferença após a revitalização. “A situação por aqui era complicada. Tinha muito morador de rua, prostituição e uso de droga nas calçadas, especialmente de crack”, diz. Sobre o comércio ambulante, Cristina afirma ter percebido que a fiscalização aumentou na Santos Dumont. Com toda a alteração de perfil da Santos Dumont, Flávia avalia que as intervenções para receber o novo sistema de transporte foi positiva para comerciantes da avenida. “Ficou mais limpa, com mais policiamento e segurança. O comércio ainda não se recuperou por completo, mas vem melhorando progressivamente”, diz.

VIZINHANÇA

Enquanto quem está na área revitalizada comemora o novo perfil alcançado nos corredores do BRT, a vizinhança se lamenta por ter que conviver diariamente com calçadas tomadas por pessoas deitadas embaixo de cobertores e ambulantes que mantêm caixas de papelão para vender cigarros, brinquedos, cabos de celular e toda a sorte de produtos.

Vendedor de uma loja de eletroeletrônicos na Rua dos Guaranis, Manoel Machado, de 49, detalha a movimentação. “Claro que eles já ficavam por aqui, mas parece que aumentaram”, diz. Na Guaicurus, a situação piorou, segundo comerciantes.

A infraestrutura nos pontos de ônibus das ruas do Centro também é criticada por passageiros.  Para o arquiteto Flaviano Simplício, as intervenções nos corredores exclusivos mostraram que a revitalização traz aspectos positivos para a vida urbana e que expandir a requalificação para outras vias pode ser uma saída. Ele ressalta, no entanto, que nenhuma medida deve resultar em processos de gentrificação, ou seja, valorizando a região e afetando a população de baixa renda ou de rua.

 

Na Guaicurus, situação piorou ainda mais com a migração de moradores de rua - Foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press. Brasil
CONTRASTES


Enquanto a Santos Dumont e Paraná se modernizaram e estão de cara nova, no entorno das avenidas população ainda convive com transtornos

 

Se nas avenidas, o lixo está acomodado corretamente, nos arredores é problema - Foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press
Tranquilidade acaba à noite


Mas toda a diferença entre os corredores exclusivos do BRT e as ruas do entorno parece ter horário marcado. Quando a noite cai, a situação volta a ser a mesma e a imponência das estações do BRT e a revitalização passam a não fazer mais diferença. De acordo com o balconista Antônio Ribeiro Heredia, de 45 anos, a tranquilidade observada durante o dia termina por volta das 18h. “Com a redução do movimento de pessoas e de policiais, moradores de rua que haviam migrado para vias no entorno retornam à Santos Dumont. Fumam crack, se envolvem em brigas e abordam pedestres”, afirma ele, que trabalha em uma loja de ferragens no cruzamento da avenida com Rua São Paulo.

O vendedor Manoel Machado, que trabalha na Rua dos Guaranis, confirma que é ao entardecer que os problemas se intensificam e os moradores de rua se espalham pelo Centro. “À noite, o Centro fica lotado de usuários de drogas, traficantes e moradores de rua perambulando, seja na Santos Dumont e Paraná ou qualquer outra rua”, diz.

FISCALIZAÇÃO

De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), “não há, neste momento, nenhum projeto de revitalização previsto para a Região Central. Já a Regional Centro-Sul informa que a fiscalização para combater ambulantes é rotineiramente, com apreensões diárias no Hipercentro. “O trabalho é feito por meio de plantões fixos e monitoramento por equipes móveis em pontos alvo para essa prática. Nos locais citados, haverá intensificação das ações fiscais”, informou o órgão, por meio de nota.

Quanto à população em situação de rua, ainda segundo a regional, equipes de abordagem social fazem acompanhamento dessas pessoas para conhecer suas história, estabelecer vínculos de confiança, identificar as principais demandas, orientar quanto a políticas publicas do município e fazer encaminhamentos de forma voluntária aos serviços e benefícios da rede socioassistencial.

Todo o trabalho, segundo a prefeitura, tem o consentimento da população atendida e nunca é feito compulsoriamente. No primeiro semestre, foram atendidas 1.087 pessoas e realizados 576 encaminhamentos.

ABORDAGENS

Ainda segundo a regional, as pessoas em situação de rua são orientadas durante as abordagens quanto aos seus direitos e deveres, inclusive no que se refere ao cumprimento do Código de Posturas do Município, inclusive quanto à desobstrução dos passeios e vias. E que apenas são apreendidos objetos que prejudicam ou obstruem o trânsito nos passeios ou vias.

Sobre os passeios, a responsabilidade de construção, manutenção e conservação é do proprietário do imóvel, conforme previsto no Código de Posturas, segundo a regional. Ações fiscais para notificar os proprietários dos imóveis quanto às adequações estabelecidas na legislação vigente são feitas rotineiramente, de acordo com a nota da prefeitura. (VL)

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