De acordo com o governador, esse será o último expediente, em casos de impasse. “Mas, quando se fizer necessário, será usado, e a nossa polícia é qualificada para esse uso. Qualquer fato de transgressão, nós temos o aparato policial para inibir”, afirmou. A postura indica um endurecimento das forças de segurança, o que, de acordo com fontes ligadas ao comando da corporação, teria levado ao pedido de aposentadoria do então comandante do Policiamento Especializado, coronel Antônio de Carvalho Pereira, substituído na quarta-feira pelo coronel Ricardo Machado. Na Copa das Confederações, o coronel Carvalho segurou a tropa, que testemunhou as depredações e saques sem agir, em nome da proteção de manifestantes pacíficos que estavam entre vândalos.
Agora, com diretrizes aparentemente mais severas, uma das situações na qual a PM atuará é a liberação de corredores importantes, como a Linha Verde. Em menos de 15 dias, a MG-010, rodovia estadual que liga Belo Horizonte ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, foi bloqueada duas vezes por manifestantes, fazendo com que passageiros perdessem voos e deixando o trânsito da capital mineira ainda mais caótico. O primeiro fechamento ocorreu no dia 22, quando integrantes de ocupações urbanas protestaram em frente à Cidade Administrativa, sede do governo do estado. O segundo foi na quarta-feira, quando professores estaduais em greve fecharam a via por quatro horas, sem que a Polícia Militar tenha sido capaz de minimizar os transtornos a cidadãos prejudicados pelo ato.
Desobstrução
Se vias como a Linha Verde, consideradas importantes, forem interditadas por protestos, haverá uma avaliação da situação, com a PM podendo agir para que a via seja desobstruída. “Tudo dependerá de avaliação de momento. Se for um espaço vital para o evento (Copa do Mundo), se oferecer risco aos envolvidos ou se for um local extremamente importante, a polícia poderá, sim, desmobilizar os manifestantes com uso de força”, afirmou ontem o assessor estratégico da PM para o Mundial, coronel Leandro Bettoni, depois de se reunir com delegados da Ordem dos Advogados do Brasil de Minas Gerais.
Uma das prioridades é a passagem das delegações dos países envolvidos com a Copa. De acordo com o coronel Bettoni, há várias estratégias e caminhos possíveis para que os comboios cheguem aos estádios e concentrações. Mas, se um grupo de manifestantes encurralar um desses ônibus, a escolta agirá imediatamente para resguardar atletas e delegados. “Essa é uma situação possível e consta no nosso plano de contingência. Se um veículo de delegação for parado, a escolta, que é feita pelas polícias Militar e Federal, terá de intervir e liberar a passagem”, disse.
Destruição e furtos a concessionárias e lojas também não serão tolerados. Segundo o coronel Bettoni, foram traçadas estratégias para que as forças de segurança intervenham mais rápido e impeçam as ações de saqueadores e depredadores. “Estamos mais preparados do que na Copa das Confederações. A demora para atuar enquanto os crimes ocorreram é diferente de omissão.
Reação a agressões
As poucas vezes em que a Polícia Militar agiu com mais vigor contra manifestantes ocorreram em Ribeirão das Neves, na Grande BH. No ano passado, em 21 de junho, vândalos depredaram a Câmara Municipal e tentaram invadir a garagem da concessionária de transportes Transimão. Policiais militares que faziam um cordão de isolamento nos edifícios foram atacados com pedras. Dois homens também atiraram na direção dos PMs. Uma policial foi atingida na perna e teve de ser socorrida na Unidade de Pronto-Atendimento de Justinópolis. Um soldado baleado nas costas foi levado de helicóptero para o Hospital João XIII. A tropa reagiu e rechaçou os manifestantes. Dois suspeitos foram presos, pouco depois do ataque, em uma favela próxima ao local. Com eles foram apreendidas duas armas de fogo.
Análise da notícia
O direito da maioria
Autoridades mineiras agem bem ao anunciar mais rigor contra bloqueios de vias promovidos durante protestos no estado, em especial em Belo Horizonte. A livre manifestação é parte da democracia e deve ser respeitada, mas é também obrigação das forças de segurança garantir que o direito de ir e vir da maioria não seja atropelado. Moradores da capital, prejudicados por seguidas interdições, exigiam havia muito tempo postura mais firme da Polícia Militar. A partir de agora, é de se esperar que não se repitam cenas como as de quarta-feira: na ocasião, policiais nada fizeram para impedir que milhares de pessoas fossem prejudicadas por bloqueio de pistas na MG-010. A população, que paga seus impostos em dia e espera ser protegida pelos policiais, agradece. .