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Estado de Minas

Minas pela Paz colhe frutos do trabalho focado na educação e na segurança

Projeto criado há sete anos agora investe na prevenção e busca empresas parceiras para decolar


postado em 27/05/2014 06:00 / atualizado em 27/05/2014 06:43

Na reunião daquele dia, a missão era discutir uma forma de incrementar o ambiente de desenvolvimento no estado. À mesa, estavam os cabeças das 12 maiores empresas, integrantes do conselho estratégico da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Entenderam que a melhoria passava pela educação e pela segurança pública. Nascia ali o Instituto Minas pela paz, com a urgência de uma demanda: corrigir o que estava errado. Como prioridade, foram elencadas ações voltadas à defesa social. Tão bem-sucedidas que, sete anos depois, impulsionaram o Movimento Minas pela paz, tendo na prevenção o novo carro-chefe.

Aumentar as apostas no trabalho preventivo para complementar a atuação em defesa social, com foco na promoção da cultura da paz, ainda depende da adesão de empresas parceiras para decolar. O presidente do Minas pela paz e da Fiat Chrysler para a América Latina, Cledorvino Belini, ressalta que as complexas demandas sociais impõem desafios que somente serão vencidos se a sociedade somar esforços e cada setor aportar o que tem de melhor. “Os empresários podem agregar a este esforço coletivo a capacidade de gestão, que é a marca principal da iniciativa privada, caracterizada pelo foco em processos, em governança e em resultados. Assim, reforçamos as instâncias de articulação intersetorial da sociedade”, diz.

Belini ressalta que o conselho estratégico da Fiemg, do qual a Fiat faz parte, compreende essa necessidade e busca uma atuação efetiva em prol da cultura de paz. “É por isso que participamos da concepção e da gestão do Minas pela paz, com o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa”, afirma. “Estamos dedicados a apoiar a iniciativa em diversos âmbitos. Queremos ser uma conexão relevante nessa rede, fortalecendo o capital social de nossa cidade, de Minas Gerais e do país”, acrescenta.

O esporte com o viés de formação cidadã, a educação e o voluntariado são os três pilares dessa nova fase. “O preventivo é mais lento, talvez mais custoso, envolve parcerias maiores, mas é o caminho”, ressalta a gestora de desenvolvimento social do Minas pela paz, Liliane Lana. O mais adiantado dos projetos é o Futebol Minas pela paz, que terá a bola como atrativo, mas não como o fim. Aprovada na Lei de Incentivo ao Esporte, a ideia é dar nova cara aos campos de várzea de Belo Horizonte. As ações terão início em cinco dos 53 locais mapeados, e a expectativa é de que saiam do papel no começo do segundo semestre.

Cada campo terá dois vestiários para os times e um para o juiz, além de uma sala de aula. Com o lema “chuteira nos pés e livros nas mãos”, antes de bater uma bolinha o menino terá de estudar. Reforço em português e matemática e oficinas de cidadania são alguns dos deveres de casa antes de encarar os gramados. “Pode até surgir um grande talento do futebol, mas não é esse o objetivo, e sim a disciplina, as relações interpessoais, as habilidades motoras e cognitivas”, destaca Liliane.

Cidadania

As ações voltadas à educação estão sendo definidas, mas terão como base os pilares da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também será usado para embasar os pilares da cidadania. O terceiro setor será convidado a participar das atividades, voltadas a crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.

O terceiro ponto da iniciativa, o voluntariado, será trabalhado nas Associações de Proteção e Assistência aos Condenados (Apacs), levando conhecimento e apoio psicossocial aos familiares de recuperandos. O projeto está em fase de diagnóstico, que deverá ser concluído até meados do mês que vem. Na sequência, haverá a convocação de voluntários, que vão participar da construção da metodologia de trabalho.

O ponto de partida serão as Apacs de Nova Lima, na Região Metropolitana de BH, Sete Lagoas (Região Central do estado) e de Itaúna (Centro-Oeste de Minas). Em 2015, o programa será replicado para outras unidades. “Por mais que essa pessoa estivesse levando renda ilegal para casa, era dinheiro que garantia a sobrevivência da família. Sem isso, ocorre a sucessão, com a entrada da esposa ou do filho no crime. A ideia não é levar bens materiais para a família, mas ajudá-la a lidar com esse momento e esse desafio”, afirma Liliane.

Da escola
aos presídios, foco é no ser humano
Ao longo dos sete anos de atuação do Instituto Minas pela paz, inúmeras iniciativas foram desenvolvidas, uma delas o programa Acervos museológicos, criado em 2011 para capacitar professores e diretores de escolas públicas de BH na área de gestão de projetos culturais, e que possibilitiou aos educadores melhorar a própria gestão da escola. Em parceria com a PUC Minas, foi estruturada uma pós-graduação na área, oferecida a 232 profissionais. Em paralelo, 62 mil alunos visitaram e conheceram espaços culturais da cidade. No fim do ano passado, uma olimpíada cultural elegeu o melhor projeto entre os docentes. O vencedor foi o catálogo fotográfico “(in)verso à noite – (in)verso ao dia”, produzido por alunos do 5º e do 6º ano do ensino fundamental e por estudantes da turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal Maria de Magalhães Pinto, no Bairro Itatiaia, na Pampulha.

Os 350 alunos da professora Jeanne Mary Vieira Chequer, de 41 anos, visitaram 221 espaços, todos gratuitos, entre museus, centros culturais, bibliotecas, parques da cidade e o Mercado Central. “É uma escola de periferia, e a ideia era apresentar a cidade aos alunos. Muitos deles não tinham noção do que podiam vivenciar nela, e sem pagar nada. A educação ocorreu ao longo da cidade, pois ela não está só dentro de sala de aula. Hoje, os estudantes falam com intimidade dos lugares. Crianças de 11 anos lembram da exposição de Cândido Portinari”, relembra a professora. A experiência prática teve desdobramentos em várias disciplinas. A história da cidade foi tratada em português. Os percursos feitos serviram à matemática. Fatos e fotos foram trabalhados na disciplina de história. E até um estudo sobre a fotografia animou as aulas. Jeanne resume a satisfação: “A minha realização é iniciar a ideia, conseguir colocá-la em prática e concretizá-la. São tantos nós no meio do caminho, normalmente. Temos a intenção, fazemos a proposta e não chegamos ao fim. Começar e acabar foi um sucesso. E o depoimento dos meninos mostra o quanto foi importante”.

Defesa Social

Outra iniciativa, esta na área de defesa social, teve como resultado mais de 700 egressos reinseridos no mercado de trabalho, cerca de 2,6 mil apenados qualificados em cursos profissionalizantes e mais de 420 mil denúncias da população contra a criminalidade. O investimento foi direcionado a projetos de prevenção à violência, com enfoque para a correção de erros evitando-se mais crimes. E foi no sistema carcerário a atuação mais direta, com apoio e oportunidades a adolescentes, adultos e seus familiares.

“O importante é o que você diz, não quem você é.” O jargão, conhecido da maioria da população, traduz o mote de um dos programas mais conhecidos do Minas pela paz: o disque-denúncia. Articulado pelo instituto, mas gerido pelo governo do estado, reúne o trabalho do Corpo de Bombeiros e das polícias Civil e Militar. Graças a informações anônimas, o serviço fechou o ano passado levando à prisão mais de 24 mil pessoas e garantindo a apreensão de mais de uma tonelada de drogas.

A outra vertente é o programa Regresso, que cumpre papel importante na ressocialização de ex-detentos e na tentativa de mudar a realidade de 70% a 80% de egressos reincidentes no crime. Podem ser beneficiados liberados definitivos, pessoas em livramento condicional e em prisão domiciliar. “As mesmas pessoas voltam o tempo todo ao sistema, e uma das questões são as portas fechadas para que elas se coloquem ou recoloquem no mercado de trabalho”, afirma a gestora de desenvolvimento social do Minas pela paz, Liliane Lana. Desde 2009, mais de 700 egressos conseguiram alguma ocupação, e cerca de 2,5 apenados foram qualificados em cursos do Sesi/Senai.

 


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