Jornal Estado de Minas

Traves de jogo histórico da Seleção Brasileira em 1950 viram atração em Muzambinho

Balizas usadas na partida entre Brasil e Uruguai na final da Copa, no Maracanã, são a maior atração em museu na cidade do Sul de Minas

Paulo Henrique Lobato - Enviado especial

As balizas de madeira estavam na meta em que Barbosa sofreu o 2 a 1 uruguaio, na tragédia esportiva tratada mundialmente como Maracanazo - Foto: FOTOS: Edésio Ferreira/EM/D.A. Press


Muzambinho –
Lúcia Santos tem orgulho de contar aos turistas que visitam a Casa de Cultura Doutor Lycurgo Leite que sua cidade, Muzambinho, no Sul de Minas Gerais, a 420 quilômetros de Belo Horizonte, tem duas relíquias da Copa de 1950: “São as traves do Maracanã”. As balizas não trazem boas lembranças aos brasileiros, pois a Seleção perdeu a final para os Uruguaios por 2 a 1, em 17 de julho daquele ano, diante de cerca de 200 mil torcedores. “Muita gente me pergunta como elas vieram parar aqui. Quem sabe a história completa é o Célio, que tem um escritório de contabilidade na praça principal”.

Ela se refere a Célio Sales Sobrinho, filho de José Otaviano Sales, um dos responsáveis por levar as peças do Maracanã para a pacata cidade mineira, onde hoje residem pouco mais de 20 mil pessoas. José e o prefeito da época eram amigos do administrador do estádio no Rio de Janeiro e ficaram sabendo que o poder público iria substituir as molduras. “Então, eles pediram as traves, no fim da década de 1950, e o responsável pela associação, que se chamava Urias Antônio Oliveira, concordou em doá-las. Um senhor daqui cedeu o caminhão e a viagem, de ida e volta, durou 17 dias, pois boa parte da estrada era de terra”, disse o contador. Foram quase 530 quilômetros de chão.

As traves precisaram ser trocadas por determinação da Fifa: a entidade máxima do futebol ordenou que os modelos quadrados e de madeira fossem substituídos pelos de ferro, arredondados.
Uma amostra delas foi encaminhada para análise na Universidade Federal de Lavras (Ufla): a instituição está apurando qual tipo foi usado. A avaliação preliminar é de que seja pinho de riga e que tenha sido importado do Leste europeu. Os testes serão concluídos nos próximos meses.

As peças foram instaladas no Estádio Municipal Professor Antônio Milhão. A estreia das traves foi em maio de 1960, numa partida entre o Muzambinho e o Olaria, time do Rio de Janeiro que excursionava pelo Sul de Minas. Os torcedores da equipe local não gostam de lembrar daquele jogo: os visitantes marcaram 12 gols e não levaram nenhum. Por outro lado, os torcedores do Muzambinho sentem orgulho ao recordarem um confronto, também na década de 1960, contra o Fluminense. A partida terminou empatada por 1 a 1. O placar foi considerado um feito para o clube.

Uma foto daquele amistoso está fixada na parede do museu da cidade, Francisco Leonardo Cerávolo, onde há um acervo em homenagem ao goleiro Barbosa (1921-2000), que foi crucificado por boa parte da torcida ao não impedir o segundo gol, na final de 1950, feito pelo uruguaio Ghiggia. A derrota passou a ser conhecida mundialmente pela expressão Maracanazo. Embora o público oficial tenha sido de 173.850 pessoas – o maior de uma final de Copa do Mundo –, estima-se que o número de presentes tenha sido de cerca de 200 mil.

DESABAFO Na década de 1990, em entrevistas à imprensa e em conversa com amigos, Barbosa (27/3/21 – 07/4/2000) desabafou mais uma vez: “A pena máxima no Brasil é de 30 anos, mas eu já paguei mais do que isso”. Ele, porém, foi um importante goleiro tanto para a Seleção quanto para os times que defendeu.
Poucos meses depois de perder a final para o Uruguai, foi campeão carioca pelo Vasco no Maracanã, com vitória por 2 a 1 sobre o América.

Em 1948, ele ajudou o cruz-maltino a conquistar um título internacional. No Sul-americano, a equipe carioca venceu o River Plate, da Argentina, que tinha entre os ídolos Di Stéfano. “Ninguém perde sozinho. O Barbosa nunca reclamou dos companheiros de Seleção”, defendeu Ísis Vilhena, funcionária do museu. No acervo dedicado ao ex-arqueiro, há um pedaço do encaixe da trave de madeira, além de fotos e livros sobre sua trajetória.

Na década de 1960, ao ser questionado sobre o destino das traves por um jornalista, o ex-atleta respondeu que as havia queimado num churrasco com amigos. Parecia, comentam moradores de Muzambinho, que queria exorcizar seu maior “demônio”.

Mas as balizas foram mesmo parar em Muzambinho. Alguns anos depois de fixadas no estádio municipal, foram transferidas para outro campo da cidade. Tempos depois, estavam instaladas num campinho na área rural.
Permaneceram por lá por mais de 10 anos, até que um vendaval derrubou um eucalipto que existia na beirada do campo. Enorme e pesada, a árvore caiu sobre uma das traves, quebrando-a.

Pedaços dela e da outra, que permaneceu inteira, foram removidos para a casa de cultura, onde Lúcia Santos trabalha como secretária e ouve os turistas, meio que incrédulos, perguntarem como as peças do Maracanã foram parar ali.

 

LINHA DO TEMPO

1950


As traves estão na partida mais trágica da Seleção Brasileira: derrota para o Uruguai por 2 a 1



1958

As balizas são levadas do Rio de Janeiro para Muzambinho, no Sul de Minas

1960

As traves são “inauguradas” na cidade, num amistoso em que o time local perdeu de 12 a 0 para o Olaria (RJ)

2000

Uma das traves foi restaurada e levada para a Casa de Cultura de Muzambinho

2014

A Ufla recebe um fragmento das traves para descobrir qual é a espécie da madeira

.