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Estado de Minas

Fechada há 6 anos, igreja em Ouro Preto será reaberta para visitação e missas

Templo do século 18 tem três santos negros e anjos barrocos


postado em 10/05/2014 06:00 / atualizado em 10/05/2014 07:03

Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, no alto do Morro da Cruz, destaca-se na paisagem da cidade histórica(foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)
Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, no alto do Morro da Cruz, destaca-se na paisagem da cidade histórica (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)

Ouro Preto – A protetora das moradias e santa poderosa contra incêndios estará de volta, finalmente, à sua casa, construída no século 18 e destaque na paisagem da primeira cidade brasileira reconhecida como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Depois de seis anos de espera e luta na busca de recursos para o restauro, será reaberta hoje, às 19h30, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, mais conhecida como Santa Efigênia do Alto da Cruz, devido ao nome do bairro localizado no fim de uma extensa ladeira. “Acabou o lamento de muito tempo e veio o momento feliz”, afirma o juiz da irmandade de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, Francisco de Paula Santos, o seu Paulo, de 80 anos, que considera o templo a extensão da sua vida, pois ali foi batizado, crismado, atuou como coroinha e se casou.

De pé na escadaria de 41 degraus de pedra, seu Paulo fica com os olhos brilhando ao falar sobre o exterior do templo, com a fachada pintada de novo, e o interior no qual o dourado reluzente e a policromia sobressaem nos elementos artísticos, a madeira dos altares se mostra livre dos cupins e o forro, com as figuras de Nossa Senhora, evangelistas e doutores da Igreja, exibe cores e desenhos originais. “Ela ficou velhinha em folha”, brinca o historiador Carlos José Aparecido de Oliveira, diretor do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, instituição proponente do projeto de restauração. “As pessoas reclamavam: ‘Santa Efigênia está sempre nas orações de quem quer a casa própria e ela mesma está sem a dela’. Agora, o drama terminou”, diz Carlos José, ao lado do titular da paróquia, padre Luiz Carlos dos Santos. No período de intervenção, as celebrações foram transferidas para outras igrejas e capelas.

Entrar na Igreja de Santa Efigênia é uma experiência de fé, comunhão com a beleza e oportunidade de conhecer mais sobre a arte colonial. “Temos aqui a decoração do período joanino do barroco mineiro, com características das oficinas de Braga, em Portugal”, explica Carlos José, ressaltando o altar-mor, com as duas padroeiras, e os laterais com as imagens de São Benedito, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora do Carmo, Santa Bárbara e Santo Antônio de Categerona ou Noto. Na construção que durou mais de meio século, de 1733 a 1785, trabalharam artistas e entalhadores, entre eles o português José Coelho de Noronha (1704-1765), mestre de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), Manoel Francisco de Araújo, autor do desenho da fachada, e Francisco Xavier de Brito, que chegou a Vila Rica em 1741 e executou também a talha-mor da Basílica de Nossa Senhora do Pilar.

MITOS Na atual intervenção supervisionada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pelo tombamento, em 1937, a equipe de restauro encontrou surpresas que jogaram por terra alguns mitos. “Ao longo da história, todo mundo dizia que todas as imagens eram negras. Realmente, temos Santa Efigênia, São Benedito e Santo Antônio de Categerona, mas os anjos estavam, na verdade, encardidos, cobertos de fumaça e principalmente de cera, usada até alguns anos atrás para dar polimento. Quando os restauradores chegaram perto das esculturas com equipamentos, como o soprador térmico, a cera se dissolveu e apareceu a pintura original”, afirma Carlos José.

O altar foi restaurado, e as figuras de Nossa Senhora, evangelistas e doutores têm cores originais(foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)
O altar foi restaurado, e as figuras de Nossa Senhora, evangelistas e doutores têm cores originais (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)


A história é a deixa para o historiador falar sobre os primórdios do templo, erguido pela irmandade formada em 1719 por escravos da freguesia de Antônio Dias. Atuando na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, o grupo se desentendeu com os brancos que também participavam e resolveu edificar a sua própria igreja. A princípio, ocuparam a Capela do Padre Faria, e depois se estabeleceram no Alto da Cruz. A irmandade continua atuante, tanto que contribuiu com dinheiro e batalhou junto com a paróquia para obter R$ 2 milhões e tocar a obra em duas fases, a primeira com patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a segunda com recursos da Vale, via lei federal de incentivo à cultura. “Começamos, depois paramos um ano, por falta de dinheiro, para depois recomeçarmos o projeto”, conta Paulo.

SOLIDARIEDADE Atento e com cara de alívio, o padre Luiz Carlos diz que só tem uma palavra a dizer: “gratidão”, pois houve solidariedade de todos os lados. “Há momentos em que a gente fica mais preocupado, tenso, é obrigado a falar, mas o sentimento de gratidão se torna mais forte”, diz o padre. Ele convida toda a comunidade de Ouro Preto para a procissão luminosa com a imagem de Santa Efigênia, que vai sair hoje às 18h30 da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos e Bom Parto, no Bairro Padre Faria, para a cerimônia de reentronização da imagem, na igreja do Alto da Cruz, em missa presidida pelo arcebispo de Mariana dom Geraldo Lyrio Rocha.

Amanhã e nos próximos domingos será celebrada missa sempre às 7h, o mesmo ocorrendo às sextas-feiras. No sábado, o horário é 19h30. “Vamos fazer batizados e casamentos e já temos até um matrimônio marcado”, adianta o padre. Por causa dos 41 degraus e o panorama visto do Alto da Cruz, a igreja é campeã na preferência das noivas, pois elas podem deixar o longo véu se arrastando, num efeito muito bonito.


Cupim foi o principal inimigo

Quem vê agora a Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz nem imagina os bastidores dessa empreitada, que teve como inimigo o cupim. “Foram encontrados aqui os cupins de solo, os piores”, explica o historiador Carlos José Aparecido de Oliveira. Os insetos, aliás, merecem um capítulo especial nessa trajetória da restauração. O especialista e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Norivaldo dos Anjos, os localizou primeiramente no cemitério, que fica nos fundos do templo. Verificou que os bichinhos devoravam os caixões e, na sequência, migravam para forro, talhas e imagens. “Será necessário monitoramento permanente.”

Além da descupinização, o projeto contemplou o restauro do altar-mor, quatro altares laterais, dois púlpitos, forros da nave e capela-mor e porta quebra-vento, além de três altares do consistório (local de reunião das irmandades). Já a parte de engenharia civil incluiu a cobertura, sendo colocada manta de alumínio sob o forro para afastar infiltrações, reparos no reboco das paredes e uso de tinta especial com propriedade semelhante à cal. Projetos complementares, custeados pela irmandade, igreja e Museu de Arte Sacra, beneficiaram parte elétrica, recuperação do lustre, sonorização e segurança, com equipamentos anti-incêndio. “Só falta agora a iluminação externa”, diz o historiador. Na manhã de terça-feira, depois de subir a a ladeira de Santa Efigênia, a turista francesa Cathèrine Christmann parou e olhou desapontada para a igreja. “Está fechada”, comentou com os repórteres do EM. Para a jovem não perder a viagem, o padre autorizou a entrada só permitida a moradores e visitantes a partir de hoje à noite. “Trata-se de uma obra de arte brasileira excepcional”, disse Cathèrine.







SAIBA MAIS: PROTETORA DOS LARES
Em grego, Efigênia ou Ifigência quer dizer “nascida forte”. Contemporânea do evangelista São Mateus, Efigênia nasceu na região da Núbia, atualmente Etiópia, na África, nos primórdios da fé cristã. Considerada uma heroína da fé, dedicou sua vida à oração, ao serviço à comunidade e à divulgação do nome de Jesus e da Boa Nova do Reino de Deus, conforme a novena divulgada pela paróquia. A imagem da santa está com o hábito carmelita, porque sua comunidade vivia a regra do carmelo. A pequena casa na mão se refere ao duplo triunfo sobre a voracidade das chamas – Efigênia, consagrada a Deus por São Mateus, foi vítima da ira do rei Hirtacus, que, obcecado pela jovem virgem, mandou pôr fogo na casa onde ela vivia, antes mandando matar o evangelista. As labaredas, no entanto, não destruíram a moradia. A devoção a Santa Efigênia começou entre os carmelitas de Cádiz, na região espanhola da Andaluzia, na Espanha, se propagou por Portugal e depois pelo Brasil. Por ser africana, a santa despertou a atenção e o carinho dos negros.


ARROZ DE FESTA
Depois de tanta batalha para recuperar a Igreja de Santa Efigênia, o pároco Luiz Carlos dos Santos quer ver a comunidade ajudando a preservá-la. E vai divulgar informações nas celebrações. Dessa forma, durante os casamentos, não será permitido jogar arroz sobre os noivos, um velho símbolo de boa sorte, para que os grãos não se entranhem entre as pedras do piso. Pétalas de flores também serão banidas, pois, pisadas, mancham o chão. “Os fiéis devem colaborar, não encostando os pés na parede e zelando pela conservação”, afirma o padre.


LINHA DO TEMPO
1719 –Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos e Santa Efigênia é criada em Vila Rica, hoje Ouro Preto
1733 – Começa a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, no alto do Morro da Cruz
1785 – Término das obras de construção da igreja
Século 19 – Durante obras de restauro, todos os altares, com douramentos e policromia, e as paredes são cobertos de tinta branca
1937 –Templo é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
2007 – Começam as obras de restauração da igreja e primeira fase vai até 2011
2012 – Obras na igreja são paralisadas por falta de recursos
2013 – Em fevereiro, obras recomeçam com recursos da iniciativa privada, vila lei federal de incentivo à cultura
2014 – Reabertura da igreja, hoje, depois de seis anos e meio fechada, com procissão e missa solene


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