Jornal Estado de Minas

Centro Cultural Banco do Brasil investe para formar público para as artes

Há apenas oito meses na capital mineira, o Centro investe em projeto educativo para cativar crianças, adultos e idosos para a cultura

Junia Oliveira

Monitores do CCBB conduzem estudantes às salas, sempre trocando informações com os jovens e ressaltando que o espaço é gratuito e pode ser visitado sempre, com familiares e amigos - Foto: Fotos: Marcos Michelin/EM/D.A Press


O prédio amarelo da Praça da Liberdade deixou para trás os tempos em que, como Secretaria de Estado de Segurança Pública, testemunhou diversos crimes e casos de violência que chocaram Minas Gerais para tomar ares de imponente elegância. Hoje, totalmente reformado, de estrutura e de propósito, é um verdadeiro convite a uma visita, um café e à imersão no universo das artes. E quer ser responsável por outra transformação – a do público. Num país onde a cultura ainda é vista como artigo de luxo, o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) lançou o desafio de provar o contrário. Há oito meses em Belo Horizonte, ele investe em várias ações para atrair espectadores, mostrando que a cultura é, sim, acessível e para todos os gostos.

Formar público é o mote do programa Educativo, iniciativa consolidada nos CCBBs de outras capitais – Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. No caçula do grupo, a prova de fogo é cativar pessoas numa cidade até pouco tempo carente de atrativos e equipamentos culturais. Na programação, atividades para conquistar visitantes espontâneos e grupos específicos, dando-lhes a oportunidade de conhecer diversas áreas culturais, como artes cênicas, música e audiovisual.


Para isso, inovou, se despiu de regras e decidiu falar várias linguagens, para todos entenderem. O gerente de Programação Cultural e Ações Educativas do CCBB, Vander André Araújo, ressalta que a busca é pela questão transversal, fazendo do lugar um espaço de multicultura e ajudando o público a perceber que a arte passa por todas as áreas. “Nada terá efeito se não houver o público. A formação dele é muito importante e perpassa a democratização de acesso à cultura.”

Uma das portas de entrada são as escolas, principalmente as públicas, com visitas às exposições guiadas por educadores do CCBB ao longo de toda a semana. À noite, o atendimento é para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A coordenadora pedagógica do Educativo, Adriana Xerez, destaca que as instituições de ensino são canais importantes de formação de público, considerando que os estudantes podem agir como multiplicadores do que viram e aprenderam.

 “Recebemos muitas escolas de periferia, com meninos que nunca tiveram a oportunidade de ir a um museu ou centro cultural”, relata. “Na nossa conversa com eles, fazemos questão de ressaltar que é o CCBB é gratuito, que funciona até as 21h para atender quem trabalha, com a expectativa de as crianças falarem para os pais e entenderem que o espaço é delas, que podem vir não só com a escola, mas com um amigo, com vizinhos e com familiares”, conta Adriana.

Alunos da Escola Municipal Cora Coralina, no Bairro Copacabana, em Venda Nova, se encantaram com a exposição Um olhar sobre o Brasil: a fotografia na construção da imagem da nação, cujas imagens revelam a multiplicidade de nossa cultura ao longo de décadas. Nas fotos, momentos históricos, como a primeira transmissão televisiva do Brasil e da América do Sul, feita pela Rede Tupi, antigo canal dos Diários Associados, e a condecoração de Ernesto Che Guevara com a medalha Grã-Cruz do Cruzeiro, a ordem máxima brasileira, pelo ex-presidente Jânio Quadros, no salão nobre do Palácio do Planalto. Há ainda retratos de artistas que fizeram história, como Cacilda Becker (1921-1969), a dama do teatro nacional, ou, simplesmente, cenas do cotidiano de milhares de pessoas anônimas.

Bárbara Rocha, de 12 anos, aluna do 6º ano do ensino fundamental, aproveita as visitas com a escola para repassar a programação em casa. Na agenda da família, frequentar espaços culturais é obrigatório. Pela primeira vez no CCBB, ela já sabe que a próxima será em companhia dos pais ou da tia.
A menina gosta de exposições e de fazer dos passeios um aprendizado: “As coisas antigas me chamam a atenção. Saber como era antes e como é hoje é bem legal. Vejo que antigamente era muito mais interessante”. O colega dela, Joseph Miranda, também de 12, não perde a oportunidade de conferir exposições e outras atividades, principalmente quando viaja com os pais. Numa dessas viagens, conheceu o Museu de Cera, em Camboriú (SC). “Conhecer parte da história enriquece a formação. Muitos colegas nunca viram algo assim. Hoje estão aqui interessados e nem fazem bagunça”, afirma.

 

 

Durante passeio com a escola, Bárbara Rocha e o colega, Joseph Miranda, ambos de 12 anos, observam fotos em exposição - Foto:
Surpresa poética


Visitantes contemplam as fotos e, de repente, surge uma dupla com violão nas mãos e chapéu de vaqueiro na cabeça. Cantando rimas que falam do Brasil, educadores caracterizados de Lampião e Maria Bonita aparecem na galeria onde estão as fotos dos cangaceiros mais famosos do país.

Alguns frequentadores continuam com o olhar direcionado, sem mudar de rumo; outros, não escondem a surpresa. A “ação poética” é uma das propostas do CCBB para “provocar” o público. São intervenções cênicas ousadas, sempre nas galerias de exposição, que desconstroem o universo das artes. O objetivo é chamar a atenção dos frequentadores e convidá-los a ter cadeira cativa no espaço.

O gerente de Programação Cultural e Ações Educativas do CCBB, Vander André Araújo, ressalta que formar público é ir além de contabilizar a quantidade de visitantes. É mostrar que a acessibilidade das artes também passa pela compreensão e pelo comportamento das pessoas. “Queremos queo visitante venha e tenha a oportunidade de conhecer todas as áreas, por isso, esse é um centro multidisciplinar”, destaca.

Outras atividades, todas ligadas ao programa Educativo, querem conquistar o chamado público espontâneo, para que ele se torne frequentador assíduo. As visitas mediadas ultrapassam o conceito das tradicionais visitas guiadas oferecidas em museus e centros culturais. Propõem reflexões por meio de conversas que proporcionam uma aproximação entre o educador, o público, suas respectivas formações culturais e as obras expostas.

“O trabalho com mediação é o cerne do projeto, é a ideia de troca, de despertar o diálogo. É entender a realidade do grupo e, a partir daí, conversar. Tira o público do lugar confortável de ser passivo”, afirma a coordenadora pedagógica do Educativo, Adriana Xerez.

O servidor público Renan Freitas, de 29, frequentador do CCBB, apoia o trabalho de educação cultural, principalmente o desenvolvido com as escolas. Ele ressalta que, embora o lugar atraia visitantes já preparados e com mais poder de compreensão, a formação de público ainda é fundamental. “O espaço está se consolidando e o fato de estar numa área de concentração de pontos de cultura ajuda. Acredito que, com o passar do tempo, veremos o fenômeno de outras cidades, com fila na porta para entrar”, diz.


Vasto cardápio
» Atenção especial – Idosos e pessoas surdas e mudas têm tratamento cuidadoso no Centro Cultural do Banco do Brasil. Os deficientes auditivos podem ser acompanhados por um educador fluente em libras. No quesito acessibilidade, os cegos também têm um espaço diferenciado – a estação sensorial, que aguça a curiosidade também de quem não tem deficiência visual. Nesse local, são reproduzidas imagens que estão nas exposições para que eles possam tocar, sentir e ter uma verdadeira aula sobre história da arte.
» Banco de relatos – O público é convidado a registrar num gravador os relatos das imagens que viu nas exposições. O aparelho fica disponível para quem quiser conferir o resultado. “Estamos, cada vez, mais pensando em atividades que trabalhem os sentidos do corpo”, ressalta Adriana Xerez.
» Musicando – Atividade de experimentação sonora, em que não é preciso saber tocar qualquer instrumento. A intenção é fazer com que o participante fique instigado também pelos sons. No Laboratório Aberto e no de Ações Criativas, também espaços de experimentação, trabalha-se do texto ao corpo.
» Visita teatralizada – Nessa ação, educadores com formação em artes cênicas são os mestres de cerimônia. Eles percorrem os andares do centro cultural incorporando personagens que têm relação com a história da cidade, como o Barão do Café, a Dama dos Anos 20 e o Tocador de Realejo.
» Contação de histórias – O programa de contação de histórias contempla não só o público infantil, como o adulto. E se o assunto são bons “causos” mineiros, a Estação boemia é a oportunidade para ouvir as histórias de BH da década de 1950. Os pequenos têm, ainda, outra atração. No Pequenas mãos, crianças de 3 a 6 anos têm uma série de jogos e dinâmicas específicas, em mobiliário especial. “É um público sem preconceito, que questiona tudo”, ressalta a coordenadora do Educativo, Adriana Xerez.

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