Jornal Estado de Minas

Às vésperas da Copa, Savassi sofre com ação de vândalos

Pichadores sujam equipamentos públicos em um dos mais visitados cartões-postais de BH. Nem mesmo a escultura da Mônica, em exposição no local, escapou da destruição

Tiago de Holanda

Nem o coelho Sansão, que a personagem usa como arma para descarregar a raiva em Cebolinha, resistiu aos ataques: a orelha está trincada - Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press


A menos de dois meses da Copa do Mundo, ações de vandalismo se espalham pelos quarteirões fechados da Praça Diogo de Vanconcelos, a Praça da Savassi, uma das áreas de Belo Horizonte mais visitadas por turistas. O espaço, reinaugurado em maio de 2012, após obras de revitalização que duraram 14 meses e consumiram quase R$ 12 milhões, exibe pichações em paredes, bancos de mármore, canteiros, telefones públicos e até em imensos postes de aço, chamados de totens, instalados nas esquinas das avenidas Cristóvão Colombo e Getúlio Vargas. A vítima mais recente foi uma escultura da exposição que comemora o cinquentenário da Mônica, a famosa personagem criada por Mauricio de Sousa.

A exposição “Mônica Parade”, que começou em 24 de março e se encerra amanhã, espalhou 20 esculturas da personagem na Praça da Savassi, compostas de fibra de vidro. A intitulada “Mônica a la Tikka”, de autoria da artista paulistana Tikka Meszaros, foi posta na Rua Antônio de Albuquerque, entre Cristóvão Colombo e Rua Alagoas. A peça teve a calça de pano rasgada. Na cabeça, foram arrancados o laço e as tranças do cabelo. Até o coelho Sansão foi danificado: ganhou trincas em uma das orelhas e perdeu as estrelinhas que estavam coladas em seu corpo. Outra estátua, em frente ao número 1.312 da Rua Pernambuco, teve a base azul pichada com uma data e o nome de uma pessoa.

O Estado de Minas percorreu nessa terça-feira os quatro quarteirões fechados em torno da praça e viu pichações em todos eles.

No total, há inscrições em 12 bancos de mármore (inclusive nos de uma fonte), quatro lixeiras, oito orelhões, um canteiro de mármore e duas fachadas de prédios particulares. Três totens também foram alvo de vândalos, sendo dois de semáforos para pedestres e um indicando a direção da Rua Tomé de Souza para motoristas que sobem a Cristóvão Colombo. Alguns trechos estão mais atingidos, como o entre os números 1.325 e 1.361 da Rua Pernambuco, onde há pichações nos encostos de metal e assentos de quatro bancos e em uma lixeira.

As pichações na fachada de um restaurante na Rua Pernambuco foram feitas há cerca de três meses, segundo o gerente, Luiz Márcio Carvalho. Ele diz que os casos são frequentes na praça desde a reinauguração. “Fizeram um ‘trem’ tão bacana, mas os malandros fazem a bagunça deles. É necessário botar a polícia direto aí, para prender essa gente.” Ele se preocupa com a imagem que turistas farão de uma das regiões mais atrativas da capital. “É lógico que isso vai deixar impressão negativa. Nos países de primeiro mundo, eles são muitos cuidadosos.”

A mesma preocupação é expressa pelas amigas Vera Lúcia Ferreira, de 55 anos, e Flávia Luciana, 27, que trabalham na região e frequentam a praça. “Os vândalos têm a certeza da impunidade, isso é o principal estímulo para que continuem agindo. A Savassi é conhecida como região nobre, mas as pichações passam aos turistas impressão de insegurança, de falta de policiamento”, critica a contadora Vera. “As pichações refletem a incompetência do poder público em dar segurança. A gente está desamparada”, avalia a engenheira de telecomunicações Flávia.

A Regional Centro-Sul informa que haverá uma ação de limpeza das pichações na Praça da Savassi ainda no primeiro semestre, mas ainda não há data certa para isso ocorrer.


TRISTEZA
Na tarde de ontem, um grupo de quatro turistas observou com tristeza os danos causados à “Mônica a la Tikka”. “Isso é sacanagem”, resumiu o professor Álvaro Domingues, de 28, do Rio de Janeiro.

“Viemos à Savassi para ver essa exposição. Assim que olhamos a estátua, a calça rasgada chamou a atenção. É uma pena”, disse a conterrânea e amiga Evelyn Quintanilha, de 28, também professora. “Dá para perceber que esse é um bairro mais nobre. Essas pichações destoam, são estranhas”, apontou a bióloga Leili Housmann, de 24, de Florianópolis.

Os organizadores da “Mônica Parade” informam que não atribuem a vândalos os danos na peça. “Após um mês nas ruas, as esculturas sofrem alguns problemas”, já que ficam expostas à chuva, ao sol e ao vento e porque pessoas descuidadas “se apoiam na nas peças e mexem nos adereços”, continua a nota. “A organização já está providenciando a manutenção da peça”, prossegue. Não houve registro de ocorrência na Polícia Militar (PM).

O comandante da 4ª companhia da PM, responsável pela Savassi, major Marcellus de Castro Machado, reconhece que a região é muito visitada por pichadores. “Como o local é bem frequentado, eles querem que sua marca seja ostentada ali.” Ele diz que há dificuldade para prender os criminosos em flagrante. “Antes de agir, eles esperam que haja o mínimo possível de vigilância.

O policiamento é lançado para coibi-los, mas o delito ocorre na falta de vigilância.”

Memória

Ataques desde a revitalização

Em matéria publicada em 20 de maio de 2012, o EM mostrou que problemas antigos como sujeira e depredação havia retornado à Praça da Savassi apenas 10 dias depois serem retirados os tapumes das obras de revitalização. Havia lixo atirado indiscriminadamente no chão, nos canteiros e nos jardins, além de pichações e adesivos nos bancos, bancas de jornais e telefones públicos.

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