A cor do outono é vermelha. De alerta. Bastou nova tarde de temporal para que Belo Horizonte somasse 93 pontos de alagamentos e inúmeros prejuízos à população. Os lugares mais críticos já são velhos conhecidos do belo-horizontino, nas regiões Centro-Sul, Nordeste, Noroeste, Norte, Leste e Venda Nova. Até as 16h20, de acordo com a Defesa Civil Municipal, houve registro de volume de 60,6 milímetros de chuva na região mais castigada, a Centro-Sul. Já são contados 132 mm nos três primeiros dias de abril – mais da metade dos 235 mm somados janeiro, fevereiro e março deste ano, quando ocorrem as típicas chuvas de verão.
Para o meteorologista Ruibran dos Reis, ainda que provoquem algum estranhamento e deixem a cidade em alerta, temporais em abril são recorrentes. “Este ano, ao que tudo indica, pela ausência da massa de ar polar que ameniza a temperatura, vamos ter um outono quente”, diz. Para o professor da PUC Minas e coordenador regional do Instituto ClimaTempo, a previsão para os próximos dias é de menor volume das águas, apesar do céu fechado em algumas regiões.
Na Região Centro-Sul, na Rua Joaquim Murtinho, próximo à Avenida Prudente de Morais, Bairro Santa Lúcia, Luciano Coutinho Dias, de 36, e Cristiane Rocha Assunção, de 37, viveram pesadelo ao ver o carro em que estavam ser tomado pela enxurrada. “Foi tudo muito rápido, o tempo de sair com a água nos joelhos para o carro ser coberto”, diz Luciano, que seguia com a noiva para o Bairro Gutierrez. “Morei 20 anos na Flórida e passava seis meses por ano em estado de alerta pelos furacões e não tinha experimentado tamanho susto”, diz Cristiane, há poucos meses de volta ao Brasil. “Graças a Deus conseguimos sair e preservar o mais importante que é a vida”, sorri.
SEM SOLUÇÃO Anderson Freitas, de 46, funcionário de empresa vizinha ao quarteirão alagado na Rua Joaquim Murtinho, critica a falta de solução para o caos. “Estou há 14 anos na região e todo ano é a mesma situação. Basta chover forte 30 minutos para a água subir e dar nisso”. Lucas Barcelos, comerciante, culpa também a população e o poder público. “Olhe só a quantidade de lixo no bueiro. Tem a prefeitura que não faz a parte dela e tem os moradores que emporcalham a cidade. Só pode dar problema”, considera. No nível mais alto da água, um Pálio prata estacionado foi arrastado e lançado sobre a Parati de Luciano Coutinho e Cristiane Rocha, que, por sorte, já tinham conseguido deixar o veículo. A Avenida Prudente de Morais, onde estão instaladas placas de sinalização sobre chuva, também ficou alagada.
Os alunos da Escola Estadual Pandiá Calógeras, no Bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul, passaram por maus bocados com o temporal da tarde. A água invadiu a instituição e assustou os alunos, grande parte crianças. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), goteiras apareceram nos gabinetes de seis deputados. O problema, segundo a assessoria da Casa, teria sido o entupimento das calhas, que resultou em infiltrações.
No Minascentro, na Avenida Augusto de Lima, parte do teto do segundo piso caiu e assustou quem estava próximo. A Defesa Civil esteve no local, isolou o quadrante e tranquilizou os visitantes e promotores da Feira do Empreendedor, evento promovido pelo Sebrae-MG. “O peso da água derrubou parte do gesso do teto”, disse Mara Veit, coordenadora da feira.
No Bairro Nova Granada, na Rua Virgolândia, paralela à Avenida Barão Homem de Melo, o engenheiro Humberto Paulo de Freitas Xavier, de 47, também teve o carro, um Uno, tomado pelas águas que assustaram moradores e comerciantes da Região Oeste. “Nunca tinha passado por nada parecido. Só tinha visto a água subir assim na televisão”, diz. Perto dali, na Rua Maria Macedo, os motoristas mais atrevidos se arriscam a vencer o alagamento que esconde os passeios.
Segundo a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec-BH), todas as ações de prevenção desenvolvidas pela Prefeitura de BH nas áreas de risco estão alinhadas com as recomendações do Marco de Ação de Hyogo – principal instrumento orientador de redução de risco de desastres, adotado por países membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Dentre as ações, está a colocação de placas com o alerta de área sujeitas a enchentes pela cidade, além da emissão de alertas de chuva pelas redes sociais. Somente ontem, a página da Defesa Civil no Facebook contou com mais de 500 mil acessos de moradores, que buscavam se informar sobre as áreas de maior risco de inundação.
Lojas inundadas e caos no Ribeiro de Abreu
Desde os tempos do onça, moradores ribeirinhos ao Córrego do Onça enfrentam problemas com enchentes. Ontem à tarde não foi diferente. Bastou uma pancada de 20 minutos de chuva e granizo para deixar ilhados os comerciantes do Bairro Ribeiro de Abreu, na Região Norte. Na véspera, um homem havia morrido afogado ao tentar atravessar o rio a nado durante a tempestade, segundo relatos dos moradores. “Todo ano é a mesma coisa. Desta vez, a pancada foi mais rápida, mas fez muito estrago”, lamentou Henrique da Silva, dono de três lojas situadas na Rua Ribeiro de Abreu. Em uma delas, televisores e outros eletroeletrônicos enviados para conserto tiveram perda total. A força das águas, que subiram quase dois metros, arrancou o bueiro e levantou a capa de asfalto.
“De certo o rapaz achou que daria conta de chegar ao outro lado. Era de Ribeirão das Neves, não era daqui. Quem mora aqui conhece bem”, disse uma jovem, que insistia para que a equipe de reportagem não deixasse de fazer o registro da ‘cachoeira’. De fato, o ponto onde os córregos se encontram no bairro forma um volume de água impressionante. “Desde a obra da Copasa, a margem do rio foi desviada para o lado de cá. A força das águas vai acabar arrastando os ribeirinhos”, afirma ele, preocupado.
“Minha luta contra as águas deste rio tem mais de 20 anos”, revela a aposentada Conceição Alves Soares, de 76, que precisou ser içada na cadeira de rodas ontem. “Com quantos anos você está, filha? 25? Então faz 25 anos que minha casa é invadida pela enchente”, conta ela, que atribui a perda da perna direita à contaminação pela águas sujas do córrego.
“Quando chove, mina água aqui dentro”, completa o filho Henrique da Silva Andrade. Ele abre as janelas do barracão, que dão vista para as margens do Onça. “Perdemos tudo, de novo”, diz o rapaz, mostrando colchões encharcados e o piso alagado. Segundo Andrade, a prefeitura teria indenizado e transferido parte dos moradores das áreas de risco para outras regiões da cidade.
“Foi muito rápido. A cabeceira do rio encheu em minutos e ficou impossível sair de lá. A água subiu quase dois metros”, contou Elmo de Carvalho, funcionário de um depósito de construção. Ele precisou ser resgatado de dentro do cômodo pela equipe da Defesa Civil de Belo Horizonte. “No ano passado, foi a mesma coisa. A rua virou um rio. Quer ver?”, acrescentou o colega dele, mostrando um vídeo gravado no celular, com data de 2013.
Na Via do Minério, antes da entrada do Ribeiro de Abreu, o táxi Córdoba placa MYD 0783 foi atingido pela queda de um jacarandá de 10 metros, exatamente no momento em que passava pela avenida. “Graças a Deus não tive nada, estou bem”, afirmou o taxista Aloísio Fernão Gorgozinho, que saiu ileso de dentro do veículo com capô destruído..