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Estado de Minas

Cyro Siqueira é referência para uma geração


postado em 30/03/2014 06:00 / atualizado em 30/03/2014 08:07

(foto: Arquivo EM - 21/9/55)
(foto: Arquivo EM - 21/9/55)
Cyro Siqueira é lembrado pelos colegas ligados à sétima arte como personalidade da maior importância no universo cultural mineiro. Esteve à frente da criação da Revista de Cinema, em 1954, publicação elogiada por críticos brasileiros e estrangeiros, que impressionou cineastas exigentes como Glauber Rocha. Cyro, com sua atuação como animador cultural, se tornou mestre de várias gerações de críticos e estudiosos do cinema em Minas.

Para o cineasta, historiador e crítico Geraldo Veloso, que foi seu discípulo e colega no CEC, Cyro Siqueira foi um homem a quem ele, pessoalmente, deve toda a sua formação intelectual e cinematográfica. “Só comecei a frequentar o CEC por causa dele, devido aos artigos que ele escrevia no Estado de Minas. Sua influência foi muito grande no pensamento cinematográfico brasileiro, a ponto de o crítico paulista Paulo Emílio Salles Gomes o credenciar como um dos grandes conhecedores do cinema nacional”, lembra.

De acordo com Veloso, o CEC e a Revista de Cinema foram tão importantes que Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, dois expoentes do cinema brasileiro, chegaram vir a Minas para conhecer de perto esse trabalho, que tinha à frente Cyro Siqueira. “Ele foi um farol, um ponto de referência para minha geração e, para mim, um pai intelectual. Estou muito emocionado com sua perda”, disse Veloso.

Para Paulo Augusto Gomes, cineasta e pesquisador de cinema, também colega de Cyro no CEC, foi o jornalista que, ao criar a Revista de Cinema, deu direção ao pensamento cinematográfico em Minas Gerais. Paulo Augusto avalia que todas as gerações que vieram depois dele, sem exceção, lhe devem tudo, porque foi Cyro Siqueira quem as fez refletir e, consequentemente, entender o cinema como uma forma de criação. “Devemos a ele e a Jacques do Prado Brandão essa capacidade que a crítica cinematográfica mineira teve, a partir dos anos de 1950, e que foi reconhecida em todo o país como um pensamento de vanguarda. Sua perda nos deixa tristes”, lamenta o cineasta.

Quem conviveu com Cyro Siqueira em Belo Horizonte e também frequentava o CEC foi o romancista, professor de literatura e crítico literário Silviano Santiago. Ele lembra que Siqueira, durante anos, manteve uma atualizada, inteligente e instigante coluna de crítica cinematográfica no Estado de Minas. “Na década de 1950, quando os irmãos Pereira dos Santos foram estudar cinema no IDHEC, em Paris, ele os substituiu e se tornou, ao lado de Fritz Teixeira de Salles, Jacques do Prado Brandão, Paulo Arbex e João Etienne Filho, um dos indiscutíveis mestres da jovem geração a que pertenciam, entre outros, Carlos Denis Machado, Flávio Pinto Vieira, João Maurício Gomes Leite e José Haroldo Pereira”, lembra.

Qualidade Para Silviano Santiago, os textos de Cyro Siqueira, de fácil entendimento, bem-informados e bem-escritos, eram lidos pelo grande público e foram determinantes na alta qualidade da compreensão pelos mineiros do que é o cinema de qualidade, fosse brasileiro, norte-americano ou europeu. “Nesse sentido”, lembra o romancista, “o trabalho jornalístico desenvolvido por Cyro Siqueira se agigantou quando, ao lado de alguns dos amigos, fundou o CEC, que exibia semanalmente clássicos do cinema mundial, e a Revista de Cinema, que circulou em 26 edições”.

Silviano Santiago lembra ainda que, em 1968, quando se encontrou com Glauber Rocha em Paris, na Livraria Maspéro, ele lhe confidenciou que sem a leitura nos anos de 1950 da Revista de Cinema ele não teria feito os filmes que acabou realizando. “A leitura que Cyro Siqueira fez dos filmes neorrealistas norte-americanos dirigidos por Robert Wise, Fred Zinnemann, Henry Hathaway, Elia Kazan, Stanlay Kramar e outros, é um verdadeiro marco na crítica cinematográfica mundial”, afirma Santiago.

Além do cinema, Cyro Siqueira sempre demonstrou grande interesse e conhecimento de outros campos da arte, o que o levou a exercer o cargo de presidente do BDMG Cultural, entidade na qual desenvolveu projetos na área de música, literatura e artes visuais.


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