Eles estão no alto de serras, em meio a florestas, às margens de rios, acobertados pelo mato ou distantes da civilização, a quilômetros e quilômetros de estradas de terra.
Araxá – Alto Paranaíba
Árvores e trepadeiras tomam conta das ruínas do primeiro hotel de porte do Parque das Águas de Araxá, anterior ao famoso Grande Hotel. A construção, situada em área tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), foi erguida em 1919 na antiga sesmaria do Barreiro pelo casal Carlos Emílio Hirschle e a madame francesa Lídia Bruno. “Com o Grande Hotel, o Rádio foi sendo deixado de lado e ficou abandonado”, explica a historiadora da Fundação Cultural Calmon Barreto de Araxá Maria Trindade Coutinho.
O prédio funcionou como hospedagem até 1933 e foi, entre outras ocupações, sanatório, república de funcionários do Grande Hotel e escritório da antiga Camig, hoje Companhia de Desenvolvimento Econômico (Codemig), atual proprietária do complexo.
Boa Vista/Ouro Preto – Região Central
Ruínas e desenhos de ruas tomadas pelo mato são os indícios do povoado colonial de Boa Vista, anterior a Ouro Preto. Daqueles tempos, sobrou apenas a Capela de Santa Quitéria do Alto da Boa Vista, uma das primeiras de Minas, erguida no fim do século 17. O povoado colonial chegou a ter milhares de habitantes. “A região é estéril e aos poucos os moradores foram abandonando a localidade”, afirma o professor de história da arte do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) Alex Bohrer.
O templo está bem conservado, pois uma vez por ano, em setembro, recebe fiéis para a festa da santa protetora. Devotos também aparecem nos enterros de descendentes das famílias que moraram ali. “As características – adro quadrado, óculo circular, sineira lateral, frontão triangular – indicam que a capela é das mais antigas de Minas”, ressalta o professor. Apesar disso, a igreja ainda está longe de proteção oficial. O monumento, embora esteja inventariado, ainda não é tombado.
Deputado Augusto Clementino/Serro – Região Central
Na íngreme Serra da Caroula, no distrito Deputado Augusto Clementino, um ambiente místico e religioso com ares de abandono. O povoado de Mato Grosso só recebe moradores uma vez por ano, em julho, na festa do Jubileu de Nossa Senhora das Dores, quando romeiros ocupam as cerca de 100 edículas, barraquinhas de adobe e tijolo espalhadas pelo local. A origem da localidade remonta ao início do século 20. Os fiéis, em mutirão, construíram a Capela de Nossa Senhora das Dores, em terreno doado por José Osvaldo de Gulim à santa.
Por causa da ocupação sazonal e a atmosfera misteriosa no alto da serra, o povoado ficou conhecido como “Cidade Fantasma”. “Mas os devotos e romeiros não gostam desse termo”, ressalta o secretário municipal de Turismo e Cultura do Serro, Pedro Farnesi.
Lagoa Dourada – Campo das Vertentes
No meio da mata fechada, na zona rural, adormece um pedaço da história de Minas. Entre árvores frondosas e centenárias erguem-se pilares e paredões que atingem até nove metros de altura e são, de acordo com levantamentos iniciais, o esqueleto de pedra de um forte usado pelos emboabas durante a guerra com os paulistas, entre 1707 e 1709, pela posse de ouro e pelo domínio da região das minas. Uma das características de destaque são as janelas seteiras, com um metro de largura e laterais em diagonal, possível esconderijo os combatentes.
A área ocupada pela construção tem cerca de 3,5 mil metros quadrados, com 70 metros de frente e 50m de lateral. Encontrado em 2006, o sítio, tombado pelo município, ainda não foi alvo de pesquisas arqueológicas. “Estamos tentando levantar uma verba de pelo menos R$ 500 mil junto a entidades para começar as pesquisas em 2014”, afirma o secretário de Obras de Lagoa Dourada, Adriano Barreto Pinto.
Bico de Pedra/Ouro Preto – Região Central
Difícil ver um carro passar nas proximidades da estrada de pedra construída para ligar a antiga Vila Rica ao Rio de Janeiro. Esse lugar deserto guarda no meio do mato ruínas de um dos mais ousados projetos de engenharia do século 19. À beira de um precipício, na localidade de Bico de Pedra, distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto, está a Ponte do Bico de Pedra.
A estrutura foi construída com inclinação expressiva e em forma de arco romano por volta de 1850, num ousado projeto arquitetônico. Apesar disso, a suspeita é de que a ponte jamais tenha sido usada. “A escolha por esse local provavelmente ocorreu pela bela paisagem”, explica o professor de história da arte do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) Alex Bohrer. Longe dos olhares de turistas e até mesmo dos moradores, a estrutura foi inventariada, mas não tem proteção oficial.
Ribeirão Vermelho – Sul de Minas
Num campo ermo e isolado, um monumento desponta como majestoso esqueleto resistindo à ação do tempo. Nem o descaso conseguiu apagar a beleza da Rotunda de Ribeirão Vermelho, considerada a maior da América Latina e a quarta do planeta. A área de 4,4 mil metros quadrados é o dobro da arena do estádio Mineirinho, na capital, e lembra as formas do coliseu de Roma. Às margens do Rio Grande e à beira da ruína, a construção circular foi inaugurada em 1895 para manutenção e movimentação de locomotivas.
A estrutura metálica é de Glasgow, na Escócia, os ladrilhos hidráulicos são alemães, as telhas, de Marseille, na França. Mas, apesar da riqueza, desde que as ferrovias entraram em decadência, na década de 1950, com a ascensão da indústria automobilística, o prédio, com tombamento municipal, foi abandonado. “Não vemos nenhuma iniciativa para recuperação do patrimônio e ficamos muito preocupados, principalmente no período chuvoso”, afirma Cassiano Alcântara, arquiteto, urbanista e morador do município.
Barra do Guaicuí/ Várzea da Palma – Norte de Minas
A frondosa gameleira trança suas raízes sobre as paredes de pedra das ruínas da Igreja Senhor Bom Jesus de Matozinhos, em Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, no Norte de Minas. A beleza é moldada ainda pelo cenário majestoso, às margens do Rio das Velhas, próximo do encontro com o Rio São Francisco. Em homenagem ao santo protetor dos navegantes, uma das hipóteses é que o templo religioso tenha sido construído por escravos, com orientação dos padres jesuítas. “A ocupação ocorreu em função da povoação do Rio São Francisco”, conta Moisés Vieira Neto, da Casa da Cultura de Várzea da Palma.
Embora não exista registro documental exato da construção nem de quando ela entrou em arruinamento, a estimativa é que a igreja, tombada nas esferas estadual e municipal, seja da segunda metade do século 17. Relatos do viajante Richard Burton, que percorreu a região em 1867, ajudam a confirmar que o templo nunca foi concluído. “Pilastras e púlpitos de pedra estão condenados a não passar de embriões e um arco de alvenaria destinada a marcar o lugar do altar-mor, ao Norte, está coberto de ervas daninhas.”.