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Estado de Minas

Du iu ispiki brazinglish? Tradução ao pé da letra emperra comunicação em BH

Às vésperas de receber milhares de estrangeiros, BH tem exemplos de "inglês à brasileira' espalhados por todos os cantos. Do "x-burguer" a traduções atrapalhadas da própria Belotur, conheça as facilidades que podem se tornar armadilhas para os visitantes


postado em 15/12/2013 00:12 / atualizado em 15/12/2013 07:29

Tiago de Holanda

 

Em uma tarde de quinta-feira, o norte-americano Billy Sanders, de 30 anos, entrou em uma unidade do McDonald’s na Praça da Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Como muitos compatriotas, o rapaz supôs achar ali um lugar seguro para matar a fome. Afinal, nos anúncios os sanduíches têm nomes em inglês, como Big Tasty e cheeseburger. “A cheeseburger, please” (um cheeseburger, por favor), disse, ao se aproximar da balconista. A mulher resmungou um desanimador “ai, meu Deus” e fez cara de desentendida. O estrangeiro repetiu o pedido. Em vão. Alguns minutos se passaram até a atendente perceber uma vaga semelhança entre a palavra estrangeira e o popular x-burguer. Para confirmar, ela apontou para uma foto em uma placa. “Yes, this one” (sim, é esse mesmo), confirmou o cliente, aliviado.

Billy estava diante de um típico exemplo de “brazinglish”, neologismo que significa algo como “brasinglês” ou “inglês à brasileira”. O termo apareceu em um artigo publicado no jornal norte-americano The New York Times. A autora, Vanessa Barbara, não se referia somente a erros de ortografia ou tradução, como no caso de uma placa em Brasília que, querendo apontar o Setor Hoteleiro Norte, indicava o “Southern Hotel Sector” (Setor Hoteleiro Sul). Há também a mania de traduzir tudo ao pé da letra, cujo resultado são versões “com conteúdo ininteligível ou bem estranho”, avaliou. Alguns exemplos são vistos em cardápios de restaurantes, onde carne de sol pode virar “meat of the sun”, frango à passarinho se transforma facilmente em “chicken to the bird” e contra-filé não raro descamba para um “against the steak”. O que é capaz de transformar em pesadelo para um estrangeiro pedir um tira-gosto em um país que se prepara para receber milhares de turistas para a Copa do Mundo.

Em Belo Horizonte não é difícil achar casos de “brazinglish”, como constatou Billy, que nasceu no estado do Arkansas e mora na capital há quatro anos, onde é professor de inglês na escola de idiomas Rizvi.  Ele foi convidado pelo Estado de Minas para fazer esse teste. Há exemplos até mesmo no guia turístico feito pela Belotur. Na página 42 da edição deste mês, ao descrever o Museu de Artes e Ofícios, no Centro, o texto informa que o acervo tem “objetos utilizados no início das mais variadas profissões”, trecho que virou “objects used at the beginning of the most varied professions”. O norte-americano estranhou: “O uso do superlativo the most com varied faz parecer que as profissões têm váriaqs tarefas, como dançar, cozinhar, cantar e construir casas”. Como não é o caso, o texto em inglês ficaria melhor com um of many professions .

Outra tentativa atrapalhada de tradução literal surge na página 47. “Alcançou nesta época o status de maior cinema da América Latina. Funciona, atualmente, como um centro cultural”, afirma o verbete sobre o Cine Theatro Brasil. Em inglês: “Reached this time the status of Latin America’s largest cinema. Currently works as a cultural center”. Faltou pôr os sujeitos dos verbos e escolher uma forma mais usual de falar: “At that time, it was considered Latin America’s largest cinema. It is currently operating as...”. Na página 79, o trecho que diz que o Expominas “tem toda a estrutura para sediar” eventos virou “has a full structure to hold”. Billy questionou: “Full of what?” (a estrutura está cheia de quê?). E sugeriu a alteração para “is fully capable of holding events”.

O trecho que mais confundiu o norte-americano está na página 80, informando que o “corredor gastronômico e bares ganhadores do Festival Comida di Buteco destacam a região do Barreiro”. A tradução registrou: “the corridor gastronomic and bars winners of the festival...”. Além de o adjetivo “gastronomic” ter sido erroneamente posto após o substantivo, o problema é que, ao menos nos EUA, “corridor” não admite o sentido figurado tão usado no Brasil. Por isso, Billy perguntou se no “corredor” a que se refere o guia os estabelecimentos se alinham ou ficam bem próximos uns aos outros. Já que isso não ocorre, ele recomenda a tradução como “gastronomic circuit”. Mas talvez a tradução literal mais bizarra seja a do nome da campanha “Barreiro, prazer em conhecer”, que virou “Barreiro, pleasure to know”. Sugestão do professor: “It’s a pleasure to know Barreiro”.

Responsável pelo guia turístico da capital, a Empresa Municipal de Turismo (Belotur) admite que alguns textos em inglês estão errados. Os originais foram vertidos para o idioma estrangeiro há cerca de quatro anos, informa o órgão. Depois que os deslizes foram constatados, a Belotur passou a pedir que os responsáveis pelos atrativos presentes no livreto mandassem versões de seus verbetes em inglês e espanhol, o que fez algumas das traduções serem substituídas. “Estamos preparando uma revisão para reduzir ou eliminar esses equívocos”, informou a assessoria. Será contratada uma empresa para fazer a revisão,  mas não há data para isso.


Tíquete ou chicken?


Se no globalizado McDonald’s o “brazinglish” dificulta o entendimento entre estrangeiros e brasileiros, não é de se estranhar que exemplos da “nova língua” estejam espalhados pelos mais variados pontos turísticos. Foi o que constatou mais uma vez o professor norte-americano Billy Sanders em um passeio matinal pela orla da Lagoa da Pampulha. Na Igreja de São Francisco de Assis, a popular Igrejinha, uma placa alerta que não é permitido filmar ou fotografar dentro da edificação. A tradução tem um exemplo sutil do “brasinglês”, do tipo que, embora não desrespeite regras de gramática ou ortografia, cria expressões insólitas ou inexistentes em países onde o inglês é o idioma nativo. “It’s not allowed to take pictures or videotape inside the church”. O norte-americano franziu a testa e considerou: “This is unusual” (Isso é incomum). Nos Estados Unidos, o alerta diria algo assim: “No pictures or recording devices are allowed”...

O aviso da placa da Igrejinha prossegue: “Contamos com sua compreensão e colaboração”. A frase foi traduzida como “We do appreciate your comprehension”. A palavra “comprehension”, segundo o professor, é usada “mais em sentido literal, quando você compreende algo, você pega a lógica”, mas não necessariamente está disposto a fazer o que se pede. O melhor seria dizer: “We appreciate your understanding”.

Billy também chama a atenção para outra modalidade de “brasinglês”: o uso cotidiano de palavras do idioma estrangeiro, que aqui ganham um significado diferente do original. Nós costumamos falar que vamos ao shopping, por exemplo, quando originalmente o termo não designa um lugar, mas o ato de fazer comprar. Nos Estados Unidos, as pessoas falam em ir ao “shopping mall” ou ao “mall”.

No Palácio das Artes, no Centro, Billy passou aperto ao consultar uma atendente sobre a programação. Ela entendeu, mas pareceu insegura em responder em inglês. Então, virou a tela do computador e, no site da Fundação Clóvis Salgado, foi mostrando cada uma das atrações. Misturando palavras em português e inglês, avisou que à noite haveria concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. “But no tickets”, ressaltou. Apesar de a frase estar em seu idioma nativo, o americano não compreendeu. O problema foi a pronúncia. O sotaque mineiro fez a seca sílaba “ti” ganhar um certo chiado. Mais tarde, o estrangeiro brincou: “It sounded like ‘chicken’” (soou como ‘frango’).

No Centro de Informações Turísticas anexo ao Parque Municipal, Billy achou que era um bom sinal a frase correta na entrada: “Tourist information”. No momento em que se apresentou às duas atendentes, porém, percebeu que não seria tão fácil. Uma moça arriscou algumas palavras em inglês, meio desarticuladas, e perguntou à colega: “Quer atendê-lo?”. A outra sorriu e aceitou, ainda assim ressabiada. “I’m gonna spend some time in Belo Horizonte. Can you point me to same good restaurants?”, pediu o fictício turista. Ela quis perguntar se era para o almoço, mas como é mesmo que se diz? “Não é ‘breakfast’”, constatou.

Para ajudá-la, o americano foi mais específico: que tal uma sugestão em “local cuisine”? A moça: “Typical mineiros food?”. A insólita mistura de dois idiomas provavelmente confundiria o desprevenido estrangeiro. O caso fez o norte-americano se lembrar de outra mania de alguns dos amigos belo-horizontinos: quando o chamam para sair “tonight” (hoje à noite), dizem “today night”. Nada, enfim, que atrapalhe a balada.

Guia rápido de brasinglês para estrangeiros

1 - Se você quiser comer um cheeseburger, fique atento: ele pode ser comprado em qualquer lugar cujo cardápio tenha a palavra “x-burguer”. Ao fazer seu pedido, em vez de falar “tchis-burrrguerrr”, prefira pronunciar “xis-burguer”.

2 - Quem nasce em Minas é chamado de mineiro. Ao procurar por algum restaurante que venda typical food, pratos da local cuisine, não hesite se alguém lhe oferecer “typical mineiros food”. Você está no lugar certo. Recomenda-se não recusar uma boa porção de tropeiro.

3 - O mineiro costuma ser receptivo com qualquer visitante, seja estrangeiro ou não. Se fizer amigos, pode ser que eles lhe chamem para sair “today night”. Depois do estranhamento inicial, você pode ter certeza de que o programa é “tonight” mesmo.

4 - Se os simpáticos amigos também se oferecem para acompanhar você em uma visita a um “shopping”, não pense que o convite se refere a um passeio no “ato de comprar coisas”. Aqui, o pessoal chama de “shopping” o que você chama de “shopping mall” ou “mall”.

5 - Mesmo em centros de informações turísticas e centros culturais, pode ser difícil encontrar alguém que fale inglês com fluência. É possível que o atendente misture palavras em inglês e português ou pronuncie o idioma estrangeiro com sotaque bem mineiro. “Tickets”, por exemplo, pode virar “tchí quês”.

6- Ao ler o guia turístico de BH, você encontrará erros de tradução. O mais comum é a mania de criar versões literais. Algumas frases em inglês acabam começando com advérbios ou verbos, sem o obrigatório sujeito. “Prazer em conhecer” vira “pleasure to know”; “corredor gastronômico”, “corridor gastronomic”.

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