Jornal Estado de Minas

Dados de 2013

Acidente que matou 14 infla número de mortes de pacientes em estradas de Minas

Tragédia dobrou o número de mortes de pessoas que cruzam o estado em busca de atendimento médico

Luiz Ribeiro

Pertences de passageiros, inclusive crianças, ficaram espalhados pela pista depois do choque - Foto: Rogeriano Cardoso/Esp. EM

Rubelita – A jornada em busca da saúde, que a cada dia expõe mais de 8 mil pacientes aos riscos das estradas que cortam Minas Gerais, terminou em tragédia para ocupantes de um micro-ônibus que saiu de Rubelita, Norte do estado, levando, além do motorista, 25 pessoas para tratamento médico em Montes ClarosA viagem terminou na curva do km 362 da BR-251, no município de Padre Carvalho, mesma região, quando o veículo de transporte de passageiros se chocou com uma carreta desgovernada que seguia de Contagem, na Grande BH, para Recife, e estaria acima da velocidade permitida no localQuatorze pessoas morreram, no mais grave desastre registrado em território mineiro no ano, o que elevou para pelo menos 25 a quantidade de pacientes que perderam a vida em 2013 enquanto viajavam para conseguir atendimento

Veja infográfico com a dinâmica do acidente

 

O acidente, que deixou 13 feridos, incluindo o motorista da carreta, é mais um capítulo do enredo de tragédias na malconservada BR-251, que, como mostrou o Estado de Minas domingo, é uma das mais perigosas rodovias federais em Minas, com crescimento de mortes de 45% nos primeiros 10 meses deste anoEntre janeiro e outubro de 2013, foram registradas 48 mortes em 347 acidentes na estrada, contra 33 mortos em 348 desastres em igual período do ano anterior

Os 14 mortos na tragédia de ontem eram de Rubelita, a 692 quilômetros de BH, e se viram obrigados a procurar tratamento em Montes Claros, a 250 quilômetros, devido à falta de estrutura da saúde localPor causa do acidente, a cidade parou ontem: o comércio fechou as portas e o prefeito decretou luto de três diasA comoção deve ser ainda maior hoje, quando estão previstos o velório e o sepultamento coletivos, no fim da tardeOntem o governador Antonio Anastasia divulgou nota na qual lamentou o episódio e se solidarizou com parentes das vítimas.

O DESASTRE

O micro-ônibus do Serviço de Transporte em Saúde, administrado pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde do Alto Rio Pardo, saiu de Rubelita por volta das 4h30 de ontemDeveria chegar a Montes Claros em torno das 8h, levar os pacientes a hospitais e laboratórios e retornar no mesmo diaA viagem foi interrompida por volta das 6h30, depois que o veículo percorreu cerca de 95 quilômetros



O coletivo chocou-se com a carreta carregada de motores para gerador, que viajava em sentido contrário e cujo tacógrafo registrava velocidade de 84km/h, contra os 60km/h permitidos no trechoA pista estava molhada, o que pode ter contribuído para o desastreDe acordo com testemunhas, a carreta, com placa de Fazenda Rio Grande (PR), perdeu o controle após entrar na curvaA batida foi tão violenta que a parte da cabine se separou e foi lançada a uma distância de 15 metros, fora do asfaltoO micro-ônibus, que era dirigido por Willian Rabelo Vieira, de 32, rodou na pista pelo menos duas vezes após o choque, parando em sentido oposto ao que viajava

O condutor da carreta, José Carlos Vieira, de 37 anos, sofreu apenas ferimentos levesEle afirmou que tentou controlar a direção ao perceber o micro-ônibus vindo em sentido contrário, mas não conseguiu evitar o choqueNo começo da tarde de ontem, o delegado de Salinas, José Eduardo Santos, ouviu o caminhoneiro, mas o teor do depoimento não foi divulgado

Mais cedo, ainda no local da tragédia, o policial disse que teria de aguardar a perícia para emitir opinião sobre as causas do acidente“Não podemos apontar culpados, pois sabemos que a estrada é muito perigosa”, disse
O secretário-executivo do Consórcio de Saúde do Alto Rio Pardo, Célio Brito, afirmou que o micro-ônibus está com a manutenção e a documentação em dia e que o motorista era experiente e credenciado para conduzir o veículo.

VÍTIMAS

A universitária Gleicimar Moreira dos Santos, de 24 anos, é uma das sobreviventes do micro-ônibusEla sofreu apenas ferimentos na perna direita e um corte no braço esquerdo“Nasci de novoTenho muito a agradecer a Deus”, disse ela, ontem à tarde, ainda internada no Hospital Municipal de SalinasEla conta que ocupava a última fila de cadeiras no micro-ônibusAo contrário de outros passageiros – que viajavam para tratamento médico ou acompanhando pacientes –, ela estava de carona“Sobraram quatro lugares e, sempre que acontece isso, permitem que a gente viaje”, disse a jovem, acrescentando que quase todo início de semana viaja nessa condição para Montes Claros, onde cursa psicologia em uma faculdade particular.

Entre os mortos, Ivanéia Bispo Pereira completaria 56 anos em 1º de dezembroEla morava com um irmão em Rubelita, onde trabalhou como professora na Escola Estadual Leônidas Alves Ribeiro até se aposentar, há dois anos, segundo seu filho contou ao EMEstudante de engenharia civil, João Henrique Pereira Loiola, de 23, disse que a mãe fazia tratamento hepático e para osteoporoseHá mais de um ano começou a ir a Montes Claros regularmenteDepois dos exames, ela ainda seguiria para a capital, onde fazia tratamento odontológico de dois em dois mesesA família já temia que a aposentada sofresse algum acidente, devido à frequência das viagensOutra vítima, Fernando Viana de Oliveira, tinha 25 anosEle trabalhava na Copanor, subsidiária da Copasa, e, segundo uma tia, acompanhava o pai, José Viana de Oliveira, de 65, que sobreviveu e foi encaminhado ao Pronto-Socorro de Taiobeiras(Com Tiago de Holanda e Pedro Ferreira)


Os mortos


1 – Ana Corrêa de Almeida

2 – Lúcia Maria Almeida Araújo

3 – Adiléia Aparecida de Souza Leal

4 – Gleiciele Aparecida Caldeira

5 – José Ferreira da Silva

6 – Maria Aparecida Silva

7 – Lucas Silva Miranda

8 – Kaic Aparecido Ferreira da Silva

9 – Maria Madalena dos Santos

10 – Dominga Pereira da Paixão

11 – Otávio Cândido da Costa

12 – Willian Roberto Vieira

13 – Ivanéia Bispo Pereira

14 – Fernando Viana de Oliveira