Em plena era da informação instantânea, de mecanismos que disparam notícias sobre a vida, a morte e as preferências de centenas de milhões de pessoas em tempo real para todos os cantos do planeta, um público silencioso se mantém fiel a uma forma de comunicação que antecede até mesmo a impressão da primeira Bíblia, por GutenbergEm parte movido por ele, apenas em Minas Gerais os Correios processam em média 1,3 bilhão de correspondências por anoAinda que em número cada vez menor – não há estudo detalhado sobre cartas manuscritas –, as missivas pessoais sobrevivem à era do e-mail, das redes sociais e dos smartphones.
Entre os amigos mais velhos de tempos em que a telefonia fixa era um sonho, entre familiares letrados ou entre colegas mais jovens, românticos, aficionados pela escrita à mão, não há melhor demonstração de apreço e consideraçãoPara a cadeirante Maria da Conceição, de 69 anos, da Casa do Ancião Celso Mello de Azevedo, a carta escrita é o melhor pedaço de quem a escreve“É o coração da outra pessoa, na ponta dos dedos, vindo dizer que não esqueceu você”Nas próximas linhas, o Estado de Minas faz uma viagem pelos traços desse amor manuscrito, cultivado por uma legião de apaixonados que, trocando mensagens, o mantém livre da extinção.
Do encontro das duas mulheres, a amizade em letras desenha envelopesDuas Marias, uma da Conceição, a outra Helena, unidas pelo traçado das canetasUma cuida do marido, com problemas de saúde; a outra está na Casa do Ancião, longe da famíliaAs correspondências sustentam a troca de palavras de conforto e esperança, para dar conta do lado triste das circunstânciasMaria da Conceição, de 69 anos, cadeirante, vive na Cidade Ozanam, no Bairro Ipiranga, desde 2010Mãe de três filhos, ela não esperava encontrar o asilo.
Escrever ajuda a lidar com a condição
Quando a outra Maria, a Helena, colega cozinheira de tempos passados, soube que Conceição estava na Casa do Ancião, ela escreveu a carta que renovou e fortaleceu a amizadeNas mãos da cadeirante, o texto de afeto da amiga, que traz no papel pautado a imagem de um regador em ação em um jardim florido: “Que Deus proteja você, a sua família e amigosVou indo bem e o Geraldo está melhorando”.
Do outro lado do envelope, o endereço da amiga remetente, no Bairro Riacho das Pedras, em ContagemLá, o EM encontrou Maria Helena Arcanjo, de 52, dona de sorriso largo e a da fala macia e fácil de quem lê e escreve com paixão, gosto e alegria“No Brasil, infelizmente, as pessoas não gostam muito de ler e escreverEu leio de tudo, sem preconceito: romances, livros espíritas, Machado de Assis… até autoajuda”, enumera.
A dona de casa faz questão de escrever para os familiares e amigos mais próximos ao menos duas vezes por ano – no aniversário e no Natal
Enquanto o aniversário não vem, na Cidade Ozanam, Maria da Conceição guarda a última carta escrita pela amiga como todo o tesouro que ela tem, e que cabe numa caixa de sapato“Tenho outras 15 cartas”, conta“Quando recebo uma, tenho muito prazerÉ um sentimento de carinho de duas mãos da pessoa ter dedicado um tempo dela para me escrever uma cartaVocê poderia dar o meu endereço para as pessoas escreverem para mim?”
Claro, dona Maria: Maria da ConceiçãoCasa do Ancião Celso Mello de AzevedoRua Dom Barreto, 641Bairro IpirangaCEP 31.160-210.
Com as palavras o senhor, carteiro
“O maior volume de cartas manuscritas vem do interior, das regiões mais pobres e das penitenciárias”, conta Emerson Barbosa, de 44Depois de tempos como metalúrgico e de 24 anos como auxiliar de expedição em distribuidora de remédios, é como carteiro que o belo-horizontino tem ganhado o pãoSão 16 quilos nos ombros e média de 10 quilômetros por dia nas andanças de segunda a sexta-feira
Em muitas das correspondências vindas de presídios, um recado se destaca no topo do envelope: “Srcarteiro, por favor, entregue esta carta para a minha mãe”Respeito dos condenados por aquele que encurta distâncias“É muito comum ter um recado para o carteiro no alto do envelopeNa carta para a mãe, para a mulher, para os filhos… Os presos costumam respeitar nosso trabalho”, diz Emerson.
Tem pouco mais de um ano na função – mas tempo suficiente para falar como veterano“De cada 10, a gente pode dizer que uma é manuscritaE tem muito telegrama também”, dizA bolsa azul surrada, no Bairro Nova Suíssa, na Região Oeste, leva o peso do que o homem dos Correios dizCom a pele exposta coberta de bloqueador solar, a bermuda de trabalho ajuda a lidar com o calorSó nas ruas, “com muito gosto pelo ofício”, são seis horas de endereço em endereço.
Romântico, Emerson revela que, embora goste muito de escrever à mão, no último ano, diminuiu o ritmo da escrita“Comecei a usar mais o e-mailAinda assim, sempre que posso, escrevo ao menos um cartão ou um bilheteÉ mais pessoal, não é?”, sorriDa última carta, ele diz se lembrar bem: um relatório de trabalho, na letra caprichada de quem leva a vida de diminuir distâncias.
Lutador de caneta em punho
Campeão brasileiro de boxe em 1960, Elson Martins, de 76, trocou as luvas e os ringues pelo papel e pela canetaDepois de vencer meio mundo no punho, o tetracampeão das Minas Gerais e professor aposentado de educação física decidiu combater por meio da escrita à mão tudo o que entende não ser certo“São reclamações e sugestõesQuando sinto que posso ajudar, contribuir de alguma forma para melhorar alguma coisa, escrevo à mãoNão gosto de nada mecanizadoGosto do que é direto, personalizado”, explica.
Entre páginas e páginas de papel letrado, há também um artigo intitulado “Saudades de um bom tempo”Nele, em xeque, a educação no trânsito“Ser bom cidadão é dar as mãos a cegosSou desse tempo”, sorriO professor de educação física tem muito a dizerRessalta que é “grande admirador de todas as coisas belas”“Bons modos, por exemplo”, dizCasado há 51 anos, pai de cinco filhos e avô de 14 netos, enche-se de alegria para falar do primeiro bisneto.
Elson vê na carta manuscrita uma maneira de não deixar “o que é mecânico vencer o que é pessoal”“Nem máquina de escrever eu quis terHoje, infelizmente, a comunicação entre as pessoas é muito eletrônicaMinha letra não é bonitaMas bonito tem que ser o conteúdo”, consideraO grande nome do boxe brasileiro nos anos 1960 reclama da falta de respeito e disciplina do passado, do tempo de mais cartas escritas à mão“Na minha época, o professor era uma autoridade”, diz, saudoso.
O papel da gestação byte
Eles têm 18 anos, dominam novas tecnologias, fazem uso das redes sociais, são cheios de amigos e seguidores virtuais e, ainda assim, não abrem mão de correspondências mais pessoaisLucas Arreguy Amado Correa Araújo, em Ituiutaba, no Triângulo, e Bernardo Tadeu Ferreira Valério, de BH, amigos de infância, trocam cartas manuscritas desde que se distanciaram, em 2010“Quando vim de mudança para Ituiutaba, sem acesso às redes sociais, disse por telefone aos meus amigos que escreveria para não perder o contatoO Bernardo foi quem mais correspondeu”, diz Lucas.
O estudante, apaixonado pela escrita, prepara-se para ser jornalista“Dizem que o papel vai acabarNão acreditoAlém do mais, o conteúdo de credibilidade vai sempre precisar de um profissional especializado”, consideraLucas conta que desde criança gosta de escrever à mãoAvalia que a internet expõe muito as pessoas e revela não achar a menor graça em ferramentas como o Instagram“A pessoa tira uma foto do prato que vai comer e coloca na internet…”
A 685 quilômetros, Bernardo, estudante de engenharia química, elogia a atitude do amigo“Até escrevo poucoO Lucas escreve maisEle gosta mesmo de escreverA gente não tinha rede social quando começamos com as cartas, e interurbano era muito caro”, diz.
Embora não abandone o papel, Lucas, do Triângulo, vem aproveitando as redes sociais para fazer o que mais gosta: escrever e manter-se próximo dos amigos“Criamos um grupoSomos sete: Bárbara, Carol, Mariana, Guilherme, Hugo, Bernardo e euNo grupo do Facebook, trocamos informações sobre leituraA Bárbara tem até postado os capítulos do livro que ela está escrevendo”, contaPara o futuro jornalista, a tecnologia só distancia as pessoas quando não é bem usada.
A mãe de Lucas, Myriam Arreguy Araújo, de 54, também faz uso regular dos CorreiosA funcionária pública aposentada é exemplo de amizade e carinho com as letrasLonge do filho Fábio Arreguy Amado, de 26, em Belo Horizonte, Myriam sempre que pode mata um pouco da saudade na ponta dos dedos“O papel carrega mais sentimento… tem mais de você nas letras e no papelRecebo menos cartas do que envio… Às vezes escrevo uma carta e a pessoa me liga…”, sorri, conformada.
Na capital, Fábio, o filho de Myriam, revela ter muito carinho pelas cartas que recebe“Vem carregada de sentimentosÉ uma emoção indescritívelSinto-me mais querido e a linguagem das cartas me agrada muito”, comentaEle diz ter mais inspiração na escrita à mão e na máquina de escrever – tanto que, em casa, tem duasCom alguns capítulos escritos, espera em breve poder publicar o romance ainda guardado na gaveta.
Enquanto isso..menos cartas, mais telegramas
Estima-se que no mundo a redução do envio de cartas manuscritas na última década seja de 8%No Brasil, os Correios não têm dados sobre cartas manuscritasMas a empresa registra grandes crescimentos em outros nichosDo tráfego de encomendas do e-commerce, a ECT transporta cerca de 40% de tudo que é vendido pela internet no BrasilOutro segmento em que os Correios registram crescimento significativo é o de telegramas e cartas via internetÉ possível hoje redigir uma carta diretamente no site dos Correios, que se encarregam de imprimi-la em uma agência próxima ao destinatário e fazer a entrega, mais rápida e com menos custos logísticosO V-Post, que permite que processos sejam digitalizados, transportados e entregues pelos Correios, é outro serviço que já vem sendo usado pelos tribunais em todo o país