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Estado de Minas

Congonhas elabora a primeira carta arqueológica de Minas para proteger bens culturais


postado em 09/11/2013 06:00 / atualizado em 09/11/2013 07:05

Localização de galerias dos séculos 18 e 19 abre portas para pesquisas e proteção dos territórios(foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Localização de galerias dos séculos 18 e 19 abre portas para pesquisas e proteção dos territórios (foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Congonhas – Túneis do tempo da mineração do ouro, canais para lavagem do metal, fortificações e mundéus ao pé das serras, construídos com pedra sobre pedra. A descoberta de cerca de 20 galerias subterrâneas e vestígios importantes dos séculos 18 e 19 mostra outro lado da riqueza cultural da Cidade dos Profetas e abre as portas da história para pesquisas, busca de conhecimento e, principalmente, proteção do território.

De tão preciosos, sítios encontrados por moradores conduziram à elaboração da Carta Arqueológica de Congonhas, primeira de Minas e uma das únicas do país, com previsão de ser concluída em seis meses. Fruto de uma medida condicionante no processo ambiental de uma mineradora que atua na região, firmada com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o documento vai nortear as atividades no município para impedir danos ao patrimônio.

“Estamos vivendo um momento auspicioso. A carta, que também é o mapeamento da região com os sítios arqueológicos, vai permitir não só o direcionamento dos empreendimentos como a valorização cultural, com a possibilidade de atrair mais turismo para Congonhas”, diz o promotor de Justiça da comarca, Vinícius Alcântara Galvão. Para ele, é imprescindível que os órgãos de licenciamento saibam onde estão os tesouros subterrâneos para evitar destruição, como ocorreu no ano passado, no distrito de Alto Maranhão, quando uma estrada foi interditada pela prefeitura local ao soterrar uma galeria histórica. “A iniciativa não é para impedir obras, mas para valorizar os bens de Congonhas, que são riquíssimos”, afirmou Vinícius.

O promotor de Justiça lembrou que já existe um loteamento seguindo as normas, o qual até agregou valor ao empreendimento por citar a proteção de um sítio arqueológico no material publicitário, e outro embargado, por destruir vestígios da época da mineração do ouro. Também atuando nessa questão, o coordenador das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC), Marcos Paulo de Souza Miranda, percorreu várias vezes a região visitando galerias e mundéus. E, na sequência, foi a fundo em livros e verificou que, numa lista secreta dos homens mais abastados da capitania de Minas Gerais, elaborada pelo governo de Portugal em 1746, “10 eram mineradores de Congonhas do Campo (nome antigo da cidade).”

TESOURO Tendo como guia o presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Maurício Geraldo Vieira, o Estado de Minas conheceu de perto alguns dos tesouros arqueológicos de Congonhas, começando pelo Bairro Tijucal, de onde se avistam, do alto, o Santuário Basílica do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o fundo da Matriz de Nossa Senhora da Conceição e o prédio da Romaria. “Hoje sabemos de onde saiu o ouro que moveu a economia de nossa cidade nos tempos coloniais e construiu monumentos como os 12 profetas esculpidos por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738–1814), cujo bicentenário de morte será lembrado a partir do dia 18”, diz Maurício.

Os mundéus eram grandes tanques que estocavam ouro e água que desciam das montanhas(foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Os mundéus eram grandes tanques que estocavam ouro e água que desciam das montanhas (foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)


Os muros para coletar pepitas


Com uma pequena lanterna, Maurício entrou numa galeria com mais de 20 metros de comprimento e 1,70m de altura. O lugar estava sujo, tem restos de lixo e, por ficar escondido da maioria da população, foi usado por usuários de drogas. Diante do complexo minerário – grande parte das lavras pertenceu ao coronel Romualdo Monteiro de Barros, o barão de Paraopeba, e seus irmãos, o diretor de Patrimônio da prefeitura de Congonhas, o escultor e pesquisador Luciomar Sebastião de Jesus, que também acompanhou os repórteres nesse misto de aventura e preservação da memória, conta, com orgulho, que “Congonhas se equipara, em importância na exploração mineral, a Ouro Preto, Mariana, Diamantina e Sabará”.

Perto de mais uma galeria, à qual se chega depois de atravessar uma cerca de arame farpado, Maurício explica que a extração de ouro, no passado, se dava no alto das encostas, no sistema denominado grupiara. Depois do Bairro Tijucal, o grupo seguiu em direção às Minas do Veeiro – a palavra vem de veios de ouro –, também um prato cheio de preciosidades para a equipe de arqueólogos da empresa Artefactto Consultoria responsável pela elaboração da Carta Arqueológica.

No caminho, a seis quilômetros do Centro, causam surpresa e admiração quatro mundéus, áreas de aproximadamente 300 metros quadrados cada uma, cercadas de muros de pedra. Mesmo tomadas pelo mato, as estruturas estão em bom estado. “Muita gente conhecia esses vestígios, mas só agora encontramos todo esse conjunto. O mapeamento será de suma importância para direcionar o parcelamento urbano”, afirma Maurício. Os mundéus eram depósitos ou tanques localizados ao pé das serras, em pontos estratégicos, que recolhiam a água de chuva que descia das encostas. Quando o barro assentava, as pepitas ficavam por cima, sendo recolhidas e levadas para a casa de fundição.

QUEBRA-CABEÇA

O coordenador do CPPC, Marcos Paulo de Souza Miranda, mostra uma foto de uma área rural de Congonhas e explica que, ao contrário do que se pensava, o solo, que parece conter erosões, traz vestígios da mineração nos séculos 18 e 19. Segundo o promotor de Justiça, há entendimentos do MPMG com uma mineradora para tornar a região das Minas do Veeiro uma reserva particular do patrimônio natural (RPPN), unidade de conservação, bem como levantamento de outras áreas para transformação em parque arqueológico. “Com esses achados, montamos um quebra-cabeças sobre o potencial de Congonhas”, avaliou Marcos Paulo.

"Só agora encontramos todo esse conjunto. O mapeamento será de suma importância para direcionar o parcelamento urbano", Maurício Geraldo Vieira, presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (foto: Fotos: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)


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