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Estado de Minas MEMÓRIA REVITALIZADA

Prédio do Centro Cultural da UFMG passa por reforma

Obra no edifício que já abrigou batalhão da polícia e Escola de Engenharia deverá estar concluída em abril de 2014


postado em 26/10/2013 06:00 / atualizado em 26/10/2013 07:16

 

Convidados pelo Centro Cultural, artistas se uniram para pintar tapumes (detalhe abaixo) da obra de restauração, amenizando a paisagem em torno do imóvel(foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)
Convidados pelo Centro Cultural, artistas se uniram para pintar tapumes (detalhe abaixo) da obra de restauração, amenizando a paisagem em torno do imóvel (foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)

 

Os tapumes e as redes de proteção que escondem parte da fachada do sobrado em estilo eclético na esquina da Avenida Santos Dumont com a Rua da Bahia, em frente à Praça Rui Barbosa, deixam claro que o imóvel passa por uma ampla reforma. E merecida, diga-se de passagem. Afinal, poucos imóveis em Belo Horizonte têm uma história tão rica quanto aquele. Levantado em 1906, o prédio de dois andares “serviu” à segurança pública, à economia, à educação e à cultura mineira. Melhor explicando: o casarão já foi ocupado pelo 2º Batalhão de Brigada Policial, pela Junta Comercial do Estado e pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, abriga o centro cultural da mesma instituição.

A revitalização deve terminar em abril de 2014. “A reforma envolve a fachada, o teto, o piso, paredes internas, redes hidráulica e elétrica… As salas de exposição receberão nova iluminação e será instalado um circuito interno de vídeo”, adianta Fabrício Fabreza, um dos responsáveis pela manutenção do lugar. Diante da escultura Música celestial, do peruano Gedión Fernández, ele faz questão de dizer o quanto “é gratificante trabalhar num ambiente cultural”. Mas o início da história do prédio está ligada à economia. Em 1906, nove anos depois da fundação de BH, o português Antônio Maria Antunes decidiu transferir seu hotel de Ouro Preto para a nova capital.

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(foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)
(foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)
ara isso, ele começou a erguer o sobrado na esquina da Santos Dumont com a Bahia. Vale lembrar que aquela esquina era considerada um dos endereços comerciais mais nobres da cidade recém-inaugurada, pois ficava em frente à estação ferroviária. Também é importante recordar que muitos empresários da época já haviam adotado a estratégia de migrar seus negócios da antiga para a nova capital, entre eles João Salles, da Casa Salles, especializada em armas e artigos para pescaria – a empresa foi inaugurada na cidade histórica, em 1881, e a mudança para o Centro de BH ocorreu na década seguinte.

 

 A Casa Salles não demorou a virar referência na cidade. Por sua vez, o hotel planejado pelo europeu não teve o mesmo sucesso. Nem sequer foi inaugurado: o português vendeu o imóvel ao governo do estado antes da conclusão da obra.  O sobrado foi inaugurado como sede do quartel do 2º Batalhão de Brigada Policial. A corporação permaneceu poucos anos no local, que também foi ocupado pela Junta Comercial. Em 1911 foi a vez de o sobrado acolher a Escola de Engenharia. Desde abril de 1989, lá funciona o Centro Cultural da UFMG.

“O prédio é testemunha de nossa história. É um dos mais antigos imóveis no entorno da Praça da Estação”, diz Alice de Mello, guia de turismo do centro cultural. Ela conta que só este ano mais de 5,5 mil pessoas visitaram o local – os passeios podem ser agendados pelo telefone (31) 3409-8290. O público se encanta com as características arquitetônicas do imóvel, como as colunas e os umbrais das imensas portas e janelas, que imitam o padrão europeu, e com a quantidade de madeira no piso, no teto e nos corrimãos.

Mas a maioria do público vai ao lugar atrás das atrações culturais. Toda quarta-feira, por exemplo, é noite do Música & poesia, projeto em parceria com as faculdades de letras, música e teatro da universidade federal. Às 20h30, há canções, contação de histórias, recitais, performances, peças teatrais ou outras atividades. Às terças e quintas, a atração é o Cinecentro, programa que exibe, às 19h, filmes de ficção, documentários, curtas e animação. A entrada é franca e as mostras levam em conta, principalmente, pesquisas de instituições de ensino.

ESPAÇOS CÊNICOS

O sobrado conta com três espaços cênicos: um auditório, um pátio e um hall. Ainda há três salas equipadas para aulas teóricas e três para cursos práticos. Também há áreas para exposições – duas galerias no segundo pavimento e uma no primeiro. Uma das salas mais visitadas nos últimos meses é a do Ateliê aberto, montada pelo grupo Galpão. Nela, uma equipe especializada promove ações educativas e pesquisas. Quem passa por lá aprende sobre processos de conservação do patrimônio artístico, aspectos de museologia e, claro, do trabalho do grupo mineiro cuja fama chegou a outros países.

 

Funcionários e estagiários são responsáveis pela preservação do acervo(foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)
Funcionários e estagiários são responsáveis pela preservação do acervo (foto: Ângelo Pettinati/Esp. EM)
Esta é a segunda edição do projeto do Galpão no centro cultural. Na primeira, o programa foi agraciado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) com o Prêmio Pontos de Memória do Ibram, que contemplou os figurinos de três espetáculos: A rua da amargura (de 1994 e direção de Gabriel Villela), Partido (de 1999 e direção de Cacá Carvalho) e O inspetor geral (de 2003 e direção de Paulo José).

A estudante de design Marília Burza e a de conservação e restauro Sarah Bernardo estagiam no local. Elas ajudam a preservar a memória da cultura mineira com o apoio de Carlos Caetano, estudante de teatro. “Fazemos a documentação dos figurinos”, conta Sarah. Em duas salas vizinhas, funciona o Museu vivo da memória gráfica. Trata-se de espaço para o desenvolvimento de práticas e tradições do universo das artes do livro: tipografia, caligrafia, gravura, edição, ilustração, design e encadernação.

Para suavizar os efeitos dos tapumes em frente à fachada, estagiários e funcionários do Centro Cultural tiveram a ideia de convidar artistas para colorir as madeiras que escondem parte da frente do imóvel. Em maio, ocorreu a chamada transfiguração, assinada pelos artistas André Cidadão Comum, Benet Castro, Emanuel Mosh, Guilherme Bita, Marcio Surto, Maria Raquel Bolinho e Rafael Small.


LINHA DO TEMPO
1906: Início da construção do sobrado que abrigaria um hotel. Foi inaugurado no mesmo ano como sede da Brigada Policial
1911: O quartel é transferido para Juiz de Fora e o imóvel passa a abrigar a Escola de Engenharia
1926: O prédio é incorporado à Universidade de Minas Gerais, atual UFMG
1988: O sobrado é tombado pelo Iepha-MG
1989: Inaugurado o Centro Cultural UFMG
1994: O lugar é tombado pela Fundação Municipal de Belo Horizonte
2013: Início da reforma do casarão
2014: Previsão de conclusão das obras

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