Jornal Estado de Minas

Corredores sem lei

Motociclistas tornam regra o tráfego entre faixas e o abuso da buzina, práticas proibidas

Com impunidade, são cada vez mais comuns atos agressivos, como a quebra de retrovisores

Juliana Ferreira Valquiria Lopes
- Foto: Leandro Couri/EM/DA Press


Os corredores entre as faixas de tráfego dominados por motos não são mais realidade exclusiva das capitais de São Paulo e Rio de JaneiroApesar de explicitamente proibida em lei, a prática de usar a buzina para abrir caminho entre os carros se banalizou em Belo Horizonte e, no rastro das vistas grossas das autoridades, tornam-se cada vez mais comuns práticas agressivas, como chutar retrovisores e bater capacetes nas portas de carrosO crescimento das filas de motociclistas entre automóveis está assustando quem trafega pela capital, reflexo da falta de educação, de fiscalização e do aumento de 276% da frota de motos entre 2001 e 2013 em BHNo mesmo período, o número de carros subiu bem menos: 110%Atualmente, 207,9 mil motos circulam por ruas e avenidas, representando 13% do total de veículos da cidade


Pilotar entre as faixas é proibido pelo Código Brasileiro de Trânsito (CTB) e constitui infração prevista nos artigos 193 e 192O primeiro estipula multa de R$ 574,62 para motociclistas que transitem na divisa das pista de rolamento e acostamentosA conduta é considerada infração gravíssima e representa sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH)O outro artigo fala sobre a necessidade de manter distância de segurança lateral e frontal entre os veículos, assim como em relação à borda da pista, o que é desrespeitado pelos motociclistas que se aventuram em zigue-zague entre os demais automóveisO ato é infração grave, com multa de R$ 127,69 e custa cinco pontos na carteiraBuzinar indiscriminadamente para pedir passagem também é passível de punição, de acordo com o artigo 227 do CTB

A prática é infração leve, representa três pontos no protuário e multa de R$ 53,20.

Apesar da proibição, nenhuma multa foi aplicada em Belo Horizonte por tráfego no corredor, segundo admite a Polícia MilitarA impunidade dá aos pilotos liberdade para institucionalizar a passagem entre os carrosÉ o que garantem motociclistas como Demósthenes Silva, de 57 anosEle conta que em BH está se popularizando a cultura do corredor livre, como já ocorre em São PauloAlguns motoristas, no entanto, fecham o caminho, o que resulta em ações agressivas de  pilotosPara quem anda sobre duas rodas, o discurso é de que o espaço entre as faixas já é das motos, e que o desrespeito parte de quem está nos carros, embora a lei diga o contrário“Percebemos que em São Paulo o respeito (ao corredor livre) é maiorMas lá essas atitudes também foram necessárias para impor a liberação desse espaço”, argumenta o piloto.

‘INTERPRETAÇÃO’
O tenente coronel Alberto Luiz, chefe da Comunicação Social da PM, diz que analisar e punir a prática é tarefa difícil, uma vez que o legislador não fez a previsão desse tipo de corredor no Código de Trânsito“Levamos em consideração que a moto existe para dar mais mobilidadeSe aplicarmos a punição contra quem conduz moto sobre a faixa entre as pistas, para passar ou ultrapassar, vamos quebrar o princípio da mobilidade”, argumenta
Outro problema, segundo ele, é a dificuldade em constatar essa infração sendo cometida por motos, diferentemente dos carros, que são mais visíveisEle afirma, no entanto, que a polícia tem ações de fiscalização e pune motociclistas que estejam transitando em zigue-zague, o que configura direção perigosaSobre a buzina sem necessidade, há ações para coibir a prática, mas o oficial garante ser mais difícil constatar a infraçãoO tenente-coronel não descarta fiscalizações como estratégia para disciplinar o uso das vias por motos.

O chefe da Coordenação de Operações Policiais (COP) da Polícia Civil, Ramon Sandoli, admite a incapacidade oficial para controlar o tráfego de motos nos corredores“Só se fizermos uma parede entre cada faixa para que as motos não transitem por aliNão tem como fiscalizar, porque o universo de pessoas que desrespeitam a lei é muito grandeSó se eu colocar 50 fiscais a cada esquina”, alegaSegundo ele, as ações dos motociclistas são uma questão de educação

Mas, para especialistas, o problema é da falta de fiscalizaçãoO engenheiro civil e mestre em transportes Silvestre de Andrade Puty Filho defende o uso de radares que já são capazes de flagrar quem anda de moto passando pelos corredores“Para um adulto que tirou carteira e passou por escola de trânsito, o que inibe é a fiscalizaçãoEducação é para meninoO problema do Brasil é que se acha normal desrespeitar as leis e o descumprimento passa a ser norma”, criticaQuem está no dia a dia do trânsito reclama da ação de pilotos e diz ser vítima do perigo“BH está como São PauloVirou coisa sériaEles emparelham com os carros e buzinamNão respeitam nada”, diz o aposentado Carlos Roberto Freitas, de 71

 

- Foto: Arte/Soraia Piva