Jornal Estado de Minas

BH tem média de 20 acidentados com moto a cada dia

Número de vítimas de acidentes de moto atendidas na rede Fhemig denuncia riscos da escalada de desrespeito nas ruas. Desde 2012 foram 153 mortes no Hospital João XXIII

Juliana Ferreira Valquiria Lopes
Acidente com motociclista indica que trafegar pelo corredor, mais que despertar críticas de motoristas e pedestres, representa perigo para os próprios condutores de moto - Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press



Os atendimentos a pessoas envolvidas em acidentes com moto em Belo Horizonte dão a dimensão do risco do desrespeito às leis de trânsitoDados da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) mostram que de janeiro a setembro deste ano 5.402 vítimas de acidente com motocicletas deram entrada em unidades da redeA média é de 20 pacientes por dia, uma estatística que se mantém desde 2012, quando o número foi de 5.430 no períodoSomente no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, 68 pessoas morreram em decorrência de acidentes com moto neste anoNo ano passado foram 85 óbitos

Entre as vítimas, a predominância é de homens de 20 a 39 anosUm deles foi o vendedor Mateus Vargas, de 23, que teve uma perna amputada ao ser atingido por um carro quando andava de moto, em 2012Hoje ele reconhece os perigos de andar sobre duas rodas, mas admite que já foi muito imprudente e nervoso ao pilotar“Quando estava estressado, chutava retrovisores dos carros quando levava uma fechada de motoristas no corredorNunca quebrei nenhum, mas já houve casos de a peça quase cair”, lembraMateus conta também que, mesmo buzinando muito para pedir passagem, sempre era surpreendido por pedestres atravessando no corredor, fora da faixa, e por pessoas que abriam as portas de carros no momento em que ele passava
“Já passei por muitos sustos e riscos”, diz

Da escolha de transitar entre os carros, no entanto, ele não abria mão“Eu não tinha medo de corredorPassava entre carretas em rodovias e até com os carros em movimento, mas quando percebia que a via era seguraAgora, depois do acidente, vejo que há muita imprudência de todos no trânsitoMas considero impossível proibir o tráfego de motos nos corredores”, diz o rapaz, que, com uma prótese na perna esquerda, já planeja comprar outra moto“Agora vou ser mais cuidadoso e não vou mais correr o risco de andar entre os veículos.”

Quem está ao volante também percebe o estresse dos motociclistasA motorista Camila Cristina, de 24, já foi vítima da impaciência deles e conta que uma vez, quando não deu passagem no corredor, o piloto chutou o retrovisor do seu carro“Parece que eles estão mais nervososPerderam totalmente o respeito por quem está dirigindo”, afirma


A dona de casa Maria José Soares, de 76, reclama do desrespeito de motociclistas com pedestresSegundo ela, quando não há semáforo condutores de  carros tendem a parar para a travessia de pessoas, mas pilotos de  moto não costumam dar preferência“Jogam em cima da gente e não nos deixam passarMuitas vezes, cruzam entre os carros e só conseguimos vê-los quando já estamos atravessando”, diz a mulher, citando como exemplo de local arriscado a Avenida Abílio Machado, na Região Noroeste de BH

O presidente da Associação Brasileira de Motociclistas, Lucas Pimentel, defende a regulamentação da passagem dos motociclistas por um corredor entre as faixas localizadas à esquerda e destinadas a veículos que transitam mais rapidamenteSegundo ele, o ideal seria manter a atual divisão, mas com pintura diferenciada, para a demarcação de espaço entre essas duas filas de trânsito

Ele entende ainda que o tráfego entre as faixas mais à direita deve ser proibido e defende que, quando possível, sejam criadas faixas exclusivas“É melhor um motociclista andar mais próximo do corredor, porque assim ele tem um campo de visão maior e evita acidentes como batidas nas traseiras dos veículos”, afirmaO representante dos pilotos frisa, no entanto, que qualquer comportamento hostil no trânsito é inaceitávelO Sindicado dos Motociclistas e Ciclistas de Minas Gerais foi procurado para comentar o assunto, mas ninguém foi encontrado.

PROJETOS Belo Horizonte já teve projetos de lei para tentar melhorar a segurança para motociclistas no trânsitoUm deles, de autoria do vereador Paulinho Motorista, tentou emplacar faixas exclusivas para veículos de duas rodas, em 2010, mas não foi aprovado na Câmara MunicipalO mesmo ocorreu em 2006, quando a tentativa foi da ex-vereadora Neusinha SantosA ideia foi vetada pelo então prefeito Fernando Pimentel (PT).

Abusos no interior

A imprudência dos motociclistas é um problema sério também nas grandes cidades do interior e já se agrava em Montes Claros, no Norte de MinasSegundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota do município é de 173 mil veículos e mais de 40% são motosOs motociclistas não obedecem à sinalização e aos limites de velocidade e fecham cruzamentosSegundo o Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu), são em média 19 acidentes por dia na cidade, 90% com motos.

Tudo para evitar acidentes

 

Os órgãos de trânsito da capital paulista já tomaram providências para diminuir os riscos de acidentes com motociclistas Criaram, entre os carros e a faixa de pedestres, bolsões para que as motos fiquem separadas dos demais veículos e possam arrancar antes na abertura dos semáforosA medida, no entanto, não elimina o tráfego nos corredores, o que constitui infração, segundo o Código de Trânsito BrasileiroA Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo informa que não fiscaliza a conduta por falta de regulamentação do Departamento Nacional de Trânsito, mas que há monitoramento com radares para excesso de velocidade nos corredoresNa cidade há duas faixas preferenciais para motos: na Rua Vergueiro e na Avenida Liberdade, ambas no Centro.