Jornal Estado de Minas

Confraria semanal é duplamente punida por ocupação de calçada no Santa Tereza

Jorge Macedo - especial para o EM

Arnaldo Viana

Lincoln Duarte Tertuliano, fundador da confraria, mostra as notificações - Foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press.


A crônica de ontem do compositor e escritor Fernando Brant, contracapa do caderno EM Cultura deste jornal, reverencia os 25 anos da Constituição, resgate dos direitos civis usurpados pelo golpe militar de 1964Na noite de segunda-feira, provavelmente no momento em que o artista e cronista tecia o elegante e oportuno texto, a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Administração Regional Leste, dava uma facada numa das mais louváveis intenções de liberdade, igualdade e fraternidade, exatamente no coração do Bairro Santa Tereza, reduto de Brant e de seus companheiros do Clube da Esquina.

 A PBH, numa ação ríspida e inesperada de fiscais, multou a inocente Confraria São Gonçalo, a alegria da Rua Norita, formada por pessoas da chamada terceira idade, que se reúnem uma vez por semana em confraternização, para, ao som de flauta, violão e pandeiro, cantar velhas canções de seresta e, acima de tudo, conviver, investir na autoestima e espantar a solidão e os sintomas da depressãoMotivo da multa? Os confrades instalam cadeiras e pequenas mesas na lateral da calçada, sem atrapalhar a passagem de pedestres, mesmo porque a rua, de um só quarteirião não é movimentadaDuas multas aplicadas em um intervalo de apenas cinco minutos, por fiscais diferentes.

A canetada municipal cortou os corações de Lincoln, Déa, Arlene, Juca, Pedro, Nair, Luiz, José, Léo, Antônio, Eloísa, Milton, Gracinha, Elaine, Adonides, Lídia, Roberto e os demais assíduos frequentadores do encontro semanal diante da casa de número 9, a maioria moradora da própria Norita“Só pode ser intriga, inveja, porque ninguém nunca reclamou das nossas reuniõesPelo contrário, as pessoas participam”, diz Lincoln Tertuliano, dono do imóvelEle e a mulher, Déa, são a razão da existência da confraria, que recebeu o nome do santo padroeiro dos violeiros.

Quando se mudaram para o bairro, Lincoln e Déa, aposentados, montaram uma copiadora na garagem de casaO contato com os clientes amenizava a solidão do casalO negócio não foi adiante e logo depois ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC)Nos fins de tarde, eles se sentavam diante da casa, para, pelo menos, cumprimentar os passantes e ganhar um dedo de prosa de alguém menos apressado
Deu certoOs vizinhos foram se aproximando, se conhecendo e um deles sugeriu uma reunião semanal, com canções românticas, violões, comida e bebidas leves para mudar a rotina da ruaE nasceu a confrariaA sede é a garagem de Lincoln.

NÃO É BAR

Cartaz afixado a lado da porta da garagem, avisa: “Aqui não é bar, é confraria”Os confrades levam os tira-gostos, refrigerantes e cervejaEm cada reunião, um convidado especial, geralmente ligado à músicaNas paredes, fotos dos ilustres visitantes em poses com os confradesIsso não sensibilizou a PBHSegunda-feira, fiscais ficaram de tocaia esperando a turma chegarE às 19h30 um deles entregou a Lincoln a notificação e o auto de infração (R$ 596,23, mesas e cadeiras no passeio); às 19h35, o segundo agente passou ao dono da casa outros autos (R$ 834,32, mesas e cadeiras em via pública)

A Associação dos Amigos do Bairro Santa Tereza informa que vai conversar com o secretário regional.

“Os fiscais pediram alvaráComo não se trata de festa nem de comércio, respondi que nãoE entregaram as multas, que já vieram preenchidasNão as assinei, recolhi as cadeiras e continuamos o encontro na garagemAí, o fiscal disse que até para reunião dentro de casa é preciso alvará”, afirma Lincoln, ao lado dos olhos tristes de Déa

Para multar, a PBH se baseia no Código de Posturas“Não entendi, pois o que importa aqui é a igualdade, o desejo de ser feliz, sem bebedeira, sem algazarra”, diz Arlene, lembrando que a confraria não usa aparelhos de som e as reuniões não passam das 22hMas a Regional Leste alega que houve reclamação de moradoresQue pena, Fernando Brant: abaixo da Constituição há as leis municipais e suas interpretaçõesE há também quem não goste de ver gente feliz.