Jornal Estado de Minas

A apreensão SOBE. A segurança DESCE

Mais um acidente com elevador reacende preocupação com estado de equipamentos

Prefeitura aumenta a fiscalização e autuações disparam. Dados do sindicato das empresas de conservação indicam que pelo menos 30% dos aparelhos do Centro da capital operam precariamente, alguns com mecanismos de sete décadas de uso

Valquiria Lopes
Acidente que interditou um dos equipamentos do Edifício Maletta e feriu três pessoas deixou frequentadores do prédio preocupados - Foto: Leandro Couri/EM/D.A.Press


A queda de um dos elevadores do Edifício Arcângelo Maletta, no Centro de Belo Horizonte, expôs um problema conhecido para quem frequenta prédios antigos da cidade: o medo de usar os equipamentos, muitos deles com décadas de funcionamento e maquinário defasadoA sensação de insegurança, que chega a fazer funcionários e visitantes optarem pelas escadas, se traduz em númerosSomente nos quatro primeiros meses deste ano, o total de notificações e multas emitidas pela Prefeitura de BH a condomínios que têm elevador cresceu 400% em relação a todo o ano passadoEnquanto em 2012, 228 advertências foram emitidas, apenas de janeiro a abril deste ano 1.139 prédios foram notificadosDos 14 mil elevadores de BH, 50% estão em prédios da Região Centro-Sul.

Os salvamentos de vítimas presas nos equipamentos também registra altaNo ano passado foram 606 ocorrências, 34% mais que em 2011, quando 449 pessoas precisaram ser retiradas de elevadores pelos bombeirosEm BH, 2009 foi um dos anos mais críticos em relação à segurança dos usuários, com o registro de dois graves acidentesUm deles ocorreu em fevereiro, no prédio do Hotel Othon Palace, no Centro, e matou o garçom Wellington Marinho da Silva, que caiu no fosso do equipamento de serviçoO colega dele, Cláudio Damião Rodrigues, de 21, sobreviveu à quedaNo mês seguinte, 11 pessoas ficaram feridas quando um elevador despencou do 12º andar do Edifício Joaquim de Paula, na Praça Sete.

Em um dos episódios mais graves na cidade, queda de elevador feriu mais de 10 pessoas em 2009 - Foto: Leandro Couri/EM/D.A.Press O medo que assombra passageiros a cada solavanco do aparelho tem seu maior peso na idadeDe acordo com o diretor comercial do Sindicato das Empresas Conservadoras e de Manutenção em Elevadores de Minas Gerais, Adriano Acácio dos Santos, os condomínios, especialmente os antigos, alegam não ter dinheiro para a modernização

“Muitos são tombados pelo patrimônio e precisam investir alto para adequar os equipamentosMas, de forma geral, a maior parte não tem recursos”, afirma o diretor, que estima em 30% o índice de aparelhos que operam de forma precária na região Central“Pelas regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas, os elevadores devem ser atualizados a cada 10 ou 15 anos, mas há maquinário funcionando com comandos ultrapassados, alguns com mais de 70 anos”, garante

A equipe do Estado de Minas visitou cinco prédios da Região Centro-Sul para conhecer a situação dos elevadores em prédios de intenso movimento, construídos na metade do século passado: um na Rua dos Timbiras; um na Avenida Bias Fortes e dois na Avenida Afonso PenaO EM também voltou no Arcângelo Maletta, cenário do acidente anteontemNo local, a queda do equipamento do quarto andar até o térreo, que feriu três pessoas, era o assunto do diaUm dos funcionários admitiu a precariedade das máquinas e disse que elas estragam com frequência“São como uma geladeira velha, de 50 anos ou mais, que você tem em casaEla não vai funcionar bem, não é? E não é por falta de manutençãoÉ porque são velhos mesmo”, disse, sem se identificar
Ele acrescentou que a maior parte das pessoas que usaram o transporte ontem disseram estar com medo

Um deles, um vendedor de 56 que pediu para ter a identidade preservada, disse que a apreensão que já tinha se tornou ainda maior“Depois que soube do acidente, desci mais de 10 andares de escadaQuando cheguei hoje (ontem), subi tudo de novoNão sei quando vou voltar a andar de elevador”, relataO advogado Lázaro Ávila Rodrigues, de 57, atribui o problema à falta de melhorias e de manutenção“Não acredito em acasosHá cerca de três anos, dois elevadores despencaram do terceiro andar”, dizNo bloco em que três há aparelhos, apenas um estava funcionando ontemAlém daquele que caiu, outro está em manutenção

O medo também ronda os frequentadores de um edifício famoso pela concentração de lojas de vestidos de noivas, na Afonso PenaO temor é reconhecido até pelo síndico, que se negou a dar informações à reportagemTrabalhando no local há três anos, a vendedora Rose Campos Nunes, de 37, diz que os aparelhos passaram por recentes melhorias e, de modo geral, não têm tido problemas

Nas imediações do Elevado Castelo Branco, moradores e funcionários de um dos prédios antigos da região, que pediram para não serem identificados, contaram que, dos três aparelhos, apenas um funciona adequadamenteO projeto, diz o condomínio, está prestes a ser executado.

Em um dos edifícios mais conhecidos no Centro, na Avenida Afonso Pena, a insegurança se repeteDos seis equipamentos do prédio, de 1943, e que tem intensa movimentação comercial, um estava em manutenção ontemSegundo uma usuária que prefere o anonimato, é comum que dois elevadores fiquem parados para reparos

Já no Edifício JK, que tem o projeto de Oscar Niemeyer, o gerente do condomínio, Manoel Freitas, garante que a manutenção é diária, mas assume que problemas são constantesNo prédio de 23 andares e 1.067 apartamentos, há 17 elevadores“As máquinas que temos são as melhores e, recentemente trocamos uma gaiola e o quadro de comandosNão dá para trocar tudo de uma vez, porque são equipamentos caros”, afirma, lembrando que andar de elevador no JK é seguro

LINHA-DURA O aumento das notificações por irregularidades em elevadores em BH ocorreu após a criação do plano de ação fiscal específico para aparelhos de transporte, implantado neste ano pela prefeituraDe acordo com a Secretaria Municipal Adjunta de Fiscalização, os problemas constatados sujeitam as empresas responsáveis ou proprietários dos aparelhos à notificação, multa (de R$ 214,64 a R$ 10.732,10) e até interdição do aparelhoAlém do trabalho rotineiro, a fiscalização também é motivada por denúncias pelo telefone 156 ou pela internet (portaldeservicos.pbh.gov.br).

 

 

Escalada de problemas

Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, fiscalização sobre equipamentos já é 290% maior que em todo o ano passado, mas o índice de infrações é altíssimoConfira os números do setor

14 mil

elevadores estão espalhados por Belo Horizonte

50%

dos equipamentos, aproximadamente, estão em prédios da Regional Centro-Sul

435

vistorias em edificações com equipamentos de transporte vertical foram feitas em 2012 e resultaram na emissão de 228 notificações e multas por constatação de irregularidades

1.699

vistorias em elevadores foram registradas apenas entre janeiro e abril deste ano

67%

do total de fiscalizações de 2013, ou 1.139, resultaram em notificações

606

pessoas foram resgatadas de elevadores em 2012, seja por acidente ou travamento das portas

449


salvamentos de vítimas presas em elevadores foram feitas pelo Corpo de Bombeiros em 2011


Fonte: Prefeitura de Belo Horizonte e Corpo de Bombeiros