Enviado especial
Manhuaçu e Viana (ES) – De um lado, há pontos de ônibus movimentados e os acessos aos bairros Pouso Alegre e Alfa SulDo outro lado, as ruas que levam ao Centro, lanchonetes, uma parada de carretas, um centro comercial, revenda de peças e armazém de implementos e maquinário agrícolaÉ em meio a esse movimento intenso que a BR-262 cruza Manhuaçu, no Leste do estado, e se tornou praticamente uma avenida com cinco quilômetros de extensão, no trecho em Minas Gerais da estrada que mais registra acidentes, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF)
Basta passar alguns minutos por lá para ver os motivos: motociclistas trafegam pela contramão para fazer retorno, carretas ficam atravessadas na via, pedestres passam correndo e se arriscam em áreas sem faixa de pedestre ou semáforosOs cinco trechos da rodovia, em Minas e no Espírito Santo, onde núcleos urbanos cresceram em volta enfrentam uma rotina de acidentes e mortes, problemas que um projeto de duplicação e modernização poderia resolver se alguma empresa tivesse se interessado pelo leilão de privatização da estrada.
Em Manhuaçu, nem uma sequência de 14 quebra-molas e o monitoramento por quatro radares eletrônicos consegue impedir acidentesEnquanto a reportagem percorria a estrada, um motociclista tentou ultrapassar uma caminhonete que saía da rodovia para entrar num dos bairros, não conseguiu parar a tempo e bateu no veículoEle teve ferimentos nas pernas e foi socorrido por bombeiros“Aqui é muito perigosoTem gente trafegando ainda em ritmo de viagem e por isso não tem a tranquilidade de desacelerar no tráfego da cidade”, alerta o empresário Luiz Fernando Aquino, de 24 anos, que dirigia a caminhonete
O empresário estava abalado com o acidente“A gente sabe que aqui é perigoso e toma os cuidados
Em 2011, quando o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) divulgou a última pesquisa de acidentes por trecho, os kms 29, 33 e 34 da estrada, exatamente em Manhuaçu, sete pessoas morreram e 57 ficaram feridasEm 2012, houve 262 acidentes com 140 mortes em toda a rodovia, incluindo o trecho até o TriânguloNo trecho específico, a PRF de Minas não soube informar o número de acidentes e alegou que estava com o seu sistema fora do ar durante a semanaJá a PRF do Espírito Santo informou que ocorreram 6.049 acidentes e 129 mortes entre 2011 e 2013 no trecho capixaba da rodovia.
Os acidentes são rotineiros, segundo o técnico agrícola Osseny Pinel, de 31 anos, que trabalha numa loja de equipamentos agropecuários“Não passa um dia sem uma batida ou atropelamento aqui”, afirmaO mais grave que ele presenciou não continua na memória
Do passeio da 262, o estudante Leonardo Reis Carvalho, de 15 anos, tenta conseguir uma carona para casa, em RedutoComo estuda na vizinha Manhuaçu e não tem outro meio de transporte, ele precisa se sujeitar a essa rotina“Assusta estar do lado de uma pessoa, vê-la atravessando a rodovia e ser atropeladaAs pessoas esquecem que a BR é movimentada e entram nela como se tivessem passando pela rua de casa”, afirma.
Radares e
quebra-molas
No lado do Espírito Santo, pelo menos, em vez de radares e quebra-molas, foram instalados semáforos nos cruzamentos em passagens na área urbana de Venda Nova do Imigrante, Ibatiba e VianaIsso organiza melhor o trânsito e ajudou a reduzir os acidentes, de acordo com moradores.
Os trevos que levam a outras rodovias também são problemáticos, já que os veículos na 262 acabam tendo de ceder passagem, o que gera longas filas, especialmente em épocas de recesso, quando o movimento é intenso, sobretudo de mineiros em férias no litoral
Em Realeza, cidade que antecede Manhuaçu, no caminho para Vitória, o tráfego no trevo com a BR-116 quase para quando carretas maiores precisam circundar as rotatóriasEm Viana, já quase no fim da estrada, a interseção com a BR-101 tem placa de parada obrigatória para quem chega pela 262, o que na prática faz com que os veículos que vão de Minas para o Espírito Santo tenham de esperar que todos os carros passem ou aguardar a gentileza de outros condutores para permitir passagemEsses conflitos nos entroncamentos poderiam ser sanados com a construção de trincheiras ou de viadutos, num projeto de ampliação.
Segundo o Dnit, mesmo sem a concessão, a rodovia tem dois contratos vigentesUm deles, de manutenção e conservação, prevê R$ 11,7 milhões em recursos gastos em dois anos e começou a vigorar em janeiro deste anoO outro, iniciado em junho, destina R$ 17 milhões para a correção de pontos críticos(Colaborou Pedro Rocha Franco)
Queda de braço
Como parte do Programa de Investimento Logístico do governo federal, o trecho de 436,6 quilômetros da BR-262 entre João Monvelade e as praias capixabas deveria ter sido leiloado na quarta-feiraEra a promessa de boas condições de rodagem ao custo do pagamento de tarifasNo entanto, nenhuma empresa se interessou pela duplicaçãoO ministro dos Transportes, César Borges, responsabilizou a bancada de deputados capixabas pelo fracasso da licitaçãoEles teriam ameaçado entrar na Justiça contra a cobrança de pedágio nas duas praças do estado vizinhoIsso porque a obra do lado de lá da divisa seria feita com recursos da União por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os capixabas não veem razão para pagar tarifa pela duplicaçãoAs concessionárias alegaram que o desinteresse foi devido ao baixo retorno do investimento e às dificuldades geográficas do projetoMas parlamentares capixabas chegaram a cogitar que as empresas teriam se articulado para o leilão ficar sem propostas a fim de forçar sua reelaboração, aumentando assim a taxa de retorno.