Jornal Estado de Minas

Atraso na duplicação da BR-262 revela burocracia de alto risco

Novo atraso na obra de duplicação e irresponsabilidade de motoristas deixam rodovia federal cada vez mais perigosa, com muitos acidentes e mortes nas pistas estreitas e sem acostamento

Jorge Macedo - especial para o EM
Mateus Parreiras
Enviado especial

  Abuso explosivo: tripla ultrapassagem na curva sobre caminhão com carga inflamável - Foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press

Manhuaçu e Viana (ES) – A multidão de curiosos ficou admirada com o caminhão que tombou com a carga de enlatados a um metro do abismoPara não bater num carro que fazia ultrapassagem proibida numa curva no km123 da BR-262, em Conceição do Castelo (ES), o motorista jogou o veículo de 15 toneladas no mato, porque não havia acostamento ou área de escape“Esse (motorista) foi heróiJogou com a sorteSe fosse eu, batia para não morrer, passava por cima”, afirmou um carreteiro antes de deixar o local do acidente, na última quinta-feira.

As palavras do caminhoneiro são chocantes, mas expõem dilemas e riscos de quem percorre a rodovia e pode se tornar vítima da burocracia oficial, da pressão de concessionárias por maior retorno financeiro e da queda de braço entre a bancada capixaba no Congresso e o governo federal sobre cobrança de pedágioO resultado desse imbróglio apareceu na quarta-feira, quando nenhuma empresa apresentou proposta para o leilão feito pelo governo federal para a obra de duplicação da rodoviaSerá necessário então dar início a novo processo de licitação

A demora na revitalização da estrada traz consequências trágicasEm 2011, só trecho urbano de Manhuaçu, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) registrou acidentes com sete mortes e 57 feridos nos kms 29, 33 e 34 do perímetro urbanoRotina que não mudou, segundo o técnico agrícola Osseny Pinel, de 31 anos, que trabalha numa loja de equipamentos agropecuários

- Foto: Para mostrar os perigos e gargalos enfrentados por quem se aventura pela estrada, uma das principais rotas dos mineiros que passam férias no litoral do Espírito Santo, a reportagem do Estado de Minas percorreu 375,6 quilômetros da 262, entre João Monlevade, no Vale do Aço, e Viana, na Grande Vitória

O edital que fracassou determinava que 188,8 quilômetros fossem duplicados pela concessionária vencedora, restando ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) o resto da ampliaçãoA via tem traçado antigo e sinuoso em alguns trechos, com poucos pontos de ultrapassagem e com terceira faixaAlém disso, a rodovia se mistura ao perímetro urbano em Manhuaçu e Martins Soares e no Espírito Santo (Venda Nova do Imigrante, Ibatiba e Viana).

E é logo no começo, quando a 262 deixa de integrar a Rodovia da Morte (BR-381), e segue para o litoral capixaba, a partir de um trevo de Monlevade, que os riscos de acidente surgem, em trechos em que a ampliação e conservação são urgentesOs primeiros metros da estrada passam sob um viaduto em péssimo estado de conservação, usado por quem vem da 381, sentido BH, e quer pegar a 262

Os guarda-corpos da ponte, feitos de peças pesadas de concreto, estão amarrados precariamente com uma gambiarra de bambu e arames para não despencar sobre os veículos que passam a 6 metros, na pista abaixoQuando passam carretas rodotrens e bitrens, algumas com mais de 30 metros de comprimento, a estrutura inteira balança, dando a impressão de que vai cair, fato que já ocorreu numa das cabeceiras, mas os destroços foram parar no canteiro.

A pista simples é pior no lado mineiro da estradaHá pelo menos três pontos onde existem erosões abertas por chuva há dois anos e que podem avançar sobre a pistaUm deles está no km 194, em Bela Vista de Minas, com 48 metros de comprimento e 4 metros de profundidadeO buraco já engoliu o acostamento e parte da pista no sentido MonlevadeObstáculos como esse deixam alunos das comunidades rurais apavorados, porque precisam embarcar nos ônibus diariamente para ir à escola
É o caso de Alef Vinícios Silva Santos, de 14 anos, morador de Buraco Sabino, em Bela Vista de Minas“A gente fica muito assustado, porque a rodovia já é apertada para tantos caminhõesCom os buracos (erosões), eles (caminhoneiros) jogam o veículo para cima da gente e quase batem no ônibus”, contaO garoto precisa andar por uma trilha no meio do mato por 20 minutos, mas é da estrada que ele tem mais medo“Não gosto de andar pelo acostamentoAs carretas descem muito rápido e quase levam a gente embora com o vento”, disse o adolescente

DEFESA DO PEDÁGIO A duplicação é um dos benefícios que o leilão traria, a partir do segundo ano de concessãoMuitos caminhoneiros dizem não se importar de pagar pedágio“Compensa pagar simEssa rodovia é estreita demaisSe não conhecer bem as curvas e o traçado, pode cair numa canaleta, tombar e morrerSe escapar, ainda tem o prejuízo, os dias parados”, disse o caminhoneiro capixaba Fábio Júnior da Silva, de 25 anos, que viajava com a mulher, Angelina Friederich, de 21.

O temor que Fábio Júnior tem de sofrer acidente virou realidade para outro carreteiro, Amarildo Vingler, de 49O veículo dele sofreu pane e, como não há acostamento no km 156, ele teve de jogar o caminhão com carga de granito na valeta para não bater em outros veículos“Estava quase perdendo o controleSe não me jogasse na vala, poderia ter atingido os carros que estavam passando perto”.

O tráfego de veículos pesados faz muitos motoristas arriscarem manobras imprudentesO desrespeito ao limite de velocidade é outro perigoNo km 91, o trecho que antecede o trevo de Serecita tem limite de 60 km/h para regular o fluxo de veículos que acessam a passagem e dos que seguem a rodoviaNo entanto, a maioria trafega acima de 80 km/hEm apenas 20 minutos de medições com um radar, a reportagem flagrou carros e motos chegando a 100 km/h, ou 67% acima do permitido.