Todo usuário de GPS tem uma história para contar de um dia em que se guiou pelo sistema do carro e acabou perdidoA rua que é contramão, a outra que não tem saída, a conversão para um lugar em que não há acesso ou a entrada em ruelas sem retorno são situações que frequentemente estão no mapa de quem depende do serviçoAs reclamações aumentam na mesma velocidade em que o serviço se populariza – até 2012, a expectativa era que a venda de aparelhos de celular com sistema de posicionamento global ultrapassasse 550 milhões de unidades no mundoEspecialistas afirmam que, além de atualizar constantemente o mapa usado, o conjunto deve ser de qualidadeOu seja, uma empresa pode fornecer mapas mais detalhados, enquanto outras nem tantoE isso acaba se transformando em confusão para o usuário.
Um dos grandes problemas do GPS que não funciona é a falta de atualização constante do softwareA periodicidade depende do tempo recomendado pelo fabricante de cada aparelho, mas é preciso entrar no site indicado e baixar o aplicativo novamenteA ideia é que a todo momento as empresas que trabalham com os dados geográficos refaçam os trajetos e incluam ruas abertas pelas prefeituras, viadutos construídos, mudanças de mão e contramão, a canalização de um rio, uma ponte construída, um radar de avanço de velocidade, enfim, todas as mudanças frequentes nas cidades
Quem usa o GPS no smartphone fica mais tranquiloO aplicativo é atualizado automaticamente e não demanda esforço do usuárioSegundo o doutor em geoprocessamento e professor do Departamento de Engenharia de Transportes e Geotecnia da Escola de Engenharia da UFMG, Marcelo Franco Porto, esses programas são mais sofisticados, e alguns já indicam até onde há engarrafamentos
Nessa diferença podem se esconder situações como aquela em que o GPS manda fazer uma conversão proibida, como passar sobre o canteiro central de uma avenida movimentadaSegundo Marcelo Franco, uma explicação para esses casos é que a base de dados usada identifica um eixo, uma rota possível onde, por exemplo, pode existir apenas passagens para pedestres, confundidas com ruas pelo sistema.
OBSTÁCULOS O mesmo ocorre com vias muito íngremes, não especificadas em todos os mapasA administradora de empresas Nádia Barbosa, de 25 anos, passou por uma situação dessasEla mora em Belo Horizonte há apenas cinco meses, desde que se mudou de Tiradentes, no Campo das VertentesPara se orientar no trânsito da capital, usa seu GPS o tempo todoPor várias vezes ficou perdida, mas em uma das aventuras o aparelho indicou uma via com um “obstáculo natural”Ela seguiu e se deparou com uma rua, segundo ela, impossível de subir de carro
O fato de conhecer pouco áreas que não estão no trajeto simples entre a casa dela, no Bairro Anchieta, e o trabalho, no Funcionários, já a colocou em situações complicadas“Entrei numa rua que era contramão por orientação do aparelhoComo era uma via de menos movimento, acabei seguindo, mas isso é muito perigoso”, contouNo geral, ela considera que o principal problema são caminhos indicados na tela, mas proibidos na prática"Como há muita mudança de mão e contramão, de radares e até mesmo obras, o GPS costuma informar caminhos que não podem ser usados naquele momento”, acrescentaAinda assim, ela não vive sem o dispositivo“Mesmo tendo suas limitações, me auxilia bastante”, completa.
São diversas marcas de vários fabricantes e cada um com uma qualidade de mapeamento, mas todos eles apresentam problemas, segundo o professor do Departamento de Cartografia da UFMG Marcos Antônio Timbó ElmiroDe acordo com ele, o GPS de navegação em carros ainda dá uma incerteza de três a cinco metros do lugar em que está o usuário, ou pelo qual ele procura, o que pode gerar uma indicação errada“O erro do mapa é o mais básicoO fabricante do GPS com o sistema de mapas e o aparelho vai se basear do que for fornecido por elesSe indica que tem uma rua e na verdade ela não existe, é uma falha no levantamento dos dadosO mapa tem que ser preciso em termos de qualidade, isso não é um problema do GPS”, explicou
Uso do sistema divide taxistas
Trafegando diariamente por diferentes endereços de Belo Horizonte, os taxistas se dividem quando o assunto é a adesão ao GPSEnquanto alguns optam pelo conhecimento adquirido ao longo dos anos e rejeitam a tecnologia, há quem não dispense a ajuda eletrônicaO taxista Cláudio Silva de Oliveira, de 37 anos, está no time dos que não são fãs do sistema“Acho que não uso porque não tenho o hábitoTambém não vejo necessidade em minha rotina”, afirma.
Há 40 anos dirigindo na praça em BH, Jair Francisco, de 70, não usa GPS, mas também não é radical“Conheço a cidade como a palma da minha mão, mas sei que o taxista não é obrigado a saber todos os endereçosConsidero um aparelho útil, mas que não é necessário para a profissão”, diz eleJá Ernani Júlio de Oliveira, de 56, tem um aparelho em seu veículo e não sai sem digitar o endereço para o qual está seguindo“Acho uma tecnologia sensacional e a uso bastanteNão creio que atrapalhe os motoristasSe chegar a um lugar que não é permitido seguir do jeito que ele está mandando, basta retomar a rota”, avalia.
Apesar de também ser antigo na praça, Hélio Cristóvão Ferreira, há 30 anos na profissão, também é adepto do sistema, mas aponta os principais erros“Às vezes, realmente ocorre de a prefeitura alterar a circulação e você ficar perdido por issoO que eu mais vejo que atrapalha é a numeração em uma ruaEm muitos casos o GPS manda para mais longe do endereço realAcho muito bom para quem já conhece o trânsitoNesse caso, o motorista não depende totalmente do aparelho, apenas o usa como auxílio”, completa(GP)
Consumidor pode procurar o Procon
Poucos sabem, mas erros do GPS estão na lista das relações de consumoIsso quer dizer que as empresas que não prestarem o serviço adequadamente podem ser punidas com multa de R$ 400 a R$ 6 milhões, de acordo com seu faturamentoDe acordo com o Código de Defesa do Consumidor, o produto vendido tem que estar adequado ao fim para o qual foi criado“Se foi criado para orientar, não pode errar”, afirma o coordenador do Procon Assembleia, Marcelo Barbosa
O primeiro passo é procurar a empresa que vendeu o software ou o aparelho de GPSSe o erro levou a algum dano, como um acidente provocado pelo acesso a uma rua com indicação errada, procurar o Procon é uma forma de ser ressarcido do prejuízoNo entanto, o coordenador indica que, na hora de comprar o produto, é preciso saber se ele tem assistência técnica no Brasil e se há orientação sobre a necessidade constante de atualizaçãoA empresa que fornece os mapas também pode ser responsabilizada
Segundo a coordenadora do Procon Municipal, Maria Laura Santos, se os aplicativos baixados gratuitamente apresentarem problemas, o jeito é recorrer direto ao fornecedor, por se tratar de uma prestação de serviços não onerosaMesmo assim, o Procon pode notificar a empresa que está prestando informação incorreta(PG)
Desorientados
Situações demonstram que confiar cegamente nas orientações do GPS pode ser perigoso e até fatal
No início de junho, uma economista de 52 anos seguia o caminho indicado no GPS do carro quando entrou numa comunidade de São Vicente, no litoral de São PauloEla foi baleada na cabeça e morreuEla viajava de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para São Vicente
Em maio, um paulista entrou por engano na favela do Morro do 18, Água Santa, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e foi baleadoEle seguia as coordenadas do GPS do carroDe acordo com a polícia, ele ainda tentou retornar, mas se deparou com um grupo de traficantes armados com fuzis, que dispararam contra o carro
Em janeiro, uma idosa da Bélgica seguia da sua cidade, no interior, até a capital, BruxelasEra um percurso de 61 quilômetros, mas, confiando no seu GPS, a mulher de 67 anos dirigiu 1.450Perdida, dois dias depois ela chegou a Zagreb, capital da CroáciaSeguindo o aparelho, que apresentou problemas, ela passou por cidades da França, Alemanha e Áustria.