Já são 37 anos de busca incansável pela meninaMas, mesmo depois de tanto tempo, Maria Francisca, de 74 anos, e o marido, Alberto Geraldo de Faria, de 69, ainda esperam ver a filha adulta, entrando pelo portão de casaEsperança que é alimentada pelas novas tecnologias e pelo crescimento das redes sociais na internet.
Depois das últimas divulgações do caso, três mulheres procuraram a Divisão de Referência às Pessoas Desaparecidas de Belo Horizonte, se identificando com o casoForam levadas à polícia depois de verem as notícias na TV, em jornais e em sites de relacionamentoDois dos três exames de DNA para reconhecimento da paternidade foram descartados
As três mulheres que passaram pelo exame também estão em busca de familiares“São pessoas que souberam, depois de adultas, que eram filhas adotivas e que podem ter sido sequestradas pelos pais”, explica a delegada Cristina Coeli, chefe da Divisão de DesaparecidosOs casos correm em segredo de Justiça, a pedido das próprias mulheres, que se sentem ameaçadas pelas famílias adotivas.
A família de Cecília acredita que a menina tenha sido levada por alguém que desejava, mas não podia ter filhosTanto ela quanto o marido descartam a possibilidade de sequestro para fins de tráficoA tese também é refutada pela delegada Cristina CoeliEla explica que os casos de sumiço de crianças na época normalmente eram motivados por interesse de adoção ilegal“Levava-se a criança e depois o registro de nascimento era lavrado com dados falsos”, afirma
Enquanto o casal aguarda o desfecho da investigação, o cotidiano é cheio de lembrançasDe uma pasta, as mãos trêmulas do pai tiram fotos da menina e dos outros filhosEles também guardam jornais da época e uma projeção de Cecília com 33 anos, feita pela Polícia Civil do ParanáAmbos falam da menina com uma doçura de impressionarDesejam vê-la de novo, ter notícias, saber se ela se formou, se está bemQuerem poder abraçar e curtir a filha, com quem tiveram menos de dois anos de convivência
A mãe pede que mulheres que se identifiquem com o caso possam buscar sua família verdadeira“Tenho fé de que outras pessoas vão nos procurar, assim como procuramos nossa filhaDe tudo o que passa sobre a terra e embaixo do céu, nada ficará oculto”, diz a mãe, com fervor na voz.
O caso também desafia a políciaA delegada Cristina Coeli diz ser este um inquérito complexo, tanto por ter ocorrido em outro estado quanto por nenhuma pista ter sido encontrada“Acreditamos que ela está viva em qualquer lugar do mundo.” A delegada espera que mais pessoas apareçam para que, enfim, o caso seja elucidado
Suspeita de sequestro
A desconfiança da família de Cecília em relação a um plano de sequestro surgiu em função da segurança do condomínio onde a família passava as fériasMaria Francisca, que é advogada aposentada, recebeu a indicação do lugar de uma colega de trabalhoO condomínio em Guarapari era um acampamento de adventistas e ficava próximo à Praia de Santa Mônica“Ninguém entrava lá se não tivesse uma carta de indicaçãoTodos os que passavam pela portaria, que funcionava 24 horas, tinham que apresentar documento de identidade”, lembra a mulherA família chegou ao local na tarde de 1º de fevereiro de 76
Além dos filhos, o casal foi acompanhado da babá, do irmão de Francisca, à época com 12 anos, e de um sobrinho dela que tinha 6 anosNa manhã seguinte todos foram à praiaAlmoçaram em casa e passaram a tarde se divertindoMaria Francisca estava recém-operada da vesícula e descansava no quartoOs homens jogavam cartas na varanda e observavam as crianças brincarem no pátio comum às 11 casas do condomínioCecília e o irmão Eustáquio, de 3 anos, brincavam com uma bolinha que o irmão havia encontradoDébora, de 5 anos, os observavaEustáquio jogou a bola e Cecília foi buscá-laA menina não voltou mais
A DOR O irmão mais velho, Amilcar, então com 6 anos, havia acabado de tomar banho e neste momento a babá foi chamar Cecília para também se banharFoi quando começou o desesperoA menina não respondiaTodos saíram para procurá-la“Lembro-me do meu pai colocando a gente dentro do carro e percorrendo os arredores procurando a CecíliaFoi muito tristeNão consigo imaginar a dor dos meus pais naquela noite”, conta Débora, hoje com 42 anos
A busca contada hoje com comoção pelo casal nunca mais parou“Passamos dias vasculhando a cidade, sem nenhuma notíciaNão conseguíamos pensar em voltar para casa sem nossa filha”, diz Maria FranciscaO retorno só foi possível porque o pai de Alberto buscou a família.
Os irmão de Cecília cresceram, se formaram, tiveram filhos e saíram de casaHoje, Maria Francisca e Alberto moram na companhia de uma netaAlém dela, a tristeza tornou-se moradora permanente no seio familiarMas eles não perdem a esperança de trocá-la pela presença da filha.