Jornal Estado de Minas

Diarista Sandra completa um ano sem usar crack

Apesar de ter apenas o ensino fundamental, a diarista Sandra Maria da Silva, de 42 anos, é capaz de dar aulas de sobrevivência em tempos de crack. Desde que deixou a última internação, em que permaneceu por nove meses em tratamento, não voltou a cair. Com a mente limpa, acredita que a própria vida daria um livro, com uma página a ser escrita por dia.

Sandra Kiefer - Especial para o EM
  Sandra Maria da Silva, ao lado, com chaveiros dos Narcóticos Anônimos, que frequenta há um ano, e acima, com a irmã Vanessa, que conseguiu internar. Com uma vida sofrida nas ruas desde a infância e passagem por todo tipo de drogas até afundar no crack, ela decidiu se reerguer e afirma que se mantém vigilante 24 horas por dia, para não sucumbir novamente. Está determinada também a salvar o restante da família, mas sabe que a tarefa não será fácil. - Foto: BETO MAGALHÃES/EM/D. A PRESS


Não é simples atingir a marca de um ano separado do crackNesse intervalo, Sandra Maria viu muitos tropeçarem, inclusive as irmãs Alessandra e Vanessa (retratada nesta série)Já ela se prepara para receber o chaveiro dos Narcóticos Anônimos, que simboliza um ano de participação nas reuniõesConfessa ter medo de comemorar: “No mundo da droga, a gente se acostuma a viver em uma montanha-russa de emoçõesSe tiver uma notícia ruim ou uma dose extra de felicidade, corre o risco de cair de novoÉ preciso aprender a lidar com a vida normal”, filosofa.


O CRACK COMO ELE É: confira todas as reportagens da série especial

 


Sandra Maria se apresenta sem reservas aos interlocutores como ex-menina de rua, ex-prostituta e ex-moradora de cracolândias em vários estados brasileirosEla só não admite ser chamada de ex-dependente: “Posso até esquecer meu nome, mas nunca que sou uma pessoa em recuperação”E argumenta, com conhecimento de causa: “Não existe ex-drogadaQuem já conheceu as drogas não fica curadoÉ preciso vigiar a si mesma 24 horasO crack é como o primeiro namorado, que você nunca esquece

O relacionamento pode até terminar, mas ele nunca mais vai sair da sua cabeça”.

Aos 7 anos, Sandra Maria já estava no olho do furacãoEla e os nove irmãos foram obrigados a trabalhar o dia inteiro, pedindo esmola em sinais de trânsitoA agenciadora era a própria mãe, hoje com 87 anos, alcoólatra, que usava os filhos para sustentar o vícioNa lida, Sandra conheceu a cola de sapateiro, que ajudava a aliviar a revoltaFugiu de casaJuntou-se às turmas de meninos de ruaConta que, por volta dos 14, 15 anos, sentiu vergonha de andar descalça.

Para conquistar calçado, casa e comida, passou a vender o corpoFoi quando conheceu as “bolinhas”: comprimidos usados pelas prostitutas para encarar o rodízio de clientes sem rosto e sem limite da zona de meretrícioTudo comercializado livremente nos arredores da Rua Guaicurus, no Centro de Belo Horizonte.

Sandra Maria suportou essa vida até os 22 anosSentindo-se “velha” para a profissão, caiu na estrada
De carona com caminhoneiros, dormindo embaixo de viadutos, rodou por Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e São PauloNeste último estado, afundou de vez na ex-cracolândia da capital, que até este ano, antes das medidas de internação involuntária dos usuários, era a maior do paísFoi nesse ponto que conseguiu forças para recuarVoltou a BH“Eu era um esqueleto ambulanteTodo mundo olhava para mim como se eu fosse uma desclassificadaEra uma sensação de desprezo muito grande”, explica

MONSTRO

- Foto: BETO MAGALHÃES/EM/D. A PRESS “Jesus, me dê sobriedade”, suplica Sandra Maria, ao telefoneEm dezembro, ela liga para dizer que está se sentindo sobrecarregada, depois que tomou a iniciativa de internar a própria irmã Vanessa e de tentar internar a outra, Alessandra, que fugiuNo minuto seguinte, ela volta a rir das próprias misérias: “Essas drogadas me deixam louca! Mas é a loucura delas que me curaFico cada vez mais sóbria ao vê-las entorpecidas, lutando contra o monstro comedor de cérebro (o crack)”, comparaSegundo ela, as irmãs só aparecem em casa para trocar de roupa e roubar objetos para vender

No mesmo mês, Sandra Maria foi contratada para tomar conta de um restaurante, ganhando R$ 40 por diaPor pouco tempoNo mês seguinte, perdeu o emprego, ao se desentender com uma colega, que descobriu seu passado de dependenteEla não se abalaPega bico em uma cooperativa, onde descarrega caminhões“É difícil demais arrumar empregoO passado é um fantasma que nos acompanha para sempre.”

Na virada do ano, Sandra faz questão de entrar em contato com a equipe do EM e desejar um feliz 2013Está esperançosa e não desiste de recuperar a famíliaCom ela, são 10 irmãos, a metade envolvida com álcool e drogasSandra Maria não esconde a mágoa em relação à mãe, que parou de beber há oito anos, aos 79, ao se converter à religião evangélica, depois de perder dois filhos dependentes de crack e uma filha, que morreu de cirrose

Sandra, por sua vez, teve quatro filhosOs dois mais velhos foram entregues ao abrigo“Todo ano eu ia visitar, levava presente no aniversário e no NatalMas tinha certeza de que seria melhor para eles.” Nenhum dos dois se envolveu com drogasWelbert, de 26 anos, é enfermeiro, e Jonathan, de 20, trabalha em uma conservadora de limpezaAs meninas, Larissa e Monique, de 13 e 10 anos, moram com o pai

Em junho, Sandra já poderia receber homenagem dos Narcóticos Anônimos por um ano longe das drogasEntretanto, fez questão de adiar a comemoração por mais um mês“Gosto do grupoÉ a melhor coisa que existe participar das reuniões, porque as pessoas elogiam a gente”, afirmaSandra merece mesmo um prêmioDesde que largou o serviço braçal da cooperativa, só conseguiu arranjar emprego em um barSuportou por dois meses o assédio dos clientes, que insistiam em pagar uma cerveja à garçonete“O dependente químico não pode nem passar perto do álcool, que é a chave de todas as drogas”, avisa.

No hall de entrada dos Narcóticos Anônimos, Sandra acende um cigarro, o único vício que lhe restou“Eu era uma máquina química”, revela a mulher, que já usou álcool, tíner, cola, maconha, LSD, cocaína, cogumelo e crackDepois de largar o serviço no boteco, Sandra Maria passou a dar faxinasQuer juntar dinheiro para comprar uma churrasqueira profissional“Já que ninguém quer dar emprego a uma dependente, vou ser dona do meu próprio negócioAs pessoas tentam me empurrar de volta para o crack, mas não vão conseguirEu vou vencer”, ensina Sandra Maria, que poderia dar aula de determinação.

 

Por dentro do vício

 

Na série de reportagens que termina hoje, o Estado de Minas contou as histórias de mineiros que se viciaram em crackPor seis meses, os repórteres Guilherme Paranaiba e Sandra Kiefer acompanharam a trajetória de 10 pessoas e relataram momentos de trevas, sombras e luz vividos por elasNo grupo – um retrato de como a droga não distingue classe social – há quem não tenha conseguido vencer a dependência química em seis meses, quem ainda enfrente altos e baixos e os que lutam para evitar recaídas