Jornal Estado de Minas

Mineiros que largaram o crack retomam rotina e lutam para afastar o perigo da recaída

Conheça Carlos, que deu um passo para a liberdade sem o uso da droga

Guilherme Paranaiba Sandra Kiefer
O caminho de Carlos até a recuperação: em fevereiro, o trabalho de assar pães na comunidade terapêutica, em Ravena, ajudou a ocupar a cabeça e a esquecer o crack - Foto: ramon lisboa/em/d.a press - 7/2/13
Faz três meses que Carlos Ângelo Becalli, de 27 anos, está “limpo”Não foi fácilViciado em crack desde os 19, trilhou caminho de alto risco que culminou com uma internação em uma comunidade terapêutica de Ravena, na Grande BHNo pior momento, Carlos frequentou por um ano bocas de fumo perto da Pedreira Prado Lopes, maior ponto de distribuição da droga na capital mineira, e chegou a presenciar o assassinato de um usuário por um traficanteAs coisas melhoraramDepois de seis meses em tratamento, voltou para casa e já conseguiu um empregoMas não baixa a guarda: está em abstinência total“Se beber meio copo de cerveja, é certo que vou parar no crack”, dizNa terceira e última reportagem da série sobre a trajetória de usuários da pedra, conheça a história de Carlos e outros dois mineiros que conseguiram largar o crack e lutam como podem para ficar longe dele


O CRACK COMO ELE É: confira todas as reportagens da série especial

 

“O que aconteceu comigo foi uma transformação”, diz Carlos, sorrindoÉ o dia seguinte à saída do rapaz do sítio em Ravena, distrito de Sabará, na Grande BH, no qual ficou seis meses internado

A aparência está bem cuidadaO primeiro compromisso marcado é uma visita a uma agência de empregos no Centro de Belo HorizonteAntes, passa na porta da escola onde a mãe trabalhaA faxineira Maria de Fátima Becalli, de 54, abraça o filho com força“A melhora dele foi muito grande”, constata“Sonho que ele conquiste tudo de bomDaqui para a frente é trabalhar.”

Há, sim, muito trabalho pela frente para CarlosO emprego ele já tem: é segurança de um supermercado no Bairro Tupi, também na Região NorteO desafio maior é manter a conquista do longo período de tratamentoPrecisa ficar longe do crack
“Ainda prefiro ficar na retrancaSe você pensa que está forte demais, acaba caindo”, reconhecePara reduzir riscos, ele decidiu adotar a abstinência totalNão toma bebidas alcoólicas nem fuma cigarros.

Os cuidados são necessáriosAntes de se tratar, Carlos “consumia crack compulsivamente”, nas palavras deleO hoje segurança começou a fumar a pedra aos 19 anos, mas já tinha problemas com outras drogasComeçou a beber aos 12O vício em crack se tornou pior em 2011Durante um ano, ele praticamente morou na Pedreira Prado LopesLá, fumava em qualquer lugarEntrava em longas filas para comprar a pedra

Mineiros que largaram a pedra retomam rotina e lutam para afastar o perigo da recaída - Foto: paulo filgueiras/em/d.a press - 22/5/13 Numa dessas tentativas de conseguir a droga, viveu um traumaEnquanto aguardava a vez, outro usuário foi reconhecido por traficantes como responsável por pequenos roubos na região“O traficante segurou uma pistola automática e perguntou se o cara queria levar um tiro na mão ou no peitoComo não respondeu, o bandido disse que seria no peito, mas o homem levantou e o tiro acabou arrancando a mão dele”, lembraNa segunda vez em que ele presenciou um acerto de contas, um traficante assassinou um usuário na frente de várias pessoas“Ele tinha roubado uma certa quantidade de crack e tomou dois tiros”, lembra

Carlos atribui parte dos problemas que viveu a desarranjos familiares – ele não se dava bem com o padrastoA experiência com crack, conta, ocorreu depois de uma desilusão amorosaO rapaz diz que entre 2011 e 2012 a Pedreira Prado Lopes se tornou ambiente para esquecer problemas, mesmo com tantos riscos“Se você estivesse dentro do beco, corria muito perigoEles (traficantes) atiravam sem se preocupar em quem acertar.”

O tratamento a que Carlos se submeteu no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos (Credeq), em Ravena, começou em novembro do ano passadoEm todas as ocasiões em que a reportagem do EM esteve no sítio, ele parecia reagir bem“Os dois primeiros meses foram os mais difíceis”, lembraUma das coisas que o ajudaram a esquecer o crack foi trabalhar na unidade de recuperaçãoEle conta que se apaixonou pelo ofício de padeiroÀ medida que o tratamento avançava, a perspectiva de voltar ao convívio social era o que animava Carlos“Não virei santoO ser humano está sujeito a falhas, mas com certeza vejo melhorasAntes, posso dizer que respirava por aparelhosHoje, já consigo respirar por minha conta”, disse, em março, quando já havia completado quatro meses de internação

Faz três meses que Carlos Ângelo Becalli, de 27 anos, está "limpo". Não foi fácil - Foto: jair amaral/em/d.a press - 23/5/13 O dia 22 de maio ficará marcado na memória de CarlosA saída da comunidade terapêutica é comparada por ele a um novo nascimentoSorridente, com 20 quilos a mais, já dava o tom do que seria sua prioridade“Preciso arrumar um serviço para ocupar a mente e não colocar tudo a perder.” Dois meses depois de deixar a unidade de recuperação, a reportagem do EM tentou fazer novo contato com CarlosEle atendeu à ligação da reportagem em seu celularEra um bom indício: o telefone é um dos primeiros objetos trocados ou vendidos por viciados para conseguir pedraOutra boa notícia era que o rapaz já tinha arranjado emprego como segurança de supermercado“Não tenho tempo para pensar em outras coisasEsse emprego foi essencial para meu recomeço”, conta

Carlos também arranjou uma namoradaDiz que a nova companheira o ajuda a ficar longe de problemasAssim como as reuniões que frequenta, ainda como parte do tratamento“Agora posso dizer que levo uma vida normalNão preciso beber e usar drogas para viver.”