Na esquina de cima, a música era alta, com os tambores do Maracatu Lua Nova dominando a Praça Rômulo PaesNa esquina de baixo, um silêncio respeitoso à espera de que a escritora Adélia Prado tomasse a palavraDuas apresentações absolutamente opostas dominaram na noite de ontem um mesmo quarteirão da Rua da Bahia, na região central de Belo HorizonteNo Museu Inimá de Paula, a programação ainda seguiria com jazz; no Centro de Referência da Moda, com ritmos cubanosE esses foram apenas dois dos espaços que ficaram abertos na sexta-feira para a primeira edição da Noite de Museus, que ocorreu também em outras 15 instituições da cidade.
O pequeno auditório da edificação neogótica na esquina de Bahia com Avenida Augusto de Lima estava quente, apesar da temperatura baixa de ontemUm público diverso se espremia para ver e ouvir Adélia, que antes de tomar a palavra assistiu a uma performance do ator Luiz Gomide“Música, poesia, filosofia não servem para nada”, provocou Adélia no início da conversa com o públicoMas logo chegou ao ponto que queria: “A arte é uma resposta afetivaO Brasil caindo aos pedaços e nós falando de poesia?”
Adélia não poderia deixar de falar do momento do paísMas à sua maneira
Saudada com muitas palmas, Adélia deu ao público, na segunda parte do encontro, o que ele mais queria: ouvir os poemas de sua própria vozEncantou com “Harry Potter” (“Quando era criança escondia-me no galinheiro hipnotizando galinhas”); emocionou com “Refrão e assunto de cavaleiro e seu cavalo medroso” (“Ô estrela Dalva, Ô lua.../Tristeza é o luar nos ermos/Do sertão, Minas Gerais”); e até atendeu pedidos, recitando, de cor, “Casamento” (“Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes”)
“Estava muito curiosa para vê-la, tenho vários de seus livros, pensei em ir até a Divinópolis para conhecê-la”, disse a professora de filosofia Renata de Souza, que, após a apresentação, pretendia continuar no Centro de Referência da ModaAfinal, a Noite de Museus, que promete nova edição em 2014, estava apenas começando