Jornal Estado de Minas

BH tem desafios para enfrentar até a Copa de 2014

Com número bem maior de torcedores do que na Copa das Confederações, Belo Horizonte terá no transporte, segurança e sinalização urbana os principais desafios a enfrentar

Jorge Macedo - especial para o EM
Flávia Ayer
Manifestações e falta de informações contribuíram para atrapalhar a saída dos ônibus especiais do Mineirão - Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

O campeão está consagrado, turistas voltaram para casa, a bola deixou de rolar no gramadoNem por isso o trabalho diminuiuPassada a Copa das Confederações, é hora de avaliar o desempenho de Belo Horizonte no evento anunciado como teste para o Mundial de 2014Mesmo sem estatísticas consolidadas, organizadores consideram que BH garantiu aprovação no torneio, mas reconhecem que há um longo trabalho pela frentePara os torcedores, o transporte é o principal problema a ser resolvidoE, num contexto em que manifestações superaram os jogos em público, o setor de segurança teve uma prova de fogo.

Os desafios para a Copa ficam mais evidentes quando se leva em conta a quantidade maior de turistas que devem desembarcar em Belo Horizonte no ano que vemNa Copa das Confederações, o Mineirão recebeu 130 mil torcedores nos três jogos da Copa das Confederações, a maioria da região metropolitana (cerca de 100 mil)Estima-se que 6 mil estrangeiros tenham visitado BH durante o torneio, de acordo com percentuais projetados pela FifaEm 2014, o Ministério do Turismo calcula que 180 mil estrangeiros, além de 380 mil brasileiros, visitarão a capital mineira durante o MundialHá, portanto, muito a ser feito.

Na avaliação de quem foi aos estádios, o transporte foi o ponto mais problemáticoPor seis dias, o paranaense Eduardo Yamauti, de 30 anos, esteve em BH com três amigos

Ele vieram para a semifinal entre Brasil e Uruguai e foram ao jogo no ônibus especial para a Copa“A ida foi tranquila, mas, no final, por causa das manifestações, liberaram somente uma saída no estádioFoi uma confusão”, relata“Não tinha sinalização, ninguém para informar de onde saía o ônibusQuando encontramos o terminal, a fila era giganteSe para o brasileiro foi difícil, imagina para os estrangeiros”, completa Eduardo, que preferiu andar por quatro quilômetros até um ponto de ônibus de linha convencional.

No total, 59,2 mil passageiros usaram o serviço especial da BHTrans, que contou com 300 ônibus convencionais de cinco terminaisO engenheiro Ricardo Garcia, de 46, de Volta Redonda (RJ), esteve com a família na cidade para o jogo entre Japão e México e optou por usar táxiAinda assim, enfrentou dificuldades“A saída foi complicadaPor causa da manifestação, o ambiente era bem tenso, com helicóptero, muita polícia
Minha irmã tem problema de mobilidade e já não havia mais cadeira de rodas”, reclama“O trânsito estava horrível e preferimos esperar por quatro horas numa lanchonete até conseguir o táxiVimos uma turista estrangeira desesperada”, acrescenta.

Impacto dos protestos O secretário de Estado Extraordinário da Copa do Mundo, Tiago Lacerda, lembra que o sistema funcionou no pior cenário possível por causa dos protestos“A principal avenida de ligação ao estádio estava bloqueadaDe fato, foi um problema e chegamos a detectar pessoas sem saber para onde ir”, afirmaSegundo ele, a perspectiva é outra em 2014, com o início da operação do transporte rápido por ônibus (BRT), além do serviço de ônibus especial, que continuará à disposição dos torcedoresPara o secretário municipal extraordinário para a Copa, Camillo Fraga, o serviço de ônibus foi subutilizado na Copa das Confederações“Apesar de ser gratuito, infelizmente muita gente não usouTínhamos capacidade de transportar 40 mil pessoas por jogo”, diz“Tivemos um bom aprendizado para fortalecer o pedido para que os torcedores usem mais o transporte público”, ressalta

Com os sucessivos protestos, o setor de segurança também tirou lições do torneio“Nossa expectativa é que a Copa das Confederações fosse absolutamente tranquila por causa dos jogos programados aqui, mas com as manifestações a coisa ganhou um outro contorno”, reconhece o secretário de Estado de Defesa Social, Rômulo FerrazCom as manifestações, foi preciso mobilizar mais que o dobro de agentes inicialmente previsto, passando de 2 mil policiais militares para 5,4 mil, além dos 1,2 mil homens do Exército e 300 da Força Nacional“A articulação entre todas as instituições foi uma lição positivaAs chefias das corporações ficaram numa sala de situação com a imagem de câmeras de vários pontos da cidade, onde conseguíamos tomar decisões mais rápidasPassaram por lá o governador e o prefeito”, conta Ferraz.

A maior dificuldade, na avaliação do secretário, foi atender a tantos interesses“Se a PM atua mais firme, acham que é abusoSe não, acham que tem que agir de forma mais duraTemos que ter uma temperança para proteger torcedores, manifestantes e o patrimônio público e privado”, afirmaNo que diz respeito à segurança dos turistas, a secretaria informou que 56 ocorrências foram registradas durante o torneio na Delegacia de Eventos, na orla da Pampulha, a maioria de furto.

Confiante em que a situação política e social do país se acalme até a Copa do Mundo, o secretário Rômulo Ferraz adianta que, para 2014, o sistema de videomonitoramento será ampliado, com a instalação de 280 câmeras, em especial na Avenida Antônio CarlosUma nova central de controle operacional, em construção na Gameleira, na Região Oeste, ficará pronta para o MundialEm relação ao efetivo, Ferraz reforça que dificilmente será necessário aparato policial maior do que o usado na Copa das Confederações.

Pílulas da Copa

» DE BH PARA...

Turistas que estiveram em BH durante a Copa das Confederações puderam enviar cartões-postais gratuitos para qualquer parte do mundoO serviço, oferecido pela Belotur, trazia 10 estampas diferentes e dá a noção de quem passou pela cidade no períodoNo total, 3 mil postais foram enviadosNo Brasil, só o estado de Roraima não esteve entre os endereços de entregaCerca de um quinto dos cartões foram para o exterior, num total de 40 países.

»TEMOS VAGAS

O balanço da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Minas Gerais (Abih-MG) apontou como insatisfatória a ocupação dos estabelecimentos ao longo da Copa das ConfederaçõesApenas no jogo entre Brasil e Uruguai houve ocupação de 100% dos 18 mil leitosDe modo geral, o movimento em junho do ano passado foi maior em relação a este ano“Eventos que normalmente vinham para cá deixaram de virA Copa coincidiu com um momento tumultuado, que espantou os clientesA média de ocupação foi de 70%”, afirma a presidente da entidade, Patrícia Azeredo Coutinho, que prevê a abertura de pelo menos 40 hotéis para o ano que vem, dobrando a capacidade de hospedagem da cidade.


» Só em dia de jogo

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas (Abrasel-MG), Fernando Júnior, a presença de turistas teve pouco impacto no faturamento dos estabelecimentos“Os restaurantes mais típicos é que teriam maior incremento, mesmo assim de 2 a 3%”, afirmaSegundo ele, o principal fator para manter a casa cheia no período foi a transmissão de partidas da Copa“O aumento chegou a 50% nos locais que mostraram os jogos”, ressalta.


» TURISTAS

Pesquisa do Ministério do Turismo indica que 69% dos turistas estrangeiros estavam no país por causa da CopaEm média, os entrevistados ficaram duas semanas no paísOs estádios foram aprovados por 95% dos estrangeiros, ao contrário do transporte até os jogos, que foi aprovado por 61,5% delesEntre os turistas brasileiros, 85% tinha como finalidade da viagem a Copa e a média de permanência era de três pernoitesChama a atenção o fato de 37% deles não ter pernoitadoO preço da alimentação no estádio foi considerado ruim ou muito ruim por 78% dos visitantes.