Jornal Estado de Minas

Cidades do interior têm dificuldades para manter médicos

Jorge Macedo - especial para o EM
Zulmira Furbino

Em São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, está difícil conseguir médicos e os que trabalham na cidade, na maioria, são itinerantes, ou seja, exercem a profissão em várias cidades na região
“É difícil demais fixar os médicos”, desabafa o diretor da Fundação Municipal de Saúde São João Evangelista, responsável pelo hospital local, Celso FalcãoAs especialidades mais procuradas no hospital são pediatria, obstetrícia, clínica médica e ortopedia“Hoje, precisamos de mais três médicosEstamos pagando R$ 1.600 por plantão de 24 horas”, informa

Falcão conta que sete médicos trabalham no plantão da fundação, das 7h de um dia às 7h do outroA necessidade mínima é de um plantonista por dia“Dois médicos que trabalham aqui dão dois plantões por semanaOs outros normalmente também trabalham como plantonistas em cidades vizinhas, como Guanhães, Peçanha e Santa Maria do Suaçuí”, dizO prefeito Pedro Queiroz Braga explica que a cidade tem 16 mil habitantes e conta com 13 médicosSete atendem no hospital e os demais no Programa de Saúde da Família (PSF)
“É mais fácil encontrar os do PSF, porque eles são clínicosJá no hospital, o médico precisa fazer clínica, partos, cesariana e até cirurgia geral”, explica.

Braga explica que a remuneração dos profissionais que atendem no PSF é de R$ 18 mil para uma carga horária de 40 horas por semanaQuando eles fazem plantão ou trabalham também no posto de saúde, a remuneração pode chegar a R$ 30 mil, diz o prefeito“Mesmo assim, é difícil mantê-los aquiJá cheguei a oferecer salário de mais de R$ 30 mil para o profissional vir morar em São João Evangelista, fazendo dois plantões por semana e ficando de sobreaviso para caso de necessidadeAinda assim, não consegui ninguém que aceitasse”, dizDe acordo com ele, em matéria de atendimento médico, a situação na região é tão precária que entre São João Evangelista, Guanhães e Santa Maria do Suaçuí, que somam cerca de 100 mil habitantes, há apenas cinco pediatras

“Contratei um médico que vai trabalhar dois sábados, quatro segundas-feiras, quatro terças e quatro quartas ao mêsVai receber R$ 27 milPropus pagar R$ 30 mil para que morasse aqui, mas ele não topou”, diz o prefeito, que também é médico e já teve de largar a prefeitura para fazer atendimento de urgência
Anestesista na cidade só há nas quartas-feirasAlém disso, como faltava um profissional para fazer a medicação dos pacientes internados logo pela manhã, foi preciso contratar um médico que trabalha 12 horas por semana e recebe R$ 10 mil“A especialidade dele é ginecologiaTive que implorar para que topasse a parada, porque ele trabalha também em outros municípios”, revela.

Jovelino Pinheiro Costa é cirurgião vascular e ex-prefeito de Rio Pardo de Minas, no Norte do estado (teve o mandato cassado sob acusação de abuso de poder político)Na avaliação dele, a fixação de médicos no interior sempre foi um desafio“As pessoas insistem em achar que o que vai fazer um médico ficar numa cidade é o salário, mas estão enganadasO profissional chega, fica quatro ou cinco meses, faz um caixa e vai embora trabalhar em outro lugar que ofereça mais estrutura de atendimento e mais qualidade de vida.” Para Costa, os médicos fogem de condições de trabalho ruins porque ficam expostos a situações de risco e podem, inclusive, ser processados por imperícia ou negligência

Outro fator que espanta os profissionais da área de medicina é a violência“Já tive colegas que foram trabalhar no PSF de Ribeirão das Neves (na região metropolitana da capital) e foram roubadosEm Betim (também na Grande BH) paga-se bem, mas as condições de trabalho não são boasVocê tem medo sair do trabalho”, dizEm Rio Pardo de Minas, que tem 30 mil habitantes, faltam quatro profissionais para completar o quadro médicoO salário oferecido pelo município é de R$ 20 mil para uma jornada entre 60 a 80 horas semanais“Não conheço médico que trabalhe menos que 60 horas semanaisO interior requer que o profissional trabalhe mais.”