Jornal Estado de Minas

Transporte é considerado caro, ruim, demorado, ineficiente e mal fiscalizado

Jorge Macedo - especial para o EM
Patricia Giudice e jefferson da fonseca Coutinho

 

- Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

Tudo começou com um protesto por diminuição na passagem de ônibus em São Paulo, reajustada pelo governo municipal em R$ 0,20 (de R$ 3 para R$ 3,20)As manifestações se replicaram pelas capitais e pelo interior do paísPrefeitos trataram rapidamente de diminuir o valor pago no transporte público, o que não arrefeceu todos os protestos, principalmente em Belo Horizonte, onde a ocupação da Câmara Municipal, desde sábado, lembra que a batalha está longe do fimPorém, para além da questão financeira, ficou o debate sobre a qualidade do serviço prestado ao trabalhador, estudante, idoso, de qualquer classe socialSeja na Grande BH, seja em Divinópolis, na Região Centro-Oeste do estado, ou em Montes Claros, no Norte de Minas, os usuários exigem que os ônibus sejam mais pontuais, tenham mais conforto e, claro, sejam mais baratos.

O presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Ailton Brasiliense, avalia que o preço é alto demais para a qualidade oferecida nas cidadesE critica, afirmando que o problema é histórico e esbarra na falta de prioridade dos governos à mobilidade coletiva“As cidades não têm corredores de ônibus, não têm semáforos coordenados, Belo Horizonte mesmo foi planejada para o limite da Contorno e os prefeitos deixaram o crescimento soltoHoje, a distância entre o emprego e a moradia é muito longa e isso encarece o custo do transporte”, afirmouMas ele ressalta que as prefeituras precisam fiscalizar os contratos com as empresas e cobrar melhorias para os usuários

Entre a cobrança que não vem e os resultados que demoram, tem gente que passa quase cinco horas por dia, de segunda a sexta-feira, à espera ou dentro de um transporte público precárioÉ a vida que leva Izabelle Karine Martins Moreira, de 19, moradora do Bairro Santa Cruz, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte
De casa até o trabalho, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital, é longo o caminho, até mesmo para quatro lotaçõesE caro: são R$ 3,45 mais R$ 2,80, por trajetoIda e volta somam R$ 12,50 por diaCom 1,77m, Izabelle reclama do espaço entre as cadeirasQuando consegue assento, enfrenta dificuldade para se ajeitar“As pernas precisam ficar apertadas, de lado”, diz.

Para a engenheira de transportes Sabina Augusta Kauark Leite, não falta só conforto: falta regularidade ao sistemaA reclamação, segundo ela, é a que ouve com mais frequência entre os usuários“Às vezes a pessoa está no ponto há 20 minutos esperando, mas não é que a linha esteja deficiente, e sim porque o ônibus ficou parado no congestionamentoPode até ser que algumas linhas estejam incompletas, mas o trânsito atrapalha a manutenção dessa ordem”, explicouA gestão pública, segundo ela, precisa ter mecanismo para analisar a qualidade do serviço prestado e essa avaliação deve valer para manter ou não a concessão do serviço
“Pode haver locais em que a empresa não está operando bem, mas, se o poder público não acompanhar, nunca vai saber para cobrar do operador do sistema.”

Em pesquisa feita pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), 65% dos entrevistados disseram considerar a passagem de ônibus/micro-ônibus muito cara, sendo que 64% da totalidade usa o serviçoO estudo foi feito em 255 municípios brasileiros, todos com mais de 100 mil habitantes, e os entrevistados têm 15 anos ou mais, entre eles muitos chefes de famíliaA maioria, 62%, aponta como principal problema das cidades a violência, seguida de saúde (41%), desemprego (38%) e, em quarto lugar, o transporte (20%)A educação aparece com 14%

Em relação à gratuidade, a engenheira Sabina Augusta defende o benefício para quem tem renda mais baixa, ao contrário de alguns integrantes dos movimentos sociais, que falam em catraca livre para todos os usuáriosA Pesquisa de Mobilidade da População Urbana, da NTU, mostra, por exemplo, que quem recebe mais de cinco salários mínimos compromete apenas 4,2% da renda com transporte coletivo, enquanto quem tem ganha até um salário tem impacto de 53% sobre a renda“Na hipótese de o governo bancar o transporte para a população, lembrando que para isso deixará de investir com outros itens de igual importância, qual é a razão para que essas pessoas da faixa de renda maior tenham gratuidade?”, questiona a especialista

Ela ainda analisa que aqueles que recebem de 3 a 5 salários mínimos comprometem menos de 8% de sua renda com transporte coletivo, como mostra a pesquisa, mas, para os trabalhadores com carteira assinada, o empregador banca 6% e o restante sai do rendimento“Restam então aqueles que não recebem o benefício do vale-transportePara esses e também para quem ganha menos de 3 salários mínimos, deveria haver uma política pública para subsidiar o transporte”, defende.