Jornal Estado de Minas

Andar de ônibus é jornada diária cara que inclui espera, aperto e desrespeito

Jorge Macedo - especial para o EM

Jefferson da Fonseca Coutinho

- Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Pre



Manhã gelada de céu laranja no horizonte do Bosque do JambreiroVinte minutos no ponto esperando pela linha vermelha que vai de Nova Lima, na Região Metropolitana de BH, até o Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul da capitalNo ponto da estrada, descoberto, apenas com o meio-fio como assento, o frio é de trincarDo outro lado da rodovia, o jardineiro desce do ônibus“Dia!”, cumprimenta, a caminho da Alameda das OrquídeasSeu Luís diz ter acordado às 4h para chegar ao trabalho antes das 7hPor que tão cedo? “Moro longe demaisEm Neves.” Enquanto o trabalhador segue seu caminho, o coletivo desponta atrás do posto policial

O alívio é breve: dentro dele já não há assento disponívelNaquele ponto, como sempre, o jeito é ir de pé, com cuidado para não deixar a mochila incomodar os companheiros de assoalho e barras de aço – ali é bastante comum apanhar das bagagensExpressão geral de sono
A moça de cabelos cacheados lê O pequeno príncipe, de Antoine Saint-ExupéryDo alto é possível ver a página ilustrada: “O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor…”De pé, no balanço, uma linha é capaz de deixar qualquer leitor atordoadoAté porque a suspensão é dura e mesmo o asfalto renovado faz sacolejar o coletivoO barulho exagerado do motor ajuda a incomodar.

Os rostos amarrados de trocador e motorista não inspiramSorriso, ali, só nas páginas de Saint-ExupéryQuarenta minutos depois, sem vagar assento, o ponto na Rua Professor MoraesPelo caminho, estudantes e trabalhadores de expressão cansadaÔnibus ruim, desconfortável, de suspensão barata, com forte cheiro de combustível e de passagem cara: R$ 3,95O anúncio diz que, em 1º de julho, vai baixar R$ 0,20
De qualquer forma, ganhar a calçada é um alívio.

Lídia Mara, de 25, mora em Santa Luzia, outro município da região metropolitana da capital, e sabe bem como é essa sensação“Depender de ônibus é horrívelChego a ficar esperando mais de uma hora no ponto”, ressaltaA cobradora precisa acordar às 5h para chegar às 8h ao trabalho“É um serviço caro e sem qualidade”, desabafa.

TEM QUE BAIXAR
Miguel Luiz de Deus, de 78, tem passe livreNem por isso deixou de sentir no bolso o peso das despesas com o transporte público, pois é ele quem paga pelas passagens da filha Sirlene, de 22“São quase R$ 400 por mêsFaça as contas… é caro demaisComo é que a gente dá conta?” O aposentado, insatisfeito com as péssimas condições das linhas, vê com entusiasmo as manifestações das últimas semanasAcho é muito bom esse movimento todoTem que baixar o preço mesmo”, considera.

É dia de Miguel visitar parte da família em Santa LuizaAo menos uma vez por semana, ele faz uso da linha 4155Diz que chega a ficar mais de 40 minutos na Praça da Estação, em BH, esperandoMorador do Bairro São Pedro, na Região Centro-Sul, Miguel, de roupa social colorida, aguarda com paciência o “vermelhão”Ele comenta que tem a tabela de horários afixada em casa“Mas ninguém cumpre o que está láAcompanho direitinho e nadaEles só cumprem nos domingos e feriados, porque o intervalos é de mais de hora”, pontua.

Para o quarteirão da Estação Ferroviária, quadrante sujo e de mau cheiro, muitas linhas convergemÉ a arena de espera para pequena multidão de grande parte dos 34 municípios da Região Metropolitana de BH, entre as 17h e as 20hÉ “pedaço do inferno” para a balconista Elisângela Nunes, de 26A estudante de pedagogia reclama especialmente da falta de estrutura para as crianças e para os mais velhos nos pontos precários

DESPREPARO

Janaina Castro, de 28, usuária diária das linhas de ônibus de Belo Horizonte, também foi às ruas protestar“Não é pelos R$ 0,20É pelo dinheiro da corrupção… nas cuecas e nas meias”, dizA representante comercial é outra a reclamar da falta de preparo de motoristas e trocadores“Ouço muita gente reclamar de como os motoristas dirigemE, realmente, eles são muito mal instruídos”, ressaltaJanaina, que usa lotação para trabalhar nos municípios de Nova Lima, Pedro Leopoldo, Contagem, Vespasiano, Lagoa Santa, Ibirité e Betim, entre outros da região metropolitana, reclama dos  ônibus lotados e da falta de metrô.

Janaina revela ter optado pelo transporte público para reduzir os custos da sua atividade comercial“Estacionamento é muito caro e não há vagas na maioria dos lugaresA opção foi recorrer às linhas de ônibus.” Com licenciatura em ciências biológicas, Janaina já esteve por três anos, como professora, nas salas de aulaVê, com propriedade, que falta de educação influencia a qualidade do transporte público nas grandes cidades“Acompanho o drama da educação no paísAcho maravilhoso o que está acontecendo neste Brasil que quer mudanças”, sorri, com rosto de esperança.


Justiça força fiscalização


Em Montes Claros, no Norte de Minas, por força de decisão judicial o município é obrigado a fiscalizar semanalmente a qualidade do transporte coletivo urbano, devendo verificar aspectos como pontualidade, itinerários e número de veículos suficientes, sob pena de multa diária de R$ 500 em caso de descumprimentoA decisão, de caráter liminar, foi proferida em ação impetrada pelo Ministério Público.

A Empresa Municipal de Planejamento, Gestão e Educação no Trânsito de Montes Claros (MCTrans) sustenta que faz a fiscalizaçãoPorém, entre usuários persistem as reclamações contra os atrasos, más condições da frota, a superlotação nos horários de pico e outras deficiências no serviçoTão logo começou a onda de manifestações que tomou conta do país nas últimas semanas, o prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz (PRB), anunciou a redução da tarifa de R$ 2,40 para R$ 2,30, o que passou a valer domingo passadoMuniz anuncia que prepara uma série de medidas para melhoria do serviço, incluindo construção de novos terminais e faixas exclusivas para ônibus.

A última licitação do transporte coletivo urbano de Montes Claros ocorreu em 2008 e teve como vencedoras as empresas Transmoc e Alprino, que já exploravam o serviço havia mais de 20 anosA concorrência foi onerosa, com as empresas tendo que desembolsar cerca de R$ 12 milhões, destinados a obras de pavimentação e melhorias do sistema viárioNa cidade de 364 mil habitantes há 39 linhas, com 125 ônibus em circulaçãoCerca de 1,7 milhão de passageiros são transportados por mês.

O promotor Felipe Gustavo Gonçalves Caíres, da Curadoria de Defesa do Consumidor, observa que no contrato de concessão do serviço são estabelecidos os critérios de qualidade que devem ser adotados pelas prestadoras“Compete ao município a fiscalização desses critérios para assegurar a qualidade do serviço”, afirma.

Para usuários como o auxiliar de serviços gerais Idelson Soares Ferreira, morador do Bairro São Geraldo I, a fiscalização é deficiente“A qualidade do transporte deixa muito a desejarCirculam ônibus velhos e superlotados”, reclama o trabalhador“Vários têm só uma porta de saída, o que dificulta para os passageiros”, acrescenta Idelson.

Já a presidente da Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Montes Claros, Jaqueline Conceição Camelo, afirma que as concessionárias fazem “todo o esforço” para o cumprimento das normasDisse que as empresas investem na renovação da frota – que tem em média 3,8 anos – e constroem 20 abrigos por ano“Quanto aos atrasos, um problema que enfrentamos é que o trânsito na área central é muito congestionado, aumentando o tempo de viagem.”

União que faz a qualidade

Em setembro do ano passado, Divinópolis, cidade polo do Centro-Oeste de Minas, abriu a primeira licitação para o transporte público na cidadeAté então, seis empresas tinham a concessão do serviçoNo entanto, em vez de se tornarem concorrentes, as empresas se uniram em um consórcio, que recebeu o nome de Trans-OesteO objetivo é melhorar a qualidade dos coletivosO problema é que nove meses se passaram e grande parte dos usuários continua reclamando do serviço.

Segundo o ex-secretário de Trânsito e Transporte e atual diretor do Departamento de Mobilidade Urbana de Divinópolis, Júlio César Valério, o consórcio foi uma forma de facilitar as negociações com as concessionárias“Tínhamos que ter interesse, tanto no bem-estar da população quanto na situação financeira dessas empresas”, explica.

Atualmente, a tarifa é de R$ 2,45 e, segundo o diretor da Trans-Oeste, Felipe Carvalho, não há previsão de aumento para os próximos mesesEle ressalta que a prefeitura fiscaliza as condições dos ônibus a cada seis mesesHoje, a frota da Trans-Oeste é de 162 veículos“Nossa previsão é que, em dois anos, estejamos com a frota totalmente adaptada para deficientes físicos”, acrescenta.

Surpresa, Maria Paula Rodrigues, de 58 anos, conta que não sabia do consórcio e que, como usuária, não chegou a ver nenhuma melhoria no transporte“Continua péssimoPior, impossívelOnde moro, se chover não tem ônibusJá ficamos mais de uma semana sem transporteChove, a empresa fala que não vai mandar e não dá alternativa”, declara.

A auxiliar de serviços gerais Rosângela do Prado, de 38, fica indignada com o preço da passagem na cidade“Numa cidade pequena, em que você fica 15 ou 20 minutos no ônibus, não justifica uma passagem tão caraSem falar que o serviço é péssimoDomingo, não adianta nem ir para o ponto porque o ônibus não passa mesmo”, critica.