Não são apenas as ruas com nomes de castelos, vilas e cidades famosas de Portugal que retratam o perfil do Bairro Castelo, na Região da Pampulha, em Belo HorizonteO bairro, de classe média alta, relativamente novo, e que começou a ser habitado na década de 1980, hoje disputa com outros bairros mais nobres, como o Belvedere e Santa Lúcia, na Região Centro-Sul, a preferência de pessoas de maior poder aquisitivo e atrai a atenção dos bandidos que invadem prédios e fazem arrastõesSegundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), um terço da população do Castelo tem renda acima de R$ 3.390Mas o bairro não para de atrair pessoas com altos salários, principalmente depois de obras viárias que melhoraram o acesso.
Quem mora na região reclama de problemas que contribuem para a violência, como iluminação precária das ruas e falta de policiamentoPara facilitar a ação dos criminosos, o bairro tem várias rotas de fuga, como o Anel Rodoviário e a Avenida Tancredo Neves, recentemente ligada à Pedro II.
O clima entre os moradores é de terrorEm menos de um mês, o prédio onde mora o volante do Atlético Leandro Donizete foi invadido duas vezes por homens armadosO primeiro ataque foi em 25 de fevereiro e o segundo, em 21 de março“Eu saía do apartamento com a minha irmã e a sobrinha de 2 anos e fomos abordadas por quatro homens armadosFomos levadas para outro apartamento, onde já estavam mais de 30 reféns”, conta a dona de casa Eliane de Lourdes Rodrigues Pereira, de 47, que visitava a irmãNo mesmo dia, criminosos roubaram um carro e trocaram tiros com a Polícia Militar (PM) no bairroUm policial militar foi ferido no peito e morreu a caminho do hospital
Terça-feira, o jogador do Cruzeiro Elber Silva foi rendido por um homem armado quando saía de casaO ladrão levou o Hyundai i30 do atletaO carro foi localizado dias depois, no mesmo bairro e ninguém foi preso.
A psicóloga Aurisiane Soares, de 33, fala de sua preocupação“Tenho medoO bairro tem atraído pessoas de maior poder aquisitivo e eles ostentam riqueza, como carros de luxoJá contratamos um porteiro para o nosso prédio”, disse a psicólogaEla conta que mudou sua rotina“Não tenho mais coragem de passear com a minha cachorrinha nos fins de semanaAs ruas são desertas e de repente aparecem dois ou três homens estranhos na sua frente ”, disse a psicóloga.
Outra moradora do Castelo, a economista Luciana Duarte Guimarães, de 39, acredita que o fato de haver moradores famosos no bairro, como jogadores de futebol, o que atrai os ladrões“Estou tão assustada que saio de casa com medo de sequestro-relâmpago
O prédio onde mora o jogador Leandro Donizete tem câmeras de vigilância e sensores de presença, além de porteiroOs moradores também fazem parte da Rede de Vizinhos ProtegidosMesmo assim, não ficaram livre de dois ataquesUma moradora, vítima dos dois assaltos seguidos, está traumatizada e não consegue falar sobre o assunto“Não quero passar por isso nunca maisFui rendida quando trancava o apartamento para sairAgora, olho para um lado e para o outro quando saio da casaSe tiver alguém na rua, volto e tranco o portão do prédio”, disse Simone Conceição de Melo, de 38.
Alvos no comércio
Estabelecimentos comerciais também estão na mira dos assaltantesO salão de beleza onde trabalha Euzilene Silva, de 31, sofreu um arrastão e um arrombamento“Dois homens armados chegaram e renderam cerca de 30 funcionários e clientesLimparam as bolsas de todo mundo”, disse a funcionária do caixaHoje, a porta do salão fica trancada o tempo todo e o cliente precisa se identificar para entrarSilvani Alves, de 29, que trabalha em um restaurante ao lado, conta que o local foi arrombado quatro vezes em três meses“A gente passa as imagens das câmeras para a polícia, mostrando o rosto dos bandidos, mas eles não prendem ninguém”, reclama.
A Polícia Militar e a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) não divulgam números de assaltos no CasteloA Região da Pampulha, como as demais da capital, foi dividida em setores pela PM e o Castelo, o Alípio de Melo e Manacás são atendidos pelo setor 34.1 da 8ª Companhia do 34º Batalhão, sob o comando do tenente Paulo Machado“A PM faz o seu trabalho, incrementa operações e faz abordagensO saldo de prisões é positivoAlém do efetivo para atuar na prevenção de crimes e no atendimento de ocorrências, temos uma moto preventiva e uma viatura comunitáriaOutra equipe fica por conta do centro comercial”, disse o tenente.
De acordo com o oficial, o Castelo é passível de delitos como qualquer outro da capital“Estamos nos aproximando mais da comunidade e apostando na Rede de Vizinhos ProtegidosEm 57 ruas já temos 40 redes criadasÉ uma forma de trazer a comunidade para junto da gente para atuação na prevenção de crimes”, disseSegundo ele, o bairro tem 20 mil moradores e tem atraído jogadores do Cruzeiro, Atlético e América, que preferem morar próximo do trabalho.