Diante da constatação de que apenas repressão não funciona – dos sete menores apreendidos no local na sexta-feira, a maioria estava de volta no dia seguinte –, autoridades municipais, estaduais e do Judiciário anunciaram ontem que vão monitorar as crianças e adolescentes que perambulam na Praça Hugo Werneck, no Bairro Santa Efigênia, área hospitalar de Belo Horizonte, oferecendo risco de violência a pedestresA meta é montar uma força-tarefa para estimular a aproximação com os jovens e ampliar a assistência socialOntem, o presidente da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa, deputado João Leite (PSDB), organizou uma visita ao local, mas quatro menores já haviam sido recolhidos logo cedo pela Polícia Militar.
Moradores e comerciantes pediram providências contra a sujeira e a insegurança“Eles encaram todo mundo, usam do poder de serem menores”, afirma o provedor da Santa Casa de Misericórdia, Saulo CoelhoEle reclama que os adolescentes usam tíner, abordam médicos, pacientes e acompanhantes e até invadem o hospitalA dona de casa Maria Luiza Madeira, de 54, acompanha o neto que se recupera de cirurgia, e por oito dias, tem visto pela janela do quarto as cenas da praça“Fico aflita porque vejo roubos, brigas e consumo de drogasEssas crianças estão perdidas e cada uma é mais nova que a outra.”
O comerciante Danilo Abreu, de 38 anos, diz que trabalha com um porrete ao lado do caixa e um canivete no bolso“Voltei da audiência na assembleia na semana passada e eles estavam apedrejando a minha lanchonete porque queriam entrar para incomodar os clientes.” Ele explica que os menores fazem sexo na praça e são aliciados por adultos que vendem tíner
TRATAMENTO Para a juíza da Vara Infracional da Infância e Juventude de Belo Horizonte, Valéria da Silva Rodrigues, a apreensão dos menores não vai resolver o problema da sociedadeEla explica que os adolescentes só podem ficar recolhidos se forem reincidentes e, ainda assim, dependendo da gravidade do ato
A Secretaria Municipal de Políticas Sociais (SMPS) identificou 33 crianças e adolescentes que têm a praça como referênciaDois apareceram ontem no fim da manhã, aparentemente sob efeito de substâncias entorpecentesEles foram apreendidos na sexta-feira e levados ao CIA-BH e depois a um centro de acolhimento antes de voltar às ruasS., de 16 anos, tem três passagens pelo CIA e disse que queria tratamentoEle contou que foi expulso de casa, em Ribeirão das Neves, na Grande BH
Segundo a gerente de Projetos Especiais da SMPS, Denise Magalhães, há 873 vagas para menores em 51 abrigos municipais“Tem de ter capilaridade e aprofundar cada caso para avaliar a possibilidade da melhor ofertaTemos serviços de boa qualidade, mas precisamos um pouco mais de coberturaA quase totalidade dessas crianças e adolescentes faz uso de tíner e consome drogas, mas o acolhimento institucional não funcionaÉ uma política muito cara, que gasta R$ 2,2 mil por mês com cada criança acolhida”, diz ela.
RISCOS O subsecretário estadual de Políticas sobre Drogas, Cloves Benevides, afirma que a força-tarefa poderá avaliar as ações e definir metas“A estrutura de repressão não pode ser a única açãoA repressão tem limitePrecisamos chegar mais próximo dos adolescentes numa convivência diária, para desconstruir a necessidade da vida na ruaPor isso, a orientação é ampliar o trabalho de atendimento e de acolhimentoQueremos um monitoramento constante dos menores.” Para o deputado João leite, esste é um problema de saúde e os menores em situação de vício precisam de tratamento
Promotor de Justiça da Vara de Atos Infracionais, Lucas Rolla avalia que a lei ainda é branda“A situação está um pouco mais preocupante porque a PM costuma prender por pequenos delitos, mas a lei é frouxa e não nos dá ferramentas adequadas para atuar em casos como o da praçaAtos leves, de pequenos furtos, nem o adulto acaba encarcerado”, afirmaNa semana passada, a ação da Justiça não encontrou nenhum dos menores com medidas já decretadas pela Vara Infracional da Infância e JuventudeDos 16 mandados de acautelamento, quatro eram medidas de internação, dois de semiliberdade e dois de internação temporária de 45 dias, para que aguardem o julgamento apreendidos.