Vinte e sete quilômetros e trezentos metros de asfalto, medo e imprudência“Anel Rodoviário Celso Mello Azevedo”O nome é de gente grande, de tutanoHomenagem ao médico e engenheiro, prefeito de Belo Horizonte nos anos 1950Na pista, média de 150 mil veículos em trânsito e nove acidentes por diaSó em 2012, foram 3,3 mil ocorrências anotadas pela Polícia Militar Rodoviária (PMRv) – quase a metade da soma geral de colisões nos 34 municípios que formam a região metropolitanaNão imaginava o doutor Azevedo o caos na via em que cada vez mais carretas, caminhões, carros, motos, pedestres e moradores dividem espaçoHouvesse automóvel na Grécia Antiga, teríamos o deus da estradaAqui, bastante ocupado com o que se tornou uma grande avenida
Fumaça, mato e ladrões
De costas para o Anel Rodoviário, o Cristo Redentor, do Bairro Milionários, na Região do BarreiroA estátua de braços abertos beira 12 metros de altura e 14 metros de uma mão à outra
Elismar Menezes dos Santos, de 29 anos, e Leninha de Oliveira, de 35, não dão mole para o azar e respeitam a passarelaA doméstica e a auxiliar de serviços gerais seguem para o Lar dos MeninosVão visitar familiar querido, interno na casa de apoioElismar teme o AnelNão só pelos veículos desembestados, mas, particularmente, pelos assaltos“Já fui assaltada duas vezesOs bandidos não estão nem aí se tem alguém por pertoAssaltam mesmoDa última vez, um caminhoneiro parou para me ajudar”, conta
São fortes as sensações no traçadoCabeça adentro, a invasão do zumbido da velocidadeOs ruídos múltiplos das descargas de duas rodas, dos pequenos de passeio e dos grandalhões de muitos eixos dificultam as conversasAssunto que não falta é a fumaçaO cheiro naquele ponto não é menos marcante: uma combinação exagerada de borracha queimada, combustível, mato, poeira, cimento e os restos mortais do pássaro-preto tatuado no chãoVê-se lixo às pampas no circuito
As passagens de segurança pelo alto das duas mãos de 27,3 quilômetros valem capítulo à parteSão insuficientes e sem padrão – o que enfeia ainda mais a grande avenidaBeleza não faz estradaEstá certoMas nem todas as passarelas são segurasA do traçado no Bairro São Francisco, por exemplo, empenada, tem tábuas soltas nas escadasSem falar nos abusos dos motoqueiros, que insistem em transitar pela estrutura, e nos assaltos constantes que assombram os pedestres.
“Um estrondo e tanto” que despertou o carreteiro Ronaldo Vítor Diniz, de 32, à espera de socorro para o “bichão”Com o acidente, brecha para passagem de apenas um veículoDaí a lentidão, que durou três horasSossegado, Ronaldo não reclama a falta de sorte“Graças a Deus ninguém se machucou”, agradeceEntretanto, cobra solução para a via, que ele diz conhecer bem, “como a palma da mão”“Tem que aumentar pelo menos uma pista pra cada lado que já tava bão”, sugereOlhos fundos, avermelhados, faz considerações: “Não vou além do meu limiteNão trabalho por comissão, trabalho por salário”
Mais tarde, entre as 9h e as 16h, vários outros trechos de retençãoOra pelos veículos quebrados, ora pelos serviços de limpeza e verificação da sinalizaçãoNo rumo da Avenida Pedro II, o carro de braço mecânico suporta nas alturas o operário voadorHora de seguir viagemOutra figura peculiar no traçado é o chapa de caminhãoSão muitosNoraldino Santos, de 62, há 20 anos faz ponto no AnelChega às 5h30 para pegar no pesado de segunda a sexta-feiraCobra R$ 70, R$ 80 por empreitada“Mas tem dia que a gente não tem serviço”, lamenta.
A vida sob o viaduto
Nayara não demora e traz o vidro“Peguei estes ontem, na minha cama”A casinha, sob os dois arcos do viaduto, é iluminada por uma faixa de luz vinda da arestaOs cômodos são delimitados por pedaços de compensado, placas de aço e papelãoO chão batido é de cimento e barroPobreza de fazer doer o coraçãoAli, qualquer resto é luxo para as 600 famílias que vivem na comunidade.
Espetáculo de imprudência
“É bom o acesso rápido entre um bairro e outro, mas carro leve e caminhão pesado não combinamAinda mais quando temos gente sem preparo, sem maldade para transitar entre caminhões”, consideraPara o motorista da linha 2480 – São José/Cidade Industrial –, são muitos os que não valorizam a própria vida“E ainda colocam em risco a vida dos outros”, pontuaJá para o engenheiro Luís Henrique, de 43, morador do Bairro Dom Bosco, na Região Noroeste, que diz ter crescido às margens do assunto, há tempos o Anel não recebe a atenção devida“Já perdi a conta de quantas vezes as obras foram adiadasNão tem passarelas suficientes e o afunilamento em diversos pontos é uma casca de banana para qualquer motoristaA situação do viaduto da Praça São Vicente é um desrespeito”, critica.
Perto dali, no vizinho Califórnia, no trevo que dá acesso à BR-040, um homem espera para cruzar a alçaÉ Antônio Francisco da Silva, de 54, ciclista e ferramenteiroMorador da região desde os anos 1960, o teófilo-otonense nunca teve carteira de motoristaSeu negócio, desde garoto, é mandar bem no pedalNa companhia de sua Monark cor-de-rosa 1973, ele conta que chega a gastar quase hora para atravessar o Anel“Ultimamente, tem mais carro que genteVendem mais carro mas não arrumam o lugar para o carro passarA gente que gosta de bicicleta sofre.”
Um clamor por educação
Islane Gonçalves, de 43, é autoridade no AnelPolicial militar rodoviário desde 1995, diz que o problema maior é a falta de educação e respeito às leis de trânsito“O maior número de atropelamento com vítima de morte é debaixo das passarelas…”O sargento interrompe a entrevista para chamar a atenção do garoto pedestre que, ao seu lado, acaba de arriscar a vida“Olha a passarela lá”Volta-se para a reportagem: “Estão vendo? É isso o tempo todoA pessoa não respeita a própria vida”, lamenta.
O policial relembra o acidente do dia anterior em que jovem, depois de cair da garupa de motocicleta, foi esmagada por carreta“Os motoqueiros querem ultrapassar entre duas carretasUm fio de navalhaQualquer desequilíbrio é fatal.” Sargento Islane afirma que o uso de celular tem se tornado o segundo grande vilão do trânsito, atrás apenas da embriaguez“As pessoas têm usado cada vez mais o celular enquanto dirigemUm perigoIsso rouba a atenção”, ressalta
Dia e noite, ao longo de todo o traçado, do Bairro Olhos d’Água, na Região Oeste, ao Bairro Nazaré, na Região Nordeste, são muitos os aventureiros que se lançam à sorte do asfaltoNatália Izidoro de Freitas, de 22, com a pequena Ana Carolina nos braços, corre e passa susto entre os carros no Bairro Jardim VitóriaAbordada, sorri sem graça e diz saber do perigo“Mas a gente não tem outra opção porque a passarela fica muito longe”, justifica.
No mesmo trecho, é a vez de Adair, o “Matacavalo”, arriscar-se com sua carroçaMatacavalo? Por quê? “Olha só o que ele está fazendo ali, uai!” Quem responde é um conhecido do sujeito, que testemunha a loucura do carroceiro ao entrar com o animal na contramão, bem na frente da carreta carregada, obrigando o motorista a pisar fundo no freio e assustar a plateia no acostamentoEnquanto o Matacavalo tenta se entender com o carreteiro, adultos e crianças cruzam a via.
Na Borracharia do Negão, a média de serviço é de 15 veículos por diaOs irmãos Zé Carlos, de 40, Ronaldo, de 39, e Ricardo, de 36, no braço, levam adiante o estabelecimento de 1982, aberto pelo pai, Zé Maria, o Negão, falecido há quatro anos“O pai deixou uma lição: o trabalhoCrescemos aqui, trabalhando desde criança”, diz Zé CarlosConhecedor das agruras do Anel, o borracheiro aponta os acessos dos viadutos como a principal causa dos gargalos sem fim.
Bem ao lado do endereço, carcaça de automóvel vira abrigo para viciadosA droga é outro problema visível às margens do Anel RodoviárioEm diversos trechos, em quebradas das marginais, movimentos suspeitos e usuários descarados de maconha e crackViciados nos bairros São Francisco e Nova Cachoeirinha, nas cercanias da Avenida Antônio Carlos, mal conseguem se manter de péNo alto, jato de fumaça risca o céu.
No carrão preto importado, mais um flagrante de imprudência e falta de amor à vida na grande avenida rodoviáriaO moço bem- apessoado de óculos escuros e cabelo emplastado, sobre o viaduto da Avenida Amazonas, na Cidade Industrial, parece bem feliz e à vontadeO bonitão tem o cigarro aceso na mão direita, o aparelho celular ao ouvido pela mão esquerda e o possante, em movimento, nas mãos de Deus.
Chutes e dribles
Adonai Rômulo, de 17, diz que já tentou as categorias de base do América“Tava muito bom… fui ficando, mas como não tinha dinheiro para pagar passagem, não pude continuar tentando entrar para o time”, lamentaAo lado de Max, Felipe, Diogo, Thiago, Jonathan e Fabrício, Adonai treina pelo melhor futebolO grupo faz parte do plantel do Vila Real Futebol Clube, fundado em 2002Agremiação sem apoio ou patrocínio, mantida pela força e coragem dos moradores do lugar.
Contrastes no mercado de sexo
Móteis de luxo, drive-in, casa de shows, prostitutas e travestis são paralelo à vida no asfaltoA funcionária do estabelecimento de 12 boxes com banheiro comenta que o maior movimento é à noiteSe no drive-in, de R$ 15 a hora, o movimento ainda é menor, nos motéis a história é outraPor telefone, a moça de voz aveludada diz que a procura é grande no almoço e nos fins de tardePela bagatela de R$ 300 – até três horas –, ofertam-se mimos de Primeiro Mundo: piscinas térmicas, comes e bebes finos e decoração estilizada
Contraste com as prostitutas e travestis baratos, de beira de estrada, que se oferecem por R$ 10 nos quilômetros finais da via, em pontos próximos à saída para a BR-381Do outro lado, ao avesso, rumo ao Rio de Janeiro, tem boate que cobra R$ 25 de entrada pelos shows eróticosJá pelos quadris das meninas de aluguel, o preço é do tamanho do gosto e do bolso do freguêsDo lado de fora de um dos pontos de sexo da rodovia, a vira-lata no cio se diverte com o cão magrelo.
* As fotos foram feitas com telefone celular